Novos blindados da PM foram adquiridos de empresa que teria feito ‘lobby’ com filho de Bolsonaro

A Polícia Militar do Rio de Janeiro anunciou, nessa terça-feira (29), a chegada do primeiro de 15 novos veículos blindados, que estarão a serviço da corporação. Cada equipamento terá o custo de R$ 652,5 mil totalizando, aproximadamente, R$ 9,7 milhões. A fornecedora, que venceu o processo licitatório, é a empresa Combat Armor do Brasil, de origem norte-americana, e que se estabeleceu no país desde 2020. Na mesma época, teria acontecido um encontro entre o homem forte da empresa no Brasil e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), sendo este último aliado do atual governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL).

Desde então, a empresa firmou acordo de fornecimento com entidades como o Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Para a negociação dos blindados, foi feito pregão eletrônico, no final de 2020, assinado em 5 de março desde ano. O processo licitatório foi polêmico, tendo inabilitação de uma das concorrentes, que havia vencido um dos itens, além de pedido de impugnação, feito por outra empresa.

O pregão foi dividido em dois itens, sendo o primeiro relativo ao fornecimento do chassi, vencido pela Combat; e o segundo relativo à carroceria, vencido por outra empresa, Linkway Exportação e Importação, prevendo compra de 32 unidades de cada item. Após a vitória da Linkway, a Combat apresentou recurso, que foi bem sucedido, contra a concorrente por eventual descumprimento de exigências.

O recurso acabou sendo aceito e, na sequência, a Combat igualou a oferta da rival, passando a ser também a vencedora do item 2. A Polícia Militar afirma que os primeiros 15 blindados estão previstos inicialmente no contrato e, caso haja disponibilidade orçamentária, sejam adquiridos outros 15, nas mesmas características, totalizando 30. A corporação não se manifestou sobre os outros dois que ficariam faltando para cumprir os 32 que estavam previstos no edital.

Além disso, houve pedidos de impugnação feitos por duas empresas concorrentes: C&M e Transrio. Chama atenção, no pedido desta última, uma contestação ao tempo estabelecido para entrega dos dez primeiros veículos. “Portanto, salta aos olhos e causa espécie que o edital em apreço requeira a entrega dos 10 (dez) primeiros veículos em apenas 60 (sessenta) dias o que, obviamente, indica que há algum fornecedor com o veículo pronto”.

Quem é quem na Combat

O homem forte da Combat é Daniel Beck, empresário e fervoroso militante do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo apuração feita pelo jornal Folha de S. Paulo, a Combat surgiu em 2011, como AdFaction, uma empresa de publicidade. No início de 2019, a empresa teve seu nome mudado para o atual e seu objetivo trocado para atuação em serviços de segurança no Brasil. Uma fábrica foi estabelecida, em fevereiro daquele ano, no interior de São Paulo, em Vinhedo.

Nesse período um CNPJ foi emitido para a empresa atuar no Brasil, e quem comanda a operação no país é Maurício Junot de Maria, que, segundo a publicação, é um empresário do ramo e teria ido pessoalmente, em Brasília, “pedir força” ao deputado federal Eduardo Bolsonaro. O parlamentar nunca se manifestou sobre o suposto “lobby”, enquanto Junot, ao jornal paulistano, afirmou ter apenas apresentado um de seus produtos para o deputado e que a empresa não possui ligações políticas.

Aplicação dos blindados em Niterói, Maricá e SG

A reportagem de A TRIBUNA conversou com os comandantes do 7º BPM (São Gonçalo), tenente-coronel Gilmar Tramontini, e do 12º BPM (Niterói e Maricá), coronel Sylvio Guerra, sobre a expectativa de recebimento dos novos veículos nas unidades. Contudo, até o momento, não há uma data, apenas a expectativa para que os batalhões possam contar com os novos blindados.

De acordo com Guerra, ele acredita que o 12º BPM irá receber uma das unidades, mas aguarda o planejamento da Polícia Militar. “Acho que sim, porém não sei quando [iremos receber]. Temos que esperar, não há nada definido”, pontuou Sylvio Guerra. Gilmar Tramontini, comandante do batalhão de São Gonçalo, seguiu pela mesma linha e afirmou que a unidade deve receber o novo equipamento.

“Há promessa de recebermos um novo, quando eles chegarem. Ainda não chegaram, apresentaram o primeiro ontem [terça-feira], que irá passar por testes, que eu acredito que não venha para o 7º, mas está previsto recebermos novos sim”, afirmou Tramontini.

Especialista comenta aquisição

O professor Ignácio Cano comentou sobre a aquisição dos novos equipamentos. Ele orienta que os blindados sejam usados de forma defensiva, a fim de evitar confrontos. Além disso, ele avalia como positiva a colocação de câmeras, para que as ações policiais sejam mais transparentes.

“Os veículos blindados devem ser usados para evitar o confronto, permitir o deslocamento sem ter que trocar tiros, ou seja, como equipamento defensivo. O problema é que muitas vezes são usados de forma contrária, para ir lá, atirar e matar gente. De alguma forma inverteram a forma de um equipamento que é defensivo. As câmeras são sempre positivas para a gente acompanhar o que está acontecendo, para a gente ter uma evidência do que acontece”, acrescentou.

Procurada para comentar a aquisição, a Combat não havia respondido, até o fechamento desta reportagem. O deputado Eduardo Bolsonaro também foi procurado, por meio do e-mail e telefone disponibilizado pelo site oficial da Câmara dos Deputados, mas também não retornou ao contato.

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