Parar de fumar se torna ainda mais difícil durante a pandemia

Os reflexos da pandemia da Covid-19 na saúde mental trazem desdobramentos importantes que vêm sendo apontados em diversos estudos no país e no mundo. Uma pesquisa recente divulgada pela Fiocruz revela que 34% dos fumantes brasileiros aumentaram a quantidade de cigarros consumidos neste período. Além de tudo, o cigarro traz riscos para a saúde física, sendo um fator agravante para inúmeras doenças, incluindo a Covid-19. O estudo indica ainda que os tabagistas entrevistados também apresentam deterioração da qualidade do sono e alegam ter agravados os sintomas de tristeza, irritação e sentimento de solidão.

A pneumologista Ana Clara Schulerman destaca que o conjunto de condições que afetam a qualidade de vida do indivíduo interfere diretamente no processo de largar o hábito de fumar, criando uma bola de neve.

“A nicotina é altamente viciante e, quando associamos a intensificação deste hábito ao aumento do estresse e ansiedade, pode-se potencializar o risco de doenças graves”, explica a especialista.

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil conta com 22 milhões de fumantes. Estima-se, ainda, que mais de 157 mil pessoas morrem todos os anos por doenças associadas ao tabagismo. Entre essas pessoas está o empreiteiro Carlos Xavier, de 23 anos, que fuma desde os 17 anos, mas agora está no processo para largar o cigarro.

“Não é a primeira vez em que tomo a decisão de parar de fumar. Há muitos motivos pelos quais eu quis abandonar o cigarro. Um deles é o meu problema respiratório. Sabia que futuramente o cigarro me traria problemas, então precisava parar antes que os malefícios do cigarro me atingissem. Tive outros motivos também. Como a recente morte do meu tio, que encontrava-se irreconhecível por causa dos processos cirúrgicos que passou devido ao câncer na garganta”, conta.

São duas semanas sem fumar e ele conta uma tática que está ajudando quando a falta da nicotina aparece.

“Uso métodos de distração durante o desejo de fumar que duram em torno de 15 à 20minutos. Eu jogo algum joguinho, como Paciência enquanto saboreio uma bala de café”.

O tabaco causa diferentes tipos de inflamação e prejudica os mecanismos de defesa do organismo. Por esses motivos, os fumantes têm maior risco de infecções por vírus, bactérias e fungos. Com isso, podemos dizer que o tabagismo é fator de risco para a Covid-19. Devido a um possível comprometimento da capacidade pulmonar, o fumante possui mais chances de desenvolver sintomas graves da doença.

Logo no início da pandemia, a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT/OMS) publicou um documento no qual informou que pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong, em Wuhan, na China, haviam constatado que as chances de progressão da doença e de óbitos entre fumantes eram 14 vezes maiores do que em não fumantes.

LARGANDO O VICIO AOS POUCOS

Para Carlos, o processo para abandonar de vez o vício da nicotina, está sendo feito com o apoio da esposa Anna.

“Ela achou um aplicativo que contabilizava os dias que estou sem fumar, o percentual de saúde recuperado por dia e por cigarro que eu deixei de fumar. Além de contabilizar a economia financeira e me mostrar o quão saudável posso voltar a me tornar deixando o tabagismo de lado”.

Ana Clara Schulerman diz que em qualquer situação, decidir parar de fumar é difícil e passa em algum grau pela gestão da abstinência. Ela entende que pode ser ainda mais desafiador durante uma pandemia, quando há diversas situações estressantes. Mas, para ela, o fumante precisa ponderar os riscos que corre, especialmente neste momento, e considerar esse contexto de pandemia como uma janela de oportunidade para dar um adeus definitivo ao cigarro.

A pneumologista Ana Clara Schulerman destaca que o conjunto de condições que afetam a qualidade de vida do indivíduo interfere diretamente no processo de largar o hábito de fumar

“Começa devagar. Não precisa cortar o cigarro todo no mesmo dia. Vai diminuindo a quantidade por dia. Se fuma um maço por dia, tenta dividir um maço para dois dias. E assim vai até parar de vez”, explica.

Dia após dia sem consumir o cigarro, é uma vitória e um desafio pessoal para Carlos.  “Meu cigarro havia acabado durante a manhã e deixei para comprar somente a noite. Logo mais, a noite, eu decidi ver se aguentava ficar até o dia seguinte. E assim, fui me desafiando dia após dia. Sempre que o desejo de fumar vinha, eu olhava para trás e via o tempo conquistado em que parei de fumar e pensava que não valia a pena jogar esse esforço todo fora”.

Mas algumas pessoas, mesmo com o medo de que os sintomas da Covid-19 sejam agravados, não conseguem largar o cigarro tão fácil. É o caso da arquiteta Maria Helena Medeiros, de 57 anos, que fuma há 30 anos. Ela já tentou parar quatro vezes, mas sem sucesso.

“Eu tenho transtorno de ansiedade. Quando tento parar, até consigo ficar uns três dias sem fumar. Mas depois disso começo a sentir uma agonia, me vem o medo de ter crise de ansiedade, e eu acabo fumando. Mas eu tenho muito medo de pegar Covid e isso me trazer complicações mais sérias. Eu tenho problemas respiratórios o que, por si só já é um agravante”, conta.

Segundo Ana Clara Schulerman, de 7 a 19 segundos após ser inalada, através do cigarro, a nicotina atinge o cérebro e vai agir no Sistema Nervoso Central liberando várias substâncias conhecidas como neurotransmissores.

“Elas vão estimular todo um mecanismo neurológico que resulta na sensação de prazer, modificando assim o estado emocional e comportamental da pessoa. Assim como acontece com outras drogas, sejam elas cocaína, heroína ou álcool, o indivíduo terá o seu comportamento alterado de forma ‘não natural’ e sim em decorrência da ação de uma substância psicoativa”.

Estudos apontam que a pressão arterial e a frequência cardíaca diminuem após 20 minutos livres do cigarro. E a diminuição das taxas de oxigênio no sangue ou nos tecidos, decorrente da intoxicação crônica por gás carbônico, tende a desaparecer depois das primeiras oito horas sem fumar. Após um dia de abstinência, há melhora da circulação sanguínea e, após duas a 12 semanas, caem os riscos de trombose e doenças cardíacas.

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