Luiz Antonio Mello: ‘O ciclista mascarado’, uma aventura de bicicleta na África Ocidental

Para os amantes de bicicletas, livros, aventuras, reflexões existenciais, o livro “O ciclista mascarado” do saudoso baterista e compositor do trio canadense Rush, Neil Peart (1952-2020) é um bálsamo. O livro está na bagabem de milhões de ciclistas em todo o mundo.

Nos anos 1990, Neil Peart fez uma longa viagem de bicicleta pela África Ocidental (ele atravessou Camarões) ao longo de um mês e o seu livro, mais do que um diário, mostra reflexões, desabafos, uma visão daquela região extremamente carente aos olhos de um ocidental. Com ele estão David, o guia de viagem, Leonard, um afro-americano que lutou na Guerra do Vietnã, Anne, uma analista de sistemas e a mal humorada Elsa. São centenas de intermináveis quilômetros pedalando em chão batido, sol, chuva, calor extremo.

Sobre a bicicleta (a dele é um modelo para moutain bike), ele define: “rápida para ir de uma cidade a outra em apenas uma manhã e lenta o bastante para perceber a alegria das pessoas humildes pelo caminho”.

Culto, sensível, temperamento fechado, em visível crise existencial, Neil Peart mostra um ou outro surto de felicidade de algumas crianças e idosos, mas no geral não passa panos quentes. Descreve condições humanas deprimentes, o esgoto a céu aberto, carcaças de carros abandonados em sub estradas sem pavimentação, a falta de higiene, saneamento, escolas, luz, água, falta de tudo, uma paisagem social desgraçadamente familiar para brasileiros mais sensíveis.

O músico quis fazer esse tour pelo inferno em sua frágil bicicleta porque os dramas, conflitos, as crônicas crises do Terceiro Mundo lhe interessavam. Ele conta que em Camarões sobra corrupção, achaque por parte dos soldados que fazem barricadas para ganhar dinheiro em blitzes. Defronta com milícias armadas até os dentes, suas crises estomacais e um único prazer: pedalar a sua bicicleta.

Pedalando, o grupo praticamente não se fala, todos envoltos em seus pensamentos, emoções, insights que o pedal solitário proporciona e o maior de todos os desafios que é vencer as longas e quase intermináveis subidas de poeira e lama. Eles dormiam em sleep bags no chão de sub habitações infestadas de baratas e outros insetos, temperatura ambiente de 45 graus, sensação de 50. Neil levou um livro de Aristóteles e um outro clássico, “Cartas a Théo”, com as cartas de Van Gogh para seu irmão, que teve a primeira publicação em 1914. Era com os livros que ele conversava.

O músico escreveu em seu diário: “Há dois modos de se apreciar o ciclismo. Como meio para um fim, é o jeito perfeito de se viajar por um lugar desconhecido. Mas podemos encarar o ciclismo como um fim em si mesmo: girar os pedais e devorar a estrada é uma ação rítmica, revigorante e desafiadora que ajusta a mente numa rotina contínua e reconfortante. O mundo parece um lugar amistoso sobre o assento de uma bicicleta, e tudo o que não se pode realmente enxergar a partir desse ponto de vista tende a perder a importância.”

Sobre bicicleta e felicidade, Neil escreveu que “felicidade não é uma estação para se chegar, mas um modo de se viajar. Assim sendo, a felicidade é uma bicicleta. Andar de bicicleta é um bom modo de viajar em qualquer lugar, mas principalmente na África, onde você se torna independente e móvel, e assim viaja na “velocidade das pessoas” – rápido o bastante para se deslocar até a próxima cidade nas horas mais frescas da manhã, mas devagar o suficiente para conhecer o povo: o velho agricultor na beira da estrada que ergue a mão e diz “Vocês são bem-vindos”, a mulher incansável que oferece um sorriso tímido ao ciclista, as crianças das risadas que transcendem a casinha mais humilde.”

Bruna Bengozi escreveu no site Livro & Café:

“Pelas estradas – que nem sempre poderiam receber esse nome – e pela busca incessante por um lugar para dormir, comer e beber (perdi as contas de quantos refrigerantes os ciclistas tomaram!), vamos conhecendo Camarões: as culturas de seus povos, as divisões sociais e de gênero (Neil comenta que parece que só as mulheres trabalham nas cidades pelas quais passou, enquanto os homens ficariam ociosos), a influência de missões religiosas, preocupadas em construir grandes igrejas em locais miseráveis, a gentileza dos moradores e a cultura do suborno dos policiais e soldados.

Ficam evidentes os traços de um país diverso em aspectos climáticos, ambientais, políticos, religiosos. Enquanto o sul tem um clima úmido, com uma rica fauna tropical, adepto do cristianismo, a zona ao norte, à mercê do deserto do Saara, tem um clima mais árido, com paisagem de savana, e sob influência do islamismo. Entre ambas as regiões, uma forte tensão, marcada por guerras civis, por golpes e governos corruptos.”

As quase 400 páginas passam rápido, mas cada uma delas reserva uma surpresa, uma beleza, um momento de desespero, as descrições que Neil Peart faz ao encarar subidas com lama inclemente e dor é lacinant e seu mergulho abissal em si mesmo, na África, na vida, proporcionados pelos resistentes pedais são uma necessária lição de existência.

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