NOS TEMPOS DO INTERVENTOR

Célio Junger Vidaurre

Quando o Presidente Getúlio Vargas designou o senhor Ernani do Amaral Peixoto como Interventor do Estado do Rio, começava aí a Era em que os fluminenses que se aliavam ao novo comandante político teriam uma vida cheia de proteções , bons empregos e possibilidades de mandatos eletivos. A profunda mudança ocorrida com o golpe de 1937 com a instalação do ESTADO NOVO, só teve fim com a redemocratização do país em 1946, um ano depois da deposição de Getúlio.

Mas, durante esses oito primeiros anos no Estado, Amaral foi muito generoso com seus correligionários. Niterói como capital do Estado passