O enigma de Bonnie & Clyde

Por Luiz Antonio Mello

Bonnie via Clyde como seu herói, referência, admiração, cumplicidade. Clyde via Bonnie como exemplo de coragem feminina, beleza, alegria, cumplicidade. O amor incondicional entre os dois, que teria brotado em 1929, foi à primeira vista.

Bonnie tinha 19, Clyde, 21, e viram suas famílias padecerem na grande depressão de 1929 quando todos os trabalhadores foram obrigados a dar o sangue aos bancos que, poderosos, tomavam casas, sítios, ranchos, todas as míseras posses daqueles milhões de indigentes que foram morar na rua.

Bonnie & Clyde, então, se tornaram a maior dupla de assaltantes de bancos da história de toda a região central dos Estados Unidos, e matavam sem piedade. Oficialmente, jamais assumiram ser justiceiros, mas eram.

O enigma que tornava a dupla cada vez mais invulnerável era na verdade um forte sentimento, brutal afinidade, juras de um amor eterno. Eterno que, eles sabiam, poderia durar algumas horas, dias, quem sabe mais alguns meses.

O casal acreditou no amor indestrutível e planejava fugir para o México e viver por lá, ricos, mandando metade (que não era pouco) do dinheiro para as famílias.

Bonnie Elizabeth Parker e Clyde Chestnut Barrow tinham 23 e 25 anos quando morreram fuzilados pela polícia, em Arcadia, Luisiana, EUA, em 23 de maio de 1934, numa bem planejada emboscada.

Está na Netflix o ótimo filme “Estrada sem Lei” (baseado na história real) que acompanha os policiais aposentados Frank Hamer (Kevin Costner) e Maney Gault (Woody Harrelson) que tentam rastrear e matar Bonnie e Clyde no começo dos anos 1930. Essa era a missão dada pela governadora: matar e não prender. A direção é de John Lee Hancock e o roteiro de John Fusco.

Hamer e Gault seguem na missão, cidade por cidade, estrada por estrada, mas entendem que não estão perseguindo apenas um casal de bandidos, mas dois justiceiros incomuns. É aí que o filme ganha muito porque mais do que uma história policial exibe toda a névoa afetiva que envolve os personagens, não coincidentemente, afogados pela desolação e por uma reverência proibida e muda por B&C. Também por isso, “Estrada sem Lei” é um lindo filme.

O enigma de Bonnie & Clyde transcende a lógica das crônicas policiais. Eles se tornaram heróis em várias regiões dos Estados Unidos onde eram recebidos como popstars, com direito a histerias que lembram a beatlemania. Eram amados, cultuados, reverenciados, as roupas que Bonnie usava eram copiadas e viravam moda e quando a polícia perguntava pelo casal ninguém dizia nada.

Suas façanhas atraíram a atenção do público americano durante a “Era dos Inimigos Públicos”, entre 1931 e 1936. Embora conhecidos hoje por seus 16 assaltos a bancos, a dupla também roubava pequenas lojas ou postos de gasolina rurais. Teriam matado pelo menos nove policiais e vários civis.

Sua definição pela imprensa (luxúria, glamour de playboys) não tinha nada a ver com a realidade de sua vida na estrada, especialmente para Bonnie Parker. Apesar de estar presente em cem ou mais crimes durante os dois anos em que foi companheira de Barrow, ela não era uma assassina que fumava charuto, armada com metralhadoras, como mostram os jornais, cinejornais e revistas da época.

Um gangster ligado a eles, W. D. Jones, mais tarde disse que não se lembra de tê-la visto atirar em um oficial de justiça, e o mito do charuto surgiu de uma foto instantânea de brincadeira encontrada pela polícia em um esconderijo abandonado, que foi enviada para a imprensa e publicada em todo o país. Bonnie fumava cigarros Camel e não charutos. Clyde fumava Lucky Strike. 

A lenda continua.

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