Pandemia causa efeitos colaterais também na saúde mental

O quadro pandêmico que se estende há mais de um ano no mundo, afetou a população de diversas formas. O medo e as incertezas que a Covid-19 trouxe fizeram muitas pessoas desenvolverem transtornos mentais que nunca tiveram, ou agravou aqueles que já estavam em tratamento. Um levantamento feito pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) entre os meses de agosto e novembro de 2020 identificou que houve um aumento de 82% no número de novos casos de transtornos mentais e da procura por tratamento nos consultórios particulares de psicologia e psiquiatria. O estudo mostra ainda que 70% dos pacientes que já tinham recebido alta do tratamento tiveram recaídas durante a pandemia.

É o caso da operadora de telemarketing, Luciane Bezerra, de 39 anos, que nunca teve problemas para dormir, mas ficou com tanto medo de adoecer com o coronavírus, que acabou desenvolvendo transtorno de ansiedade. Já a engenheira, Mylena Rios, de 30 anos, fez tratamento contra a depressão e já estava se sentindo melhor, quando precisou retomar o atendimento alguns meses após o início da pandemia.

Luciene Bezerra conta que sempre teve uma vida considerada normal e nunca se sentiu mal ou ansiosa em relação ao dia a dia. Mas com a chegada da pandemia, isso mudou e ela passou a viver com o constante medo de ficar doente.

“Eu ia pedir demissão, quando meu chefe resolveu colocar todo mundo para trabalhar de casa. Com isso, eu não saía para nada. Ligava para o mercado e encomendava tudo, ligava para a farmácia. Quando as compras chegavam, eu passava quase uma hora higienizando tudo. E isso começou a me adoecer. Eu ficava muito ansiosa como se alguma coisa muito ruim fosse acontecer a qualquer momento. Mas eu não aceitava buscar nenhum tratamento porque achava que terapia não era necessário. Depois de uns 6 meses me sentindo mal, eu decidi que era hora de procurar ajuda médica e iniciei a terapia online. Foi a melhor decisão”, conta.

Muitas pessoas demoram a iniciar o tratamento por preconceito ou por falta de conhecimento. A psicóloga Fernanda Rocha acha que o maior impedimento para a busca da terapia é a falta de conhecimento e que para mudar isso, somente uma conscientização em massa seria a solução.

Psicóloga Fernanda Rocha

“O preconceito ainda é visível, mas já vem mudando muito com o tempo. O maior problema continua sendo a falta de conhecimento. As pessoas desconhecem que são feitas de emoções e que a má administração delas gera doenças. Uma conscientização em massa das pessoas, empresas, governo, instituições, da mídia. Infelizmente esse conhecimento não é passado nas escolas, o que deveria ser uma prioridade”, explica.

A psicanalista Andrea Ladislau diz que o medo da discriminação ou exclusão por fazer terapia e passar por acompanhamento é real nas pessoas, pois ainda imperam os velhos tabus da sociedade onde prevalecem frases do tipo: “terapia é coisa de maluco”; “Não estou louco para precisar ir a esse profissional”.

“Com esse pensamento o agravamento de doenças mentais se avoluma por conta da resistência em aceitar ajuda de um profissional de saúde mental. Em muitos casos, temos pacientes que quando chegam a procurar atendimento, descobrem que ao invés de ter apenas um tipo de transtorno, acabaram desenvolvendo vários transtornos associados, dificultando ainda mais o tratamento que visa o equilíbrio entre corpo e mente”, afirma Andrea.

Falta de dinheiro não é obstáculo – Algumas pessoas alegam não terem condições financeiras para buscar tratamento psicológico. Mas a psicóloga Fernanda Rocha diz que não há desculpa. Muitos locais fazem atendimento a preço popular ou de forma gratuita.

“Os órgãos de saúde pública oferecem atendimento psicológico, emergência psicológica e psiquiátrica gratuita. Alguns locais da unidade básica de saúde: Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), que são responsáveis pela oferta de serviços de proteção básica do SUS. Postos de Saúde e Saúde da Família, Policlínicas e UPAS também oferecem serviços de saúde mental e orientam pessoas nesse sentido. Hoje, com a pandemia, também há um aumento de oferta de serviços psicológicos online, com acolhimento e atendimentos gratuitos por conta dos altos níveis de ansiedade gerados nesse período”, ressalta.

E para diminuir o estigma em torno das doenças mentais no país e contribuir para a conscientização da população em torno desse tema, Andrea Ladislau dá uma dica:

Psicanalista Andrea Ladislau

“Só com muita informação, divulgação e propagação de conhecimento. É preciso um maior engajamento da sociedade. Precisamos provocar reflexões sobre essa cultura negligenciada por tabus e preconceitos. Além disso, precisamos compreender que não se pode buscar ajuda somente quando a situação atinge um estágio crítico. Ao menor sinal de que algo está errado, devemos encontrar um profissional de saúde mental. O autoconhecimento é a maior arma do ser humano na busca do bem-estar físico e emocional”, detalha.

ARMADILHA DAS REDES SOCIAIS

Durante a pandemia um dos motivos para o desenvolvimento de alguns transtornos foram as redes sociais. Logo no início da pandemia, quando os comércios ainda estavam totalmente fechados e a quarentena estava sendo cumprida quase que de maneira total, elas eram o único refúgio para  encurtar distâncias e facilitar a comunicação. Mas como tudo na vida, o uso excessivo da internet traz consequências.

“O que se percebe é que muitas pessoas estão perdendo o controle e se tornando ‘escravas’ da tecnologia. As pessoas estão dependentes de um aparelho e da necessidade de se colocar em uma vitrine, o que é um sinal claro de que o indivíduo pode estar substituindo a sua vida real pela realidade virtual. O psicológico desta forma é afetado por várias questões, como: necessidade intensa de estar conectado, frustração por viver se comparando à vida das pessoas ‘felizes’ que se apresentam nas redes. O que é uma ilusão permanente pela utilização exagerada de filtros de imagem, entre outras”, explica Andrea Ladislau.

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