O drama de quem enfrenta o frio morando nas ruas

“O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias.” A lendária frase que inicia o livro Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, nunca fez tanto sentido. Eles têm nome e sobrenome. Escondem sentimentos. Mais que isso eles têm histórias, guardam lembranças e acumulam sensações. Muitos são invisíveis aos olhos humanos mesmo sendo humanos e pertencendo a mesma espécie. Quando a única opção é não ter opção os moradores de rua contam como lidam com os olhares das pessoas e como fazem para esquecer o passado e não pensarem no futuro. A vivência do presente nunca fez tanto sentido na vida de centenas dessas pessoas que enfrentam o frio da madrugada sem um teto e se aquecem com ‘cachaça’ quando não recebem doações de roupas e cobertores.

Em um ponto de ônibus atrás do Terminal Rodoviário João Goulart, no Centro, José Gomes da Costa, de 77 anos, passa dia e noite. Sentado no banco de ferro, recebendo o vento gelado quando os ônibus passam e a maresia da Baía de Guanabara. Nessas circunstâncias o idoso dorme e acorda todos os dias sem o aconchego de um lar, ou uma panela de sopa quente e uma cama confortável para o descanso. José nasceu em 09/12/1943 na cidade de Nanuque, interior do estado de Minas Gerais, e veio para o Rio de Janeiro com cerca de 12 anos. Morou com a irmã na Zona Norte do Rio, trabalhou como vigia e depois de desentendimentos só teve a rua como opção de moradia.

E entre vários bairros lá se foram 40 anos morando na rua. “Eu morei nas ruas do Rio de Janeiro e depois consegui atravessar de Barca e vim para Niterói. Viver na rua é difícil. Eu queria viver em um abrigo mas não tenho documentos. Eu gostaria de tomar um banho e dormir bem. Nesses dias frios eu ganhei cobertores e um casaco que uma pessoa me deu. Mas é difícil”, contou. Questionado sobre o que ele mais queria ter o morador de rua surpreendeu. “Queria ter a minha certidão de nascimento. Também queria ter meu rádio de volta. Eu dormi e roubaram meu rádio. Ele era minha companhia”, frisou.

Com menos tempo de rua, Antônio Cândido da Silva, de 51 anos, está há dois meses morando na  Praça Leoni Ramos, no bairro São Domingos, e já não lembra mais a própria data de aniversário. Ele passa o dia trabalhando com reciclagem e para ajudar a passar as horas tem uma amiga que acalenta e o ajuda esquecer os problemas que não consegue mais encarar: a cachaça. Antônio toma até quatro garrafas da bebida que o ajudam a encarar a solidão, os problemas e nos dias de inverno, o frio. Questionado sobre o que sente falta enquanto mora na rua ele foi muito simples: um bolo de aniversário. “Eu gostava de comemorar meu aniversário e agora não lembro mais a data que eu nasci. Só lembro que tenho 51 anos e nasci em maio”, contou.


Antônio disse que antes de morar na rua trabalhava em obra e não esconde a vontade de trabalhar com carteira assinada. “Gostaria de ter um trabalho certinho. A situação de dinheiro está muito ruim. Cato papelão, latinha e tudo que pode reciclar. Recebi doação de coberto e casaco. Também recebo comida de pessoas que passam e doam quentinhas. A vida é difícil”, lamentou o pai de seis filhos e avô de dois netos.

A Secretaria Municipal de Assistência Social e Economia Solidária (SMASES) informou que Niterói possui uma rede de atendimento para população em situação de rua que conta com equipes de abordagem social especializada, Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) e cinco unidades de acolhimento (abrigos). Não há insuficiência de vagas nos centros de acolhimento de Niterói e de acordo com a legislação brasileira, a ida e permanência nas casas de acolhimento não é compulsória. Quanto à distribuição de agasalhos e cobertores para pessoas na rua, a SMASES aceita doações para serem encaminhadas para os abrigos municipais.


CENTROS DE ACOLHIMENTO

Casa de Acolhimento Florestan Fernandes, que oferece 50 vagas para homens adultos; o Centro de Acolhimento Lélia Gonzalez, com 50 vagas para mulheres e famílias; o Centro de Acolhimento Arthur Bispo do Rosário, com 30 vagas para homens adultos; a Casa de Acolhimento para meninas Lisaura Ruas (20 vagas para meninas de 6 a 17 anos e meninos de 6 a 11 anos); e Centro de acolhimento para meninos Paulo Freire (20 vagas para meninos de 12 até 17 anos). A Prefeitura de Niterói informou que nas unidades de acolhimento, as pessoas recebem atendimento de assistentes sociais, psicólogos e orientação jurídica, encaminhamento para serviços de saúde, trabalho e renda e documentação civil.

Raquel Morais

Fotos: Marcelo Feitosa

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