O gênio indomável sai de cena

Alan Bittencourt

O futebol está em lágrimas. Chora, no mundo todo, a perda de um dos seus maiores expoentes. Morreu na quarta-feira (25) Diego Armando Maradona, o maior ídolo do futebol argentino. O ex-jogador sofreu uma parada cardiorrespiratória em sua casa na cidade de Tigre, na Região Metropolitana de Buenos Aires. No início do mês, ele foi submetido a uma cirurgia delicada no cérebro para drenar uma pequena hemorragia cerebral, tendo alta oito dias depois. O presidente da Argentina, Alberto Fernández, decretou luto oficial de três dias no país. Maradona deixa cinco filhos

O jogador morreu no mesmo dia que seu amigo e ídolo Fidel Castro, ex-presidente de Cuba, que faleceu há quatro anos. Atualmente, era o técnico do Gymnasia y Esgrima, da Primeira Divisão da Argentina. Chamado de “El Pibe de Oro”, Diego cresceu no bairro Villa Fiorito, no subúrbio de Buenos Aires.

Com os dribles e jogadas geniais, participou de peneiras no Argentinos Juniors, que o contratou em 1976. Em 1977, disputou seu primeiro jogo pela Seleção Argentina em amistoso contra a Hungria. Porém, apesar do grande clamor popular, foi cortado da equipe que seria campeã mundial em casa, em 1978. A partir daí, seu futebol chamou a atenção de um dos gigantes da Argentina: o Boca Juniors, clube de seu coração, para onde se transferiu em 1981. Sua passagem pelo Boca, entretanto, durou apenas um ano. Antes da Copa do Mundo de 1982, disputada na Espanha, foi contratado pelo Barcelona.

No Mundial, foi caçado nos jogos iniciais. Marcou seus primeiros dois gols em Copa contra a Hungria. Na fase final, não brilhou contra a Itália (derrota por 2 a 1) e foi expulso contra o Brasil, que venceu por 3 a 1

Após o Mundial, começou sua trajetória no Barcelona. Na equipe espanhola, apesar de três títulos em 1983, sendo um na Copa do Rei marcando nos dois jogos da final contra o Real Madrid, sua passagem foi marcada por contusões e brigas. Após uma briga generalizada na final da Copa do Rei de 1984 contra o Atlhetic Bilbao, o Barcelona aceitou vendê-lo.

Apogeu

Ao chegar à Itália, o craque escreveria uma página importante de sua história. No auge da carreira, Diego fez partidas memoráveis. As duas primeiras temporadas passaram em branco. Aí, veio o ápice de sua carreira: a Copa do Mundo de 1986, no México. Na primeira fase, foram duas vitórias, contra Coreia do Sul e Bulgária, e um empate com a etão campeã Itália, com o gol marcado por ele.

Nas oitavas de final, um clássico sul-americano. Os argentinos eliminaram os uruguaios por 1 a 0. Nas quartas, a partida que ficou marcada na história das Copas do Mundo. Argentina e Inglaterra se enfrentaram pela primeira vez após a Guerra das Malvinas, vencida pelos ingleses em 1982. A tensão dominou o jogo até que Maradona fez história.

No início do segundo tempo, após passar por seus marcadores, tocou a bola para um companheiro, que perdeu. A zaga inglesa rebateu errado e a bola sobrou no alto. Maradona pulou e com a mão, se antecipou ao goleiro e marcou o gol que ficou conhecido como “La Mano de Díos”. Poucos minutos depois, o camisa 10 argentino eternizaria um dos lances mais bonitos da história do futebol. Ele recebeu a bola ainda em seu campo, girou e começou a driblar quem aparecesse pela frente. Após driblar quatro adversário, Maradona ainda driblou o goleiro e marcou um gol antológico, que foi chamado de Gol do Século. A Argentina havia perdido a guerra, mas ganhava um heroi nacional. Em 2002, este a Fifa escolheu este gol como o mais bonito da história das Copas.

