O ciclo do Teatro e os movimentos dos artistas

Meu último artigo publicado, aqui em A Tribuna, foi  “Desde Araribóia até hoje, a cultura é um direito”, onde  fiz uma narrativa da Cultura  em Niterói em várias fases governamentais. Continuo neste foco, mas saindo  do viés do poder e lembrando de algumas instituições já “falecidas” e outras vivas assim como dos  movimentos sociais que marcam e marcaram épocas  no processo de ebulição  da cultura, desde quando aqui era a capital do Estado.
Começando pelo eixo teatral, ressaltando, o que já falei  no artigo anterior, que o teatro brasileiro começa no Morro de São Lourenço, símbolo do nascimento de Niterói, com a encenação do Auto de São Lourenço de José de Anchieta.
Niterói, como capital  do Estado,  viveu a  época do glamour do teatro musical e shows com  companhias francesas, italianas e portuguesas, que se apresentavam  no Casino Icaray,  onde hoje funciona a Universidade Federal Fluminense (UFF). Na realidade, uma postura colonialista cultural.
O historiador Emanuel Macedo Soares no seu livro “Pequena História do Teatro Municipal”, entre outras abordagens, fala da Sociedade Dramática da Praia Grande, que depois foi absorvida por João Caetano com sua companhia de Arte Dramática Nacional  e passou a dirigir o Teatro Municipal. Com João Caetano,  timidamente, é que começa um embrião para uma identidade de  teatro  nacional, aqui em Niterói, no Teatro Municipal. Neste  teatro Municipal, nos idos de 1800,   funcionava a Universidade Brasileira de Artes, com cursos de teatro, música e dança, que se perderam  pelos tempos. Ali  também se apresentavam   o Teatro de Ópera. Hoje, apenas uma luz que de vez em quando aparece. Quem se lembra do Clube Teatral Carlos Gomes.? E a companhia dos Negros?
Retomando a UFF, que sempre foi uma referência nacional como Universidade pública, mas,  apesar, de sua grandiosidade  como uma das melhores universidades do país,  vive algumas contradições. Abandonou completamente o Teatro do DCE, que foi um dos espaços mais vivos de resistência cultural dos estudantes nas décadas de 60 e 70  contra a ditadura e um laboratório  do fazer teatral. Há poucos anos, no entanto,    reformou o teatro da Reitoria para atender a sociedade da Zona Sul de Niterói e comprou o cinema Icaraí , até hoje abandonado. E não faz muito tempo “censurava “ as produções de teatro infantil da cidade, que sempre foram, em sua maioria, avaliadas pela boa safra de qualidade.
Niterói passa por  várias fases no  Império, como capital, depois na República, como ex-capital, com casino e depois sem casino, numa dicotomia de afirmação  teatro de mercado com João Caetano, com o  ator Leopoldo Fróes, que  tinha  grande popularidade na Europa e foi o  criador do Retiro dos Artistas, entre outros.

