Pandemia pode gerar transtornos pós-traumáticos, apontam especialistas

Augusto Aguiar

Tão perigoso quando a própria pandemia de coronavírus que assola o mundo é o legado que ela pode deixar, sobretudo no ponto de vista metal. Para o médico psiquiatra e mestre em Saúde Pública, Bruno Pascale, tudo conspira para o chamado “baixo astral”, inclusive no pós-pandemia, que não se sabe quando vai acontecer. Datas religiosas representativas como Páscoa, feriados, e aniversários foram deixadas de lado. E o que dizer sobre o Dia das Mães? Sepultamentos sem a presença de entes mais próximos, e inúmeras recomendações, deixam clara uma pergunta: Como – e quando – sairemos de tudo isso?

“A pandemia pode gerar vários problemas e distúrbios nas pessoas como ansiedade, ataques de pânico, e também o transtorno de estresse pós-traumático, que são as questões de pesadelo, insônia que o indivíduo tem da vez que lembra dessa situação. Isso também faz com que a pessoa tenha um aumento na questão da desesperança. A pessoa começa sofrer um desequilíbrio em relação ao que vai acontecer. Fica pessimista”, afirmou Pascale.

As questões econômicas também servem como gatilho para desencadear problemas psíquicos.

“Problemas econômicos também atrapalham a questão da saúde mental do indivíduo. Ele fica mais estressado quando vê que não tem o dinheiro para lidar com essa situação. Provavelmente 2020 já é um ano marcante do ponto de vista pra saúde mental de qualquer um, porque houve um retrocesso nas condições sanitárias e nas condições econômicas, o que gera piora dentro do quadro dos transtornos mentais”, disse o psiquiatra.

Para o médico, certamente haverá sensação de mal estar de se evitar essas lembranças. Segundo ele, atualmente as pessoas estão sofrendo com a falta de esperança, e isso abala a saúde mental. Os números da estatística, dados, perdas, tudo isso contribui para desencadear algum tipo de transtorno.

“O que é importante é que nesse momento se evite ficar parado dentro de casa. Faça exercícios, tenha uma rotina, procure ter contato com outras pessoas através da tecnologia. Tente manter uma rotina dentro das possibilidades, procure adquirir novas habilidades, ou faça cursos online, etc”, orientou Pascale.

IMPACTOS DIFERENTES

A psicóloga e psicanalista Maira Allucham explica que tem surgido muitas perguntas sobre os efeitos psicológicos pós-pandemia. Questões como algum meio de nos protegermos ou enfrentarmos estes possíveis efeitos psíquicos que a pandemia, quando retornarmos às nossas rotinas habituais, entre outras.

“Primeiramente é preciso considerar o cenário atual. A pandemia, com a repentina mudança em nosso cotidiano, com o isolamento social, com as incertezas, com o medo de morrer ou de perder pessoas queridas, dentre tantas outras coisas, são fatores que afetam diretamente a saúde mental das pessoas. Nunca vimos antes uma preocupação tão grande com a saúde mental como temos visto agora, muitos já estavam em sofrimento psíquico e a pandemia de certo modo deixou isso tudo mais exposto”, explica.

Ela acrescenta que a todo momento estamos sendo convidados a reinventar nossas relações com os outros e coma vida.

“Vivemos constantemente uma virtualidade do real. A imprevisibilidade deste cenário traz, muitas vezes, uma sensação de desamparo e de angústia. E, por nunca termos vivenciado algo parecido, não temos recursos psíquicos para representar o que virá a posteriori. Cada um vai enfrentar a pós-pandemia de uma maneira singular. Não podemos determinar que todos nós sofreremos um impacto na saúde mental da mesma forma”, ressaltou.

Maira afirma que não tem dúvidas que a chamada pós-pandemia trará efeitos significativos na vida das pessoas.

“Talvez até mais do que no decorrer deste período de isolamento. Mas não devemos cair no discurso patologizante como muito se tem propagado. Temos sempre que lembrar que cada um irá vivenciar isso de um modo único. Ouvimos muito o discurso que sairemos melhores depois disso tudo. Porém, considero isso um grande engodo. É preciso que cuidemos não só de nós, mas também uns dos outros para que os efeitos pós-pandemia não produzam em nós ainda mais sofrimento. Da pandemia ninguém escapa. Então, para nos prepararmos para os efeitos psíquicos da chamada pós-pandemia é preciso que estejamos conectados com aquilo que nos traz leveza, aconchego e certa segurança. É preciso que cuidemos da nossa saúde mental agora para que após a pandemia possamos ter aparatos psíquicos para enfrentar as consequências disso tudo que nos tem assombrado”, concluiu.

Para a psicóloga clínica Úrsula Campos, o momento é de novas adaptações e de mudanças.

“Estamos tendo que ver novas possibilidades de lidar com o hoje, com o presente. Diante da falta de contato com o outro, com o afeto. Isso é muito difícil. Pode vir a causar estresse e ansiedade, não só agora como no pós-pandemia também. No pós-pandemia acredito que as coisas vão voltar mais lentamente ao lugar. Uma nova adaptação ao contato com as pessoas. A depressão não é só tristeza É uma falta de energia, uma falta de realizar coisas cotidianas que você tinha prazer”, diz.

Ela orienta que é positivo ficar atento ao comportamento e voltar a atenção para o autoconhecimento. Para isso a tecnologia tem sido uma grande e importante aliada.

“Nesse momento é importante que a gente busque aliviar o estresse e a ansiedade e procure se conectar com outras pessoas. Porém, é muito importante evitar todo o excesso, porque isso gera ansiedade e pânico. Temos que buscar recursos que minimizem a ansiedade, até para que os efeitos da pós-pandemia não sejam tão intensos. Temos que buscar exercícios de respiração, meditação, e tudo isso está disponível na internet”, orientou.

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