O bloco de Jair Capitão

Luiz Antonio Mello-

Não acredito que o Carnaval seja um estado de espírito como apregoam as moscas do apocalipse, brincando de Chapeuzinho Vermelho no Gradim.


Se fosse, o Estado do Rio passaria a chamada “Folia de Momo” comendo naftalina debaixo da cama já que estamos sob o signo do psicoproctologista (homenagem ao saudoso Agamenon Mendes Pedreira) Jair Capitão, que em nome da sagrada família e dos bons costumes promove um MMA institucional histórico. PM cospe em governadores, ministros pisam no Congresso, congresso estapeia ministros e todos estupram a imprensa, a Geni da democracia.

Perto do sururu do Jair a revolta do Chile (lembram?) parece baile de debutantes. Com que estado de espírito ir para a rua fantasiado para mergulhar na alegria, mesmo a compulsória sabendo que, em uma única teclada, o capitão é capaz até de passar a mão no lombo do papa?

A sábia Tania de Rio Bonito, uma bela estatal, concubina socialista popular, que fez as cabeças de centenas nos anos 80, dizia que o Carnaval é uma decisão. Claro que há os que não gostam, os que tem ojeriza, horror, mas por mais que as ruas estejam sitiadas pelo tapa na cara, tiro, pauladas essa sociedade dividida e turbinada por um presidente que faz Nero parecer estagiário, vale a pena cantar.

Arriba, povão! Vamos romper o medo, a fobia, a estagnação porque é mais do que desnecessário ficar se preocupando com essa pindorama maravilhosa. Afinal, como teria dito Kennedy, não pergunte o que você pode fazer pelo seu país. Pergunte o que o seu país pode fazer por você.

Pensando bem, lá no fundo do hímen constitucional, Lula não bebeu tudo à toa. Só bebeu mal, ou, pior, bebeu uma manguaça que era nossa, mas é hora de bloco, samba, cerveja, todo mundo engravatado já que está proibido fantasia de palhaço, índio, nega maluca, tirolesa, anão e, daqui a pouco, de presidiário também.

Por mais que haja bombas, terrorismo, caos, as crianças do Afeganistão continuam soltando pipas (cafifa em Niterói, papagaio em São Paulo), as feiras continuam funcionando, a cantoria nas noites de Cabul estão lá, enfim, por mais que a situação esteja dramática, afegãos (como os paquistaneses e vietnamitas) acham que a vida só vale a pena se pudermos vive-la. Mesmo que correndo risco, como as emas em pânico no gramadão do Alvorada vendo Jair Capitão acordar de mau humor no Carnaval, enfiando o pente em sua Glock ponto 40 olhando, fixo para elas… as emas.
Está aí a magia do carnaval. Há luto por toda a parte no Estado, há covardia, há violência, há brutalidade, mas o Carnaval consegue atrair as pessoas para a vida, mesmo que passando por perigosas pinguelas, como brincar de Esther Williams nadando de costas no piscinão do Guandu.

Numa redação no início de minha trajetória profissional, conheci um veterano chamado Walter. Sabia tudo de jornal. Walter chegava caladão, dava um olá para todo mundo e enfiava a cara na máquina de escrever, parando de vez em quando para tomar comprimidos. Walter era hipocondríaco e, diziam debochando, usava máscara hospitalar no ônibus e na barca que o levava para casa, no Cubango.

O pessoal ia almoçar numa pensão barata, mas temendo bactérias, germes, moscas, Walter não ia. Levava comida de casa numa pequena marmita que esquentava num velho fogão que ficava num canto da redação. Seu pavor de doenças o transformou num homem insular, que não ia a lugar nenhum, só trabalho-casa-trabalho. Uma vez por mês ia a Paquetá onde tinha uns primos e uma égua. Nada mais.

Como a vida é mais imprevisível do que mulheres de chico, numa noite de quarta feira Walter caminhava para pegar o ônibus (ele ia mais tarde para evitar aglomerações e ônibus lotado, muito risco de contágio) e parte de uma marquise desabou. Sobre ele.

Deu sorte porque foi só um pedaço relativamente pequeno que atingiu o seu lado direito. Mesmo assim foi levado quase desmaiado para o Antonio Pedro, que na época era hospital de emergência. Por que parou? Parou por que?

Transferido para um hospital particular, Walter passou mais de 15 dias em cima de um leito. Quando fui visita-lo deu vontade de falar “tá vendo? Todo cheio de cagaços e acabou que a mulher da foice quase te levou”, mas não tinha nenhuma intimidade para isso.

Walter se deu alta e sumiu. Colegas mais próximos comentavam que ele teria fugido com uma funcionária terceirizada do laboratório de análises clínicas. Na porta do hospital, os dois tacaram fogo nos remédios de Walter, beberam meio litro de Campari, ficaram nus e se atiraram num bloco de sujos. Nunca mais foram vistos.

Feliz Carnaval, Crivella.

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