O mundo dos cachorros não é um mundo cão

Adotei a Luna em meados do ano passado. Vi a foto numa página do Facebook depois de passar meses procurando uma cadelinha e lá estava aquela SRD (Sem Raça Definida, diz a nova terminologia para definir o vira-lata) que me cativou.

Já tive muitos e amados cães. Criei rottweilers, tive pastor alemão, dachshund (popular basset) mas a Luna é diferente de todos por várias razões. É a primeira vira-lata (adoro essa expressão) que tenho, a primeira cadela, esbanja afeto, alegria, não se envergonha de suas carências, pede carinho o dia todo, mas no começo, quando contrariada, quebrava tudo. Não se chamou Talibã porque daria outras conotações.

Luna foi meio que uma recomendação médica. “Para acabar com o sedentarismo, arranje um cachorro. Ele não vai te deixar parado de jeito nenhum”, me disse um médico amigo quando me queixei que não conseguia vencer a preguiça e sair para caminhar, pedalar, etc.

Como cantou R.C. minha vida se modificou, o que eu era nada mais eu sou. Como acontece com a maioria dos cachorros, ela meio que se adequou aos meus horários, por isso nunca pulou na minha cama de manhã cedo para sair, almoça três da tarde, janta as 11 da noite. Mas ai de mim se não sair com ela.

A partir das 5 da tarde ela começa a rosnar com o rabo abando sugerindo uma saída. Eu digo que agora não, que estou trabalhando e vou tentando enrolar até que as 6 mais ou menos princípio de quebra quebra ou, em atitudes mais radicais (típicas de Talibã, Baader-Meinhof e similares) como morder e cortar o cabo do mouse do computador, como já fez.

Aí começa uma outra história. Desde que Luna chegou já perdi sete quilos, pressão arterial normal, glicemia OK, porque, conforme disse o médico, não dá para ficar sem dar pelo menos uma caminhada forte de uma hora por dia com ela sem despertar a sua justa fúria. Mais: em nossas andanças pela areia dura da Praia de Icaraí Luna descobriu outros cachorros e com seu jeito engraçado acabou amiga de todos.

O melhor é que conheci donas e donos (a nova ordem é chamar de tutores), que já se tornaram amigos, com quem passo horas conversando enquanto Luna e seus 20 e tantos amigos de todas as raças e, claro muitos vira-latas, digo SRD, correm de um lado para o outro, misturados a crianças de um, dois, 9 anos, é sensacional. Meu amigo, onde há criança, cachorro manso e gente boa o astral é bom.

A cada dia sinto que ganho novos amigos que me foram trazidos pela Luna. É a tal história, não é a toa que é o melhor amigo do homem. Quando faço a programação da Rádio LAM (só rock em  https://radiolam.wixsite.com/24horas) ela presta a maior atenção. Não vibra como o meu saudoso basset Titã (anos 1990) que uivava ouvindo solos de guitarra de Mark Knopfler, Eric Clapton e Jimmy Page, só fica deitada ali no canto, talvez curtindo serenamente o som que jorra das caixinhas.

É por essas e por outras que não entendo as referências negativas aos cachorros. “Fulano fez a maior cachorrada”, “aquilo é um cachorro safado”, “que mundo cão”. O saudoso Ivan Lessa, com quem trabalhei no Pasquim, certa vez citou, mas não explicou:

– Lá por volta de 1962, entrou para o trivial ligeiro de nosso léxico a expressão ‘mundo cão’. Era quando queríamos nos referir a qualquer bizarria, que poderia se referir desde a uma nota lida em jornal espalhafatoso. Um homem matava, esfolava e comia o colega de trabalho na oficina. Mundo cão. Au! Au!

Em compensação, encontrei em outros autores:

– Cão é um nome predominantemente masculino, de origem Anglo-saxônico que significa “De cabelos brancos”.

– Em outras culturas, o cachorro, tanto na filosofia chinesa quanto na maia, é um símbolo do amor incondicional, que vem até nós para ativar o amor e colocá-lo em movimento. … É o poder de viver com o coração. Símbolo de lealdade, fidelidade, lei e justiça.

– Mesmo depois de ter criado Eva, Deus achou que Adão precisava de um companheiro. Então, criou o cachorro. Conta o Livro da Gênese, o primeiro do Antigo Testamento, que Deus criou os céus, a terra e tudo que nela habita em seis dias. No último, foram criados os animais e, por fim, o homem.

– É normal que seu cachorro fique te olhando como uma forma de zelo e cuidado. Ele está preocupado com você e quer ajudar de alguma forma e mesmo sem saber como, ele fica lá, alerta, esperando que você faça algo ou precise de ajuda.

– Ver um cachorro em seu sonho simboliza intuição, lealdade, generosidade, proteção e fidelidade. O sonho pode sugerir que seus valores e boas intenções lhe trarão sucesso. Os cachorros nos sonhos podem ser vistos como guardiões, guias, símbolos de fidelidade e presságios da morte.

– Os pesquisadores descobriram que os cães não conseguem diferenciar as cores verde e vermelho. Para eles, as cores de maior contraste, que podem ser facilmente distinguidas são o amarelo e o azul, sendo estes os “tons” considerados ideais para quem quer presentear seu “melhor amigo” com uma bolinha ou outro brinquedo.

Bom seria que o mundo cão se tornasse mundo do cão. Seria um mundo são.

Email- luizantoniomello@gmail.com

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