Os 17 carnavais do sedã japonês

Luiz Antônio Mello

Impressionante. Praticamente todos os amigos e conhecidos que encontro perguntam “cadê aquele Suzuki Baleno? Era único, o maior charme”. De pergunta em pergunta comecei a achar que me arrependi de tê-lo vendido. Como vendi para um conhecido, que como eu trata o carro a leite de rosas, fui sondá-lo sobre a possibilidade de recomprar. Mas o feitiço do sedã também pegou o novo dono que, vejam só, está procurando um outro Baleno no Mercado Livre. “Fiquei apaixonado pelo carro, quero ter mais um”. De fato, esse carro tem borogodó. Tanto para os donos como para conhecidos, colegas e amigos do dono.

Carnaval. Passei 17 esbórnias momescas com o sedã japonês, fiel, silencioso, discreto. Em algumas delas, fizemos incursões pela tênue camada de látex que separa o mundo do submundo, recheado de maçãs agridoces, vermelhas cor de sangue que só são oferecidas a quem as merece.

Foi num desses carnavais, largado como um pau de enchente batendo impiedosamente nas margens do rio Pombas em dia de temporal de sabre e solteiro como um sanhaço na Mata Atlântica, deixei um plantão numa redação da vida, peguei o sedã e atravessei a ponte. Depois do pedágio, num dos acessos, duas maçãs caminhavam sob o mormaço impiedoso, cruel e machista de fevereiro, fazendo o sedã, elegante, parar imediatamente.

As duas tinham sido deixadas ali por uma van (na época era uma febre aquilo) e, atônitas, ficaram sem saber o que fazer porque não conheciam aqueles acessos da ponte. Foi nesse momento que o caridoso sedã japonês apareceu e resgatou as moças, uma delas com livros sob o braço (um era “O Estrangeiro”, de Albert Camus, excelente sintoma).

Demos a carona, sedã e eu, acabei indo tomar o café na casa da maçã existencialista- a do livro do Camus- de onde só saí uma semana depois disposto a casar. Até então achava que paixão fulminante era folclore, papo de poeta, mas aquele vento me pegou e me deixou tonto. Mas, filosofei que o vento da paixão enverga a árvore até ela quebrar. O vento do amor, não, porque a árvore é mais sólida e não quebra de jeito nenhum. Essa paixão durou o tempo certo, até eu buscar o sedã no estacionamento, todo empoeirado, virar a chave da ignição, olhar para um lado e para o outro e decidir: não voltarei nunca mais. O sedã teria perguntado “por que?”. Fiquei de explicar um dia, assim que entendesse o que estava acontecendo.

O sedã japonês verde escuro (idêntico ao da foto) estava num canto da vitrine da concessionária. Zero quilômetro. Tinha chegado do Japão há três meses, temporada no porto, depósito, pátio, documentação, lavagem, revisão, transporte, vitrine.

Entrei disposto a comprar um SUV preto, tração 4X4, já sabia que carros japoneses e alemães não dão problema, são resistentes, honestos, apreciam a longevidade. Ia fechar negócio com o SUV. O vendedor foi lá atrás pegar o manual e outros detalhes quando meu olhar bateu no sedã japonês. Esse feiticeiro de aço.

Levantei, olhei a frente, traseira, laterais. Abri o capô, motor, 16 válvulas, bloco em alumínio, muitos cavalos de potência, câmbio automático e, o mais importante, carro japonês, que não dá trabalho e, ainda por cima, da mesma marca do SUV.

Mudei de ideia. Em vez do SUV comprei o sedã japonês. No dia seguinte saí da loja, pus um CD no Kenwood de fábrica e zarpei. Fui até Barra do Sana e desci pela Serramar (na época lama pura) e retornei como se tivesse ido a esquina beber uma água mineral. Na altura de São Gonçalo, violento temporal. Deixei a BR 101 e decidi ir por dentro da cidade. Mau negócio. Ruas transformadas em rios de esgoto, carros boiando enguiçados. E o sedã japonês passou. Com água na porta, muitas vezes boiando, sequer falhou. Dias depois, outro toró no Ingá, bairro de Niterói. Água na porta, o sedã boiou de novo e chegou a virar ao contrário. Mas não pifou.

De dois em dois anos pensava em troca-lo por carro um mais novo, mas me perguntava para que, se o carro até alma de jipe tinha. No Engenho do Mato, na e´poca deserto, as vezes eu matava saudade dos ralis fazendo trilha com o sedã no lamaçal, alta velocidade. Impressionante. O motor do sedã japonês era o mesmo do SUV que eu iria comprar. Enfrentou alagamentos na chuva, lama, neve, areia, como um autêntico SUV, sem dar um espirro. Um único espirro.

E foi assim durante 17 anos. Eu e o sedã japonês já não sabíamos mais quem era quem. Ele é quase único porque só foi importado durante um ano. Era raro. Naquele carro aconteceu de tudo, absolutamente tudo. Histórias que se fossem transformadas em livros lotariam a biblioteca nacional. Fiel, o sedã jamais enguiçou, jamais furou um pneu, jamais…jamais traiu.

Mas um dia…bem um dia surgiu um outro japonês. Novo. Também resistente, também bem falado, também fiel, também. Foi quando vendi o sedã japonês. Quase fiquei arrasado, mas graças ao novo dono, cujos olhos saltaram de paixão logo no primeiro contato, tive certeza que meu grande amigo continuaria em boas mãos.

O novo japonês parece ter gostado de mim, mas, a saudade do sedã eventualmente me pega. E como o vi com o novo dono, reluzindo estacionando em frente a casa dele, a saudade rasgou. Decidi que, ano que vem, vou tentar recomprá-lo só para tê-lo por perto. Se bem que o cara não vai vender de volta mesmo. É maçã que não apodrece.

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