O mundo de Cláudio Valério Teixeira

Por Luiz Antonio Mello

Na última quarta-feira (28) foi sepultado mais do que artista plástico, restaurador, mestre em Cultura. Foi a despedida de um amigo raro.

Cláudio Valério Teixeira, aos 72 anos intensamente vividos, foi levado por um câncer que o perseguiu implacavelmente, agravado pela Covid 19, mas deixou uma bela herança e um exemplo de caráter, ombridade, solidariedade, enfim, o que sinto e o que tenho a dizer não cabem nem no maior jornal do mundo.

Movido pela paixão pela vida, Claudio Valério nasceu em 1949 e, inquieto, vivo, arisco, bem humorado, conseguiu construir um mundo adorável graças ao enorme talento que tinha para fazer e preservar amigos. Andar com ele era ouvir “bom dia, boa tarde, boa noite” vindos de garis, médicos, mendigos, vendedores, padeiros, físicos nucleares, políticos.

Chegou a São Francisco – por opção nunca quis deixar o bairro – nos anos 1970 quando conheceu a mulher que seria o amor de toda a vida, Tania, que com a sua inteligência emocional sabia decodificar todos os dialetos emocionais do marido. Juntos construíram uma bela família: os filhos Victor, Rafael Frederico e Pedro, sete netos (o oitavo está a caminho), seis meninos e uma menina.

Juntos, além de uma vida, Claudio e Tania construíram um dos mais conceituados estúdios de restauração de arte do país que, pelo que me disseram, vai deve passar a se chamar Centro de Restauração Cláudio Valério Teixeira. Justíssima homenagem. Tenho muito a dizer, mas o jornalismo ensina que a História vem na frente.  Aqui, um perfil profissional da Wikipedia:

Cláudio Valério Teixeira (Rio de Janeiro, 1949 – Niterói, 27 de abril de 2021) é um artista plástico, restaurador e crítico de arte brasileiro. Ocupou o cargo de secretário municipal de Cultura da Prefeitura de Niterói e presidente da Fundação de Arte de Niterói – FAN.

Cláudio Valério lecionou na Escola de Belas Artes da UFRJ e ministrou cerca de cinquenta cursos e conferências em museus e instituições culturais no Rio de Janeiro, Fortaleza, São Paulo, Porto Alegre, Buenos Aires, Lisboa e Porto. Autor de cinco ensaios publicados sobre pintura brasileira.

Como artista plástico, participou de centenas de exposições coletivas, como Salão Nacional de Belas Artes (MEC/RJ), Salão Eletrobrás – Luz e Movimento (MAM/RJ), Bienal Nacional (Parque do Ibirapuera/SP).

Em 2003, criou, a convite do arquiteto Oscar Niemeyer, painel de grandes proporções para o Memorial Roberto Silveira, localizado no Caminho Niemeyer em Niterói, RJ.

Foi responsável pela restauração das grandes telas Batalha do Avaí, do pintor Pedro Américo e Batalha dos Guararapes do pintor Victor Meirelles, do acervo do Museu Nacional de Belas Artes, considerado o mais importante projeto de conservação de pinturas já realizado no Brasil.

Em 2009, coordenou com Edson Motta Junior o projeto de restauração das pinturas decorativas de Eliseu Visconti no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 2011 coordenou, juntamente com o mesmo conservador, o projeto de restauração dos grandes painéis Guerra e Paz da sede das Nações Unidas em Nova Iorque, de autoria de Candido Portinari.

Integrou o conselho consultivo para restauração do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e fez parte da comissão para restauração da Biblioteca Nacional, na mesma cidade.

Quando o Museu Nacional pegou fogo, Cláudio Valério escreveu este indignado desabafo:

Venho me dedicando à conservação de bens culturais há quarenta e quatro anos. Discípulo de Edson Motta e filho do criador do Museu Nacional de Belas Artes, o pintor Oswaldo Teixeira, este mundo da arte e dos museus sempre me cercou, posso mesmo dizer que vivi minha infância dentro de um museu.

O incêndio do Museu Nacional, por conseguinte, inflamou minhas emoções. Naquele fatídico domingo, quando vi pela televisão as imagens do museu em chamas, senti uma mistura de ódio e vergonha. Mas, agora, não adianta lamentar.

Duas semanas antes, minha mulher e eu levamos nossos netos para conhecer o museu. De lá saí deprimido ao constatar o lastimável estado de conservação da edificação, que exibia flagrantemente a ameaça à integridade do público, dos profissionais que lá trabalhavam e do valioso acervo. Não é hora de procurar culpados; responsáveis somos todos nós, duzentos milhões de brasileiros, como bem disse Eduardo Bueno em depoimento veiculado em rede social.

O Museu Nacional morreu devido a um terrível acidente, um sinistro previsível. Nesta triste oportunidade, já que a precariedade e o descaso que caracterizam a história dos museus públicos brasileiros vieram à baila, já que as autoridades estão sendo cobradas pelas responsabilidades não cumpridas sobre a proteção de nossos bens culturais, é hora, também, de nos lembrarmos da morte de nossos museus estaduais, daqueles sob a tutela do estado do Rio de Janeiro.

No último governo de Sérgio Cabral, ex-governador encarcerado há quase dois anos, foram fechados o museu Carmem Miranda, que guardava o acervo da famosa cantora, um dos ícones de nossa brasilidade, e o Museu dos Teatros, que abrigava importante acervo relativo à dramaturgia brasileira e sua história. Extinguiu-se o Museu do Primeiro Reinado, que protegia importante mobiliário do império e, pasmem, a planta original da Quinta da Boa Vista, de autoria de Auguste François Marie Glaziou; tudo isso deixado em comodato no Museu Nacional e, agora, perdido para sempre. Houve uma ideia estapafúrdia de se criar no local, antiga chácara da marquesa de Santos, o museu da moda, que nunca saiu do papel.

O Museu da Cidade, no parque da Cidade, que depois de anos fechado e abandonado, o estado cedeu para o município do Rio de Janeiro, transferindo sua responsabilidade, melhor dizendo, sua irresponsabilidade, segue desativado.

Em Niterói, fecharam ao público a Casa de Oliveira Viana, com importante biblioteca que, dizem, abre a pesquisadores com agendamento. O Museu Antônio Parreiras, há mais de seis anos fechado para obras, que começam e param repetidamente e nunca terminam, como uma ópera sem fim, e o público impedido de conhecer e contemplar a obra do notável paisagista brasileiro.

Convém citar a nova sede do Museu da Imagem e do Som, o colossal prédio na praia de Copacabana, exemplo máximo da ineficácia do estado e da má utilização de verbas públicas, até hoje aguardando esperada inauguração.

Dos museus do estado sobraram poucos; em Niterói, o Museu do Ingá, vivendo como diz a linguagem popular, a meia-boca, há pouco foi fechado por falta de pagamento de luz. Este é o penoso panorama dos museus do estado do Rio de Janeiro, pouco lembrado, até a próxima tragédia. Se o Museu Nacional morreu devido a um sinistro, os museus do estado do Rio foram exterminados por vontade e decisão dos governantes.

Para complicar e mascarar a negligência, o governo federal, num arroubo político tardio e de consistência duvidosa, tenta impor uma agência de museus, numa ação mal dissimulada de interesse pelo patrimônio cultural e museológico, quando, na verdade, mais parece uma iniciativa de passar adiante a responsabilidade, de se ver livre do bem público.

Sabemos, desde sempre, que os museus federais vivem à míngua.Podemos dizer, com raras exceções, que estão como no samba de Nelson Sargento: “agoniza, mas não morre”. Mas, às vezes, morrem.

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