Para manter viva a história de Niterói

Geovanne Mendes –

Quem não se lembra ou nunca ouviu falar dos finais de semana memoráveis em família na beira de uma piscina ou praticando algum esporte em uma das dezenas de unidades socioesportivas que existiam em Niterói. Os clubes, muitos deles centenários, contam um pouco da história da própria cidade. Eram nos clubes de Niterói, por exemplo, que muitas famílias se formaram, com início de namoros e histórias de amor, contadas até hoje pelos mais idosos. Mas como num passe de mágica e algumas administrações desastrosas, estes espaços de lazer e convívio social foram se dissolvendo e praticamente desapareceram ao longo das últimas décadas. É muito comum, hoje em dia, ver que os clubes e suas instalações vieram abaixo para dar lugar a condomínios super equipados, com tudo o que há de mais moderno quando o assunto é entretenimento e lazer. Os chamados prédios clubs proporcionam piscinas, churrasqueiras, saunas, quadras de tênis, espaços kids e gourmet, e outros atributos que estimulam as famílias proprietárias a permanecer no conforto de casa e evitar se arriscar pelas ruas perigosas da cidade. Assim, não se vê mais sentido em obter títulos de sócio em clubes, o que faz com que os remanescentes, ou sobreviventes, tenham que usar a criatividade para continuar com as portas abertas, com um número ínfimo de sócios, que contribuem para que a história da cidade não desapareça tão facilmente.

O primeiro a sofrer com o assédio das imobiliárias e construtoras foi o Icaraí Praia Clube, que depois de muitos problemas financeiros não resistiu e deu lugar a um condomínio de luxo. Outro que também cedeu o espaço para o mercado imobiliário foi o Clube Italiano, no Cafubá, Região Oceânica. Durante uma entrevista, o então presidente e fundador, Pietro Polizzo, culpou as grandes infraestruturas dos condomínios como responsáveis pela decadência dos clubes sociais da cidade. “Fica muito difícil sobreviver ao boom do mercado imobiliário com condomínios que oferecem o que há de melhor em lazer”, disse o fundador do clube, que em 2013 tinha apenas 100 sócios pagantes.

Quem vive uma realidade completamente diferente, apesar do assédio constante de construtoras e imobiliárias, que oferecem cifras multimilionárias para construir complexos residenciais, é o Fluminense Atlético Clube, que fica no coração do Centro de Niterói e, graças a uma administração focada em resultados, conseguiu aumentar em 30% o número de sócios e hoje ostenta 1.422 sócios proprietários e 180 sócios pagantes, que desembolsam mensalmente R$ 60 para manter a estrutura do clube, que completou 104 anos no último dia 7. Mas, de acordo com o presidente, que há oito anos administra o clube, nem sempre tudo foi flores. Segundo Aluir de Oliveira Moreira, de 67 anos, o clube tinha uma dívida de cerca de R$ 1 milhão, entre penhora e dívidas com ações trabalhistas e também débitos no INSS, que foram parcelados e quitados ao longo dos anos.

“Um dos segredos do clube, que possui uma despesa mensal de R$ 20 mil, foi diversificar as atividades e aproveitar melhor o espaço. Temos piscina, dois campos de futebol society, churrasqueira e aproveitamos o nosso espaço e criamos um estacionamento com 140 vagas, onde a diária custa R$ 10. Além disso, permitimos a instalação de uma antena de telefonia móvel, que nos rende todo mês cerca de R$ 13 mil. Não devemos absolutamente nada, nem água e nem luz, absolutamente nada. Diariamente recebemos ofertas de imobiliárias, mas enquanto eu estiver vivo lutarei pela história do Fluminense Atlético Clube, que conta parte da história da cidade”, luta o presidente Aluir, que em novembro passa o bastão para a próxima administração.

Fundado em 14 de novembro de 1913, o tradicional Clube Canto do Rio, no Centro, também vem sofrendo com a concorrência dos novos condomínios. Hoje são apenas 600 sócios pagantes e uma dívida que dobrou em quatro anos, hoje chegando aos R$ 5 milhões. Para evitar fechar as portas e ceder às investidas de imobiliárias, que só no ano passado fizeram três propostas de compra, a administração também está apostando na revitalização do seu espaço físico e na realização de eventos sociais.

“Estamos revitalizando os espaços para possibilitar a locação para eventos e melhorar a frequência dos associados, também estamos investindo no social, com a realização diversificada de eventos para os diversos públicos. Realizamos parcerias na parte esportiva, o que possibilitou disponibilizar para o quadro associativo e ao público em geral diversas atividades esportivas, além das escolinhas de futebol com a parceria com o Fluminense FC, que está tendo uma grande procura”, afirmou o clube através de uma nota.

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