O dilema de Titã, um solitário morador do Ingá

Luiz Antonio Mello

Andando pelas ruas do bairro vejo dezenas de pessoas com cachorros na coleira (agora são chamados de pets), algumas levando nas mãos um saquinho plástico para colocar as fezes. Se bem muitas que já chutaram essa modinha para o alto e a maioria deixa o cocô do cachorro lá mesmo. Afinal, “calçada é pública” e no Brasil o que é público, dizem os toscos, é para fazer cocô em cima mesmo.

Noto que a maioria dos cães é obesa por motivos óbvios. Vivem trancados em apartamento, vida sedentária (apartamentos para eles são penitenciárias), e por mais que seus donos os amem, não conseguem dar a necessária, fundamental vida ao ar livre.

Sofrem os cachorros (que também tem muitas doenças de pele por causa da falta de sol, de rolar na grama, etc), sofrem os donos e sofre a vizinhança porque, ansiosos, angustiados, latem o dia todo. Aqui perto tem um que late fino e alto das 7 da manhã as 8 da noite. Direto. Não dá para ouvir nem panelaço.

Decidi nunca mais ter cachorro em apartamento por causa do meu melhor amigo, um basset (razão social dachshund) quase idêntico a esse da foto, que morava comigo num apartamento no Ingá. Adotei o cão porque o sol da manhã entrava pela sala. Para melhorar, havia uma varanda onde, imaginei, Titã (esse era o nome dele) poderia curtir o calor (bassets sentem muito frio) do sol, o vento e um pedaço de céu.

Mas eu nunca imaginei que as três necessidades do melhor amigo do homem são: 1 – o dono; 2 – o dono; 3 – o dono. Não importa se não há sol, não há céu, não há chuva, não há comida. Titã só queria saber de mim, numa postura devocional comovente e quase inacreditável, que fazia muito bem a minha baixa estima.

Claro que eu o amava, muito, e fingia que não via, na calada da noite, saltar devagarzinho para cima da cama e se aninhar no edredom, perto de meus pés.

Eu tinha um jipe com capota de lona, uma Toyota amarela (até hoje não entendi porque vendi) e todos os sábados, domingos e feriados, lá íamos eu e Titã (em pé na porta do carona- lógico que com a coleira amarrada, orelhas voando ao vento) para Itaipu, a minha quase eterna praia. Soltava o Titã no estacionamento ele ia voando para a areia e me esperava no bar do Neno (razão social Sabino´s Bar). Quando se certificava que eu realmente ia ficar por ali, ele saia para ver os seus amigos, vira-latas da praia (tinha reforço de vacina por causa disso) e também namoradas com quem nunca conseguia cruzar por causa das penas curtas. Seu veterinário era o Hilton (da Veterinária Piratininga) conhecia bem a peça.

Itaipu toda conhecia Titã, e meus amigos adoravam ficar com ele. Ele pegou horror ao mar por culpa da espuma de uma onda que o arrastou quando ele tinha quatro meses. Traumatizou. A noite (sempre a noite), voltávamos para casa e ele, cansado, ia deitado no chão do carro. Em casa, banho, comida e ele ia para a cama. Eu voltava para a rua, retornando de madrugada.

O problema era de segunda a sexta. Eu tinha que trabalhar e por mais que a saudosa diarista Marilza levasse Titã à rua de manhã e a tarde, ele queria passear com o dono. Por isso, quando eu saía (sempre com o coração na mão) não resistia ao seu olhar triste, orelhas e rabos caídos como se perguntasse “você vai me deixar sozinho aqui por que?”. Aquilo me matava.

Com o tempo achei que era extremo egoísmo manter o Titã naquele regime de solidão. Marilza também ia embora e ele ficava em casa só. Tinha brinquedos, tinha varanda, mas não tinha o dono, nem gramado, nem passarinho para correr atrás, nem sol. E quando eu chegava a noite era uma festa, ela voava pela casa, parecia um pombo saltando de um sofá para o outro e logo íamos para a rua. Ele também gostava da noite e num canto lá eu o soltava da coleira.

Mas no dia seguinte, mais sofrimento: dele e meu. Foi quando racionalmente (caramba, como me custou) eu entreguei Titã a Marilza, que morava numa casa com quintal, tinha netos pequenos, enfim, o terror da solidão não iria mais assolar o Titã. Mas e eu? E Itaipu?

E… orientado por especialistas, dei o Titã e não o procurei mais. Como ele já gostava muito da Marilza podia fazer melhor a tal da “transferência” e parece que foi isso que aconteceu porque ele durou quase 15 anos, segundo ela, feliz. Hoje, vendo os cachorros de apartamento encoleirados pelas ruas, pergunto. É justo isso?

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