Os 55 anos da longa noite que interrompeu a democracia no Brasil por 21 anos

Anderson Carvalho –

Neste domingo completam 55 anos do golpe militar de 1964, quando na madrugada do dia 31 de março para o dia 1º de abril daquele ano, tropas lideradas pelo general Mourão Filho, comandante da 4ª Região Militar, sediada em Juiz de Fora (MG), marcharam rumo ao Rio de Janeiro, onde estava o presidente João Goulart e o derrubaram do poder. Esta semana, o presidente Jair Bolsonaro orientou as Forças Armadas a ‘comemorarem’ o aniversário do golpe, que deu origem à ditadura. Porém, no estado do Rio, o Comando Militar do Leste informou que serão realizados apenas formatura de oficiais e palestra, restritos a público interno.

Em 1964, Niterói era capital do antigo estado do Rio de Janeiro. Às 16 horas do dia 1º de abril daquele ano, o deputado estadual Afonso Celso Nogueira Monteiro chegou à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), que na época funcionava no prédio onde hoje é a Câmara Municipal de Niterói. No plenário, ficou sabendo do golpe e conclamou a resistência. O jornalista Continentino Porto acompanhou tudo.

“Afonsinho não acreditava que o então presidente João Goulart tivesse fugido. Ele me chamou para a entrada do prédio, onde estavam cerca de 200 operários navais. Convocou o povo a resistir ao golpe. Então, apareceu o delegado Agra Lopes, chefe do Departamento da Ordem Política e Social (DOPS) do estado, acompanhado de alguns policiais. Estes atiraram para o alto visando dispersar a multidão. Afonsinho, com uma pequena pistola, também atirou. Depois, chegou o secretário estadual de Segurança, coronel Hugo Campello, que encontrou o deputado no gabinete do presidente da Casa, Cordolino Ambrósio. Ele deu ordem de prisão a Afonsinho, que foi levado ao DOPS, onde hoje é a 76ª DP, no Centro. Ficou preso lá dois meses. Depois, foi solto e viajou a São Paulo, onde foi encontrado pela Polícia e levado à Fazenda 31 de Março, sendo lá torturado”, relata Continentino.

De acordo com o jornalista, cabia ao general Cabral Ribeiro selecionar o que os jornais podiam publicar ou não.

“Todos os dias, às 15h, levávamos matérias do jornal O Dia para ele, através de um contínuo chamado Jean. Depois, ele falou que já sabia o que os militares iam publicar ou não e as matérias que ele achava que seriam censuradas, jogava pela janela da barca no mar”, lembra Continentino, que em maio vai lançar o Caderno da Comissão da Verdade do Sindicato dos Jornalistas do Estado do Rio, com o relatório sobre a repressão no estado.

Logo após o golpe, os militares resolveram usar o Ginásio Caio Martins, em Icaraí, como presídio político, o que inspirou, depois, na utilização do Estádio Nacional, no Chile, para os mesmos fins. No Caio Martins ficaram presos, segundo o relatório da Comissão de Verdade de Niterói, cerca de 400 presos, entre os quais, a jornalista Lou Pacheco, a teatróloga Maria Jacintha e a professora Maria Felizberta Trindade. Outros presos no ginásio eram de Cabo Frio, Cachoeiras de Macacu, Duque de Caxias, Cantagalo, Itaboraí, Itaperuna, Magé, Nova Friburgo, São João de Meriti, Silva Jardim, Rio Bonito, Teresópolis, Três Rios, Trajano de Morais, entre outros.

“Eu tinha 14 anos e fiquei chocado quando vi, perto de casa, na rua, um monte de livros de um professor, jogados por militares do Exército. Depois, vi os livros serem levados para um batalhão”, conta o jornalista aposentado Colombo Vieira de Souza, com 69 anos.

Em São Gonçalo havia outro local onde ficaram 200 presos políticos: A Base Naval de Ilha das Flores. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, lá houve também torturas. Entre os presos mais famosos estão os jornalistas Fernando Gabeira e Elio Gaspari e o novelista Aguinaldo Silva. O local serviu de presídio entre os anos de 1969 e 1971.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

um + 13 =