Operação Calabar abala São Gonçalo

Augusto Aguiar

A Polícia Civil deflagrou ontem uma megaoperação que já está sendo apontada como a maior da história no país. Batizada de Operação Calabar, o objetivo da ação foi o cumprimento de 184 Mandados de Prisão Preventiva, sendo 96 contra policiais militares (na sua grande maioria lotados no Batalhão de São Gonçalo), e outros 70 contra traficantes que atuam na região. Os policiais são acusados de organização criminosa e corrupção passiva, e os traficantes presos autuados por tráfico, organização criminosa e corrupção ativa. Mais de 100 Mandados de Busca e Apreensão foram expedidos pela Justiça.

Pelo menos 800 agentes, sendo 110 delegados, participaram da megaoperação e os presos foram conduzidos para a Cidade da Polícia, no bairro do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio. Vários policiais foram surpreendidos e presos em suas residências e outros nas dependências do próprio 7º BPM. Dos policiais com prisão decretada, 41 eram lotados diretamente no 7º BPM, 20 no 12º BPM (Niterói) e 15 do 35º BPM (Itaboraí). O restante foi transferido para outras unidades. Desde às 5 horas da manhã centenas de policiais civis saíram da Cidade da Polícia, deflagrando a megaoperação. Duas horas depois, 20 PMs acusados já haviam sido presos, às 9 horas o número passou para 34, e às 10 horas, 49 acusados haviam sido conduzidos para a Cidade da Polícia. Por volta do meio-dia, 59 policiais e 22 traficantes haviam sido presos.

A investigação que deflagrou a operação teve início há mais de um ano, quando agentes da Divisão de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG) detectaram fortes indícios de um grande esquema de corrupção (recolhimento de propina) em que estariam envolvidos diversos policiais lotados em São Gonçalo. A partir da prisão de um dos suspeitos, apontado como responsável por recolher o chamado “arrego” para os policiais, a DHNSG intensificou um trabalho de levantamento e escuta, gravando cerca de dois mil diálogos (em 250 mil ligações) entre PMs e traficantes. Agentes do Ministério Público também se uniram à investigação a partir da morte de um policial reformado, na Avenida do Contorno, em fevereiro de 2016. Na ocasião, agentes da delegacia, que faziam um local de crime, desconfiaram de um veículo suspeito, que passou pelo local diversas vezes. Após abordagem, foram apreendidos com o suspeito cerca de R$ 28 mil em espécie, relativos ao pagamento de propina de traficantes a policiais do 7º BPM (São Gonçalo).

Esse suspeito aderiu à “delação premiada” e detalhou o esquema. O suspeito foi incluído no Programa de Proteção à Testemunha.
Esse trabalho deu o ponto de partida para a polícia abrir inquérito e indiciar os acusados. Aliado ao trabalho de escuta, um dos indiciados de envolvimento na época também teria deletado o grande esquema de corrupção. O nome que foi batizada a operação (Calabar) é uma referência a Domingos Fernandes Calabar, considerado o maior traidor da história do país. De acordo com um dos coordenadores da Operação Calamar, delegado Fábio Barucke, da DHNSG, PMs sequestravam bandidos para pressionar o pagamento de “arrego” em, caso de demora. “Era uma forma deles receberem mais rápido o dinheiro da propina. Faziam para que os bandidos não deixassem de pagar”, disse Barucke, a frente das investigações, na coletiva de ontem, no Rio, no Centro Integrado de Comando e Controle.

Acusações que também pesam sobre os policiais dão conta que os acusados revendiam drogas e armas que eram muitas vezes apreendidas nas mesmas ações. A maioria dos acusados presos foram lotados no 7º BPM entre os anos de 2014 e 2016, e representam cerca de 15% do efetivo do batalhão, que tem em torno de 700 militares.