Após passar pela Bélgica na semifinal por 2 a 0, com dois golaços de Maradona, a Argentina sagrou-se bicampeã mundial ao bater a Alemanha Ocidental por 3 a 2 na final. Capitão da equipe, o craque levantou a taça.

Na temporada 86-87, Maradona viraria rei em Nápoles. O time do sul da Itália conquistava o primeiro título do Campeonato Italiano de sua história e mais a Copa da Itália. Em 1989, o Napoli foi campeão da Copa da Uefa, seu primeiro título continental. Em 1990, o segundo título italiano e a Supercopa da Itália.

Em 1989, Maradona veio ao Brasil para disputar a Copa América pela Seleção Argentina. Passou em branco, mas ficou marcado por um lance genial. Na fase final, a Argentina enfrentou o Uruguai na segunda rodada. Maradona recebeu uma bola no círculo do meio campo, viu o goleiro uruguaio adiantado e chutou. A bola, caprichosamente, acertou o travessão. Os mais de 64 mil torcedores no Maracanã aplaudiram o craque de pé.

No Mundial da Itália, em 1990, Maradona teve altos e baixos. Derrota na estreia para Camarões (1 a 0), vitória sobre a URSS (2 a 0) e empate com a Romênia (1 a 1). Nas oitavas de final, Maradona enfrentaria o Brasil pela segunda vez em mundiais. O craque, que não estava com 100% das condições físicas, fez fila entre os brasileiros e deixou Caniggia livre para driblar Taffarel e eliminar a Seleção Brasileira. Nas quartas, os sul-americanos bateram a Iugoslávia nos pênaltis.

Na semifinal, a Argentina enfrentou a Itália, dona da casa, em Nápoles. Porém, mais do que a própria Seleção Italiana, Maradona estava em casa. Os napolitanos torceram contra o próprio país. Após empate em 1 a 1 no tempo normal, a igualdade persistiu na prorrogação e vaga na final foi decidida nos pênaltis, com vitória argentina e, por que não dizer, napolitana. Entretanto, em nova final contra a Alemanha Ocidental, a Argentina não repetiu o feito de quatro anos antes e perdeu por 1 a 0.

A queda

A decadência do astro argentino começaria no ano seguinte. Em março de 1991, o exame antidoping realizado após a partida contra o Bari testou positivo para cocaína. Maradona foi suspenso por 15 meses. Em 1992, disputou apenas uma temporada pelo Sevilla, da Espanha. Ele então decide retornar ao seu país e acerta com o Newell’s Old Boys em 1993, numa breve passagem. Na sequência da carreira e após pendurar as chuteiras, ele teve overdose por uso excessivo de drogas e álcool, contraiu hepatite por causa da bebida, foi internado em hospital psiquiátrico, foi submetido a uma cirurgia bariátrica para combater a obesidade e, agora por último, passou por uma cirurgia no cérebro.

Em 1994, ele disputou a última Copa do Mundo da sua carreira. Na estreia, goleada por 4 a 0 sobre a Grécia, com direito ao último gol em Mundiais. Seu último jogo foi contra a Nigéria (vitória por 2 a 1), quando foi sorteado para exame antidoping, que acusou a substância efedrina. Para a Argentina não ser desclassificada, Maradona teve que jurar inocência e foi excluído do elenco. O ídolo argentino vestiu a camisa da Argentina em 91 partidas e marcou 34 gols. Após mais uma suspensão, voltou aos gramados para se despedir do futebol em 1997, pelo Boca Juniors, clube que tanto amava. Maradona seguiu então a carreira de técnico. Ele comandou clubes árabes, além do Racing e a seleção de seu país na Copa de 2010. Atualmente, treinava o Gimnasia y Esgrima.

A idolatria dos argentinos por Maradona era tão grande que em 1998 torcedores fundaram a Igreja Maradoniana. Fundada no dia do aniversário do craque, data que para eles é o “Natal”. Além de Argentina, há fiéis na Espanha e no México.

Morreu Maradona. Ídolo da Argentina. Ídolo do futebol. O gênio e suas jogadas serão sempre imortais nos corações dos apaixonados pelo futebol.

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