Niterói, sem escola de teatro, sem casas de shows, com apenas  o Municipal  e o Leopoldo Fróes,  viveu  vários ciclos  de teatro arquitetados em quintais, até chegarmos a uma explosão de experiências de grupos alternativos, políticos, amadores e profissionais  lá pelas décadas de 60 a 70.
No teatro  do DCE (Diretório Acadêmico dos Estudantes) a tônica era mais política, de resistência, contra a ditadura mas também muitas experiências novas e resgate da dramaturgia brasileira. O Leopoldo Fróes virou um espaço vivo de lançamentos musicais,  festivais de teatro e dança.  Do Teatro Leopoldo Fróes   saíram grandes revelações. Este teatro  tinha um comodato de uso pela Prefeitura com a Mitra, que não se renovou. Hoje, o teatro está totalmente abandonado.
Tanto o Municipal como o Teatro Leopoldo Fróes foram palcos de grandes festivais de Teatro,  sob o comando de Sohail Saud, que era o diretor do Setor de Teatro do Estado do RJ. Eram  festivais tanto nacionais como estaduais que aconteciam em Niterói   com apoio do jornal A Tribuna.
Ocorreu, inclusive um fato em desses festivais, com todos integrantes dos  grupos teatrais do  País, hospedados nas dependências do Polícia Militar. Na ocasião, foi denunciado que as acomodações viraram um antro de “bacanal e uso de maconha”. Havia ordem para despejo e acabar com o festival. Sohail, com sua calma e sabedoria, conversou com o comandante convencendo-o de que não era verdade a denúncia  e propôs que fosse feito uma vistoria no local. Deu um jeito de avisar todos os integrantes dos grupos de que haveria  esta ação. Os policiais foram lá, revistaram e revistaram tudo e não achavam nada. Até que descobriram uma “ponta de cigarro de maconha” escondido num travesseiro de um ator. Não houve jeito, foi preso e quase tudo desanda. Sohail esteve com o ator, ele laconicamente disse que não achava que ia ser descoberto. Sohail buscou todos os recursos e  padrinhos mas não houve jeito de tirá-lo da prisão.  O festival continuou e o ator ficou preso um ano em Niterói.
Poucos  sabem que Niterói Já teve o Teatro do Trabalhador, único do País, criado e dirigido por Ze Gamela, que funcionava na Avenida Amaral Peixoto, ao lado da Caixa Econômica Federal. Um teatro frequentado pelo ex-governador Roberto Silveira. Gamela  era craque em paródias políticas.
Outro fato curioso na história do teatro na cidade, ainda com  Zé Gamela. Ele  e sua esposa Dety encenavam no Leolpodo Fóes uma peça sobre  a ressureição de Cristo. Veio um policial e mostrou para a bilheteira sua carteira. Ela disse que não podia aceitar e chamou o Zé Gamela, que, educadamente, disse ao policial:
– Somos trabalhadores e a venda de ingresso é o  nosso pão. O guarda se enfureceu,  fez várias ameaças. Saiu e retornou com um  grupo de policiais que  prendeu  todo o elenco, Ze Gamela, já com a roupa de Cristo e Dety com figurino de Nossa Senhora foram levados a 76% DP e o delegado não acreditando no que viu, repreendeu o guarda mas a repercussão já estava no ar. O maior noticiário da época, o Repórter Esso, deu em notícia extraordinária:
“Presos em plena Avenida Amaral Peixoto, em Niterói, Cristo e Nossa Senhora!”.
Na sequência da década de 70 para 80, Maria Jacintha, que dirigiu o Teatro Duse de  Paschoal Carlos Magno , em Santa Teresa, respeitada nacionalmente e com vários prêmios,   lançando  importantes autores, atores e atrizes,  com uma visão de brasilidade e crítica da realidade, retorna a Niterói. Aqui, viveu várias experiências, criando três companhias , a  “Comédia Fluminense”, “Teatro Fluminense de Arte”,  sendo a última “O Teatro Estável de Niterói”, mas sobre todas elas se mostrou decepcionada e triste.
Numa entrevista, em 1988,  ao jornal O Fluminense,  Jacintha criticou o prefeito,  a falta de público e desabafou: “ Eu pensei que pudesse criar alguma coisa estável em Niterói. Eu quis trazer para Niterói um pouco de minha experiência para cá, mas nem dado eles  querem. Niterói aprendeu a frequentar as pizzarias. Agora, deverá adquirir o hábito de ir aos teatros, disse”.  O  que não desmerece o seu trabalho e as sementes que ela  deixou na cidade. 
Numa conversa que tive com Maria Jacintha sobre o teatro Estável, perguntei a ela porque em vez da Companhia , ela não abria uma escola de teatro na cidade. Ela respondeu:
– É a minha escola, quero deixar um pouco da minha experiência”. Ficaram suas sementes e o sonho de uma escola de arte dramática na cidade.
Neste sentido, há pouco menos de duas décadas, a Universidade Federal Fluminense abriu um Curso de Teatro Profissionalizante, mas fechou sem explicações. No Centro Educacional de Niterói funcionou também um curso profissionalizante muito bem dirigido pela diretora e autora teatral Vilma Dulcetti, que também fechou.
Na década de 80, no IV Centenário de Niterói, toda a escola de teatro do Conservatório  (Hoje Unirio), veio para Niterói dá um curso no Sesc, mas foi um curso rápido, com muito  sucesso.  Hoje, na área teatral,  temos os  cursos do Grupo Papel Crepom ; o curso do Guga Gallo; o curso da Scuola di Cultura; o curso de Raquel Palmerim; o curso de Marcelo Caridade.  O  setor público não tem nada.
Durante quase duas décadas, Niterói ficou conhecida como a cidade referência de teatro infantil, com muitas companhias, com quase ou mais de 30 anos, entre elas, o Teatro Quintal, o grupo Papel Crepon.  No bairro de São Francisco, na Rua General Rondon, foi onde a  família Bedran criou o Teatro Quintal,  o único teatro  do País voltado exclusivamente para crianças. A família ganhou  todos os  prêmios nacionais de teatro e  a principal cria deste laboratório é  Bia Bedran.
O grupo Papel Crepon  foi destaque na grande  mídia como a companhia mais estável do País, pela sua continuidade e profissionalismo e, hoje, sem dúvida, continua sendo “uma grife” de qualidade na área infantil, embora tenham também  produzido  excelentes  espetáculos adultos, principalmente, comédias. Temos grupos que atual na cidade há mais de 20 anos, vamos fazer uma abordagem sobre eles.
Há mais de 30 anos, os artistas de teatro e os movimentos sociais da arte já  debatiam  no Rio e em Niterói, alternativas de se  inserir no mercado sem o selo de “teatrão” e também não serem taxados de teatro amador. A proposta dos artistas eram terem  o mesmo direito de pleitearem apoio e verba pública  para as montagens, além dos   espaços para se apresentarem.  Neste sentido, aconteceu em, Niterói, no prédio onde funciona a Secretaria de Educação, o primeiro Encontro Nacional de Teatro Não Empresarial, uma busca de  saída com esses fins.
De lá pra cá, surgiram  dezenas de companhias, movimentos, criação da Associação dos Trabalhadores de Artes Cênicas, Fórum de Artes Cênicas de Niterói,  o fortalecimento do Conselho Municipal de Cultura, com várias experiências, debates, seminários, onde foi se formatando  uma proposta de ações públicas  para a área teatral.
Um  dos últimos documentos  e   já fazem 13 anos, foi debatido com mais de 150 artistas de teatro,  na criação do Fórum de Arte Cênicas de Niterói, quando foram  aprovadas 21  propostas. Duas delas, na ocasião, começaram com muito

 trabalho a serem executadas: o Ciclo de Leitura Dramatizada , até hoje é sucesso no Teatro Municipal e a Mostra de Teatro Infantil. Depois, a classe conseguiu avançar com a política de  editais,  aprovar que os artistas de Niterói tivessem uma porcentagem de apresentações no teatros públicos municipais e a criação de uma Coordenação de Teatro na FAN, que depois de muita luta se concretizou.


Mário Sousa, jornalista, escritor e diretor de teatro


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