Onda de violência aterroriza os moradores de São Gonçalo

Vítor d’Avila

Nas últimas semanas, uma onda de violência assolou a cidade de São Gonçalo. Desde o dia 7 de janeiro, foram contabilizados aproximadamente 15 homicídios, cerca de duas mortes por dia. As circunstâncias variam. Roubo seguido de morte, execução, auto de resistência, bala perdida, disputa entre facções. A vítima mais recente foi o policial civil Rodrigo Roboredo, de 37 anos, lotado na 73ª DP (Neves), morto durante um assalto, na última quarta-feira (13).

Roboredo reagiu a um assalto, enquanto estava de folga e estacionava seu carro na porta da casa de seu tio, no bairro do Camarão. Ele estava acompanhado da esposa e do filho, de apenas dois anos. Os familiares, por sorte, não se feriram. O policial ainda conseguiu trocar tiros com os três criminosos, que foram baleados. Dois deles morreram e o terceiro, até o fechamento desta edição, ainda estava foragido. O tio da vítima, que prefere não ter a identidade revelada, em conversa com a reportagem de A TRIBUNA, lamentou a perda.

“Ele era professor de Educação Física, gostava de dar aula para crianças. Ia sempre na minha casa, morava em Alcântara. A esposa está muito abalada. Tinham acabado de se mudar para um apartamento melhor. Ontem estavam vindo da praia para comemorar o aniversário de casamento”, relatou.

O Rio de Janeiro é um lugar extremamente perigoso para policiais, é o que afirma o professor Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência (LAV) da Uerj. Ele ainda aponta que a reação a assaltos está entre as principais causas para mortes de agentes de segurança no país.

“Tem estudos que mostram que a maior parte dos policiais, que são mortos a cada ano no Brasil, são mortos por reagir a um assalto. É uma situação de alto risco reagir a um assalto. O ideal é que o policial não carregue arma, nem o distintivo, em lugares como o Rio de Janeiro, onde ele pode ser morto se for reconhecido e que, portanto, não reaja ao assalto”, orienta o professor.

Uma região em clima de guerra

Há aproximadamente um mês e meio, comunidades do Complexo da Alma vivem ambiente de tensão por conta de uma disputa entre as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Terceiro Comando Puro (TCP) pelo controle do tráfico de drogas na região. Esta guerra já deixou vítimas fatais, entre elas pessoas inocentes.

A Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá (DHNSG) trabalha dia e noite para reverter este quadro. A boa notícia é que, de acordo com o delegado Mário Lamblet, responsável pela investigação, os responsáveis pela disputa, de ambas as facções, já foram identificados pela equipe da especializada.

“Já estamos com, praticamente, os integrantes das duas facções identificados. Já representamos pela prisão e a gente espera em breve efetuar a prisão desses elementos que foram identificados. Isso demanda um planejamento até para não aumentar o perigo em relação à população. A gente tem monitorado o que tem acontecido e a ideia é dar uma solução, em conjunto com a própria Polícia Militar”, disse Lamblet.

No dia 7 de janeiro, o entregador de quentinhas Carlos Daniel Souza Pereira, de 20 anos, foi morto, na frente da família, ao ser retirado de casa, na localidade do Mangue Seco, por traficantes da Vila Candoza. Ele teria descumprido determinação do TCP de não fazer entregas na região dos Predinhos, controlada pelo CV. No dia seguinte, a PM realizou operação no Candoza e conseguiu tirar três fuzis da mão dos criminosos.

“A gente tem percebido algumas ocorrências nesse sentido. Sempre tem que haver um certo cuidado, a gente vê que as pessoas postam muitas coisas nas redes sociais e isso pode gerar algum problema, se ela está numa área de facção rival. Às vezes a gente vê que a vítima é inocente mas tem também aquela vítima que já teve envolvimento, fez parte e, por mais que ela não esteja mais, isso tudo gera algum tipo de retaliação por parte da facção que esteja na liderança daquela localidade. Temos feito monitoramento e, de certo modo, na maioria das vezes essas mortes são atribuídas a eles (criminosos que estão por trás da disputa)”, alertou o delegado.

Na segunda-feira, a jovem Andressa Viana, de 20 anos, morreu ao ser atingida por uma bala perdida na saída de um baile funk, na comunidade Cebolô, no Arsenal. O caso também é investigado por Lamblet. O delegado ressalta que em áreas onde há incidência de confrontos armados, a chance de acontecer casos do tipo acaba aumentando.

“A PM estava patrulhando a região e já foi recebida com disparos de arma de fogo, tanto é que houve impacto na própria viatura. Só um policial revidou e depois eles foram informados por um motociclista que havia a jovem ferida. Quando entraram na comunidade novamente, houve confronto e eles tiveram que ser resgatados pelo blindado e socorreram essa jovem. A arma utilizado pelo PM foi apreendida e foi arrecadada também uma pistola 380 [no local]. A partir de agora tentar arrolar testemunhas e chegar a uma conclusão e entra na investigação de quem teria efetivamente disparado. Qualquer disparo de arma de fogo você tem a possibilidade de haver um inocente ferido. Infelizmente a gente tem áreas que estão em conflito. A gente tem monitorado. A gente tem que trabalhar muito em conjunto com as distritais”, concluiu o delegado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

18 − 15 =