Bandidos pagavam e os “bondes”de traficantes tinham até escolta

A polícia confirmou que policiais militares arrecadavam em média cerca de R$ 1 milhão por mês com o recebimento do chamado “arrego”, pago por traficantes. Os envolvidos ofereciam várias espécies de “serviços” aos traficantes, como escolta aos chamados “bondes” de bandidos de uma comunidade para outra, por exemplo. Há denúncias ainda de que os PMs corruptos alugavam armas (inclusive fuzis) para os criminosos e todas as semanas (de quinta a domingo) as viaturas do batalhão realizavam “rondas” por São Gonçalo para recolher dinheiro de traficantes. O valor cobrado para o “arrego” variava entre R$ 1,5 mil e R$ 2,5 mil para cada guarnição. A cada semana os policiais envolvidos no esquema arrecadavam em torno de R$ 350 mil. Quem recolhia o dinheiro do tráfico falava diretamente com os criminosos indo nas localidades fardado ou mesmo à paisana. A distribuição do dinheiro era feito através de entregas em estabelecimentos ou nos próprios DPOs, em padarias, viadutos ou até mesmo dentro do alojamento da unidade militar. Segundo a delação de um responsável pelo recolhimento de propinas, o “arrego” era pago por traficantes do Complexo do Anaia, Jardim Miriambi, Favela do Pica- Pau, Baixadinha, Rua 39 (Jardim Catarina), Carobinha, Mangueirinha, Novo México, Risca Faca, Caixa d´água, Tronco, Dita, Complexo da Alma, Favela 590, Candoza, Buraco Quente, e Três Campos, entre outras.

Nas primeiras horas da manhã agentes da Polícia Civil cumpriram Mandados de Prisão contra traficantes na Rua Canadá, no Coelho, e Travessa Ademir de Carvalho e Rua Farias Garcia, no Mutuá, por exemplo. Ainda, segundo o inquérito, traficantes da comunidade do Salgueiro – apontada como uma das mais perigosas de São Gonçalo, de onde criminosos partiriam até para praticarem roubos de carga – pagariam cerca de R$ 196 mil de “arrego” aos PMs corruptos. Traficantes do Morro do Martins desembolsavam R$ 86 mil e R$ 76 mil eram pagos por criminosos aos PMs no Jardim Catarina, por exemplo. Algumas apreensões, ainda de acordo com informes policiais, eram realizadas e registradas com objetivo de encobrir a real condição de envolvimento de traficantes de várias localidades. Entre os 22 traficantes presos até o fim da manhã de ontem, dois deles (alegando temerem pela própria vida em São Gonçalo) se apresentaram na sede da DHNSG, em Niterói, e também foram levados para a Cidade da Polícia. Eles foram identificados como Daniel Soares Paiva e Renato Soares Tardin, que, segundo fontes policiais, seriam contatos para recolhimento das propinas.

Ainda com relação aos PMs presos, policiais civis adiantaram que parte dos Mandados de Prisão expedidos pela Justiça contra os militares foram cumpridos também em outros batalhões, pelo fato dos acusados investigados terem se transferido recentemente para essas unidades. Outro fato narrado ao longo das investigações que desembocaram na megaoperação foi a ocorrência de invasão do setor de buscas eletrônicas da DHNSG, no dia 21 de março, quando foram furtados aparelhos celulares e armamentos, que eram analisados como provas contra vários acusados. O material seria encaminhado para trabalho de perícia no Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE).

Acusações de esquema de corrupção no Batalhão de SG não são recentes
Não é a primeira vez que o 7º BPM (São Gonçalo) passou a ser o centro das atenções em operações para repressão a corrupção na Segurança Pública, sobretudo de ligações criminosas entre militares e traficantes. No decorrer de uma delas, em 11 de agosto de 2011, a juíza Patrícia Acioli foi assassinada. Na ocasião, nove policiais, entre os quais o comandante da unidade, tenente-coronel Cláudio Luiz de Oliveira, foram presos acusados e condenados por tramarem e executarem a magistrada com 21 tiros na chegada a sua residência, na Região Oceânica. Acioli apurava responsabilidade de PMs no assassinato de um rapaz de18 anos em São Gonçalo.

O tenente-coronel Djalma Beltrami, também árbitro de futebol, assumiu o posto no lugar de Cláudio Luiz. Quatro meses depois chegou a ser preso, acusado de um novo e suposto esquema de propinas na unidade. Em dezembro de 2011, uma grande operação da polícia civil cumpriu 13 mandados de prisão contra homens do batalhão. De acordo com as investigações eles recebiam propina de R$ 160 mil por mês para não reprimir o tráfico de drogas no Morro da Coruja. Em março de 2014, Djalma Beltrami foi absolvido, por insuficiência de provas.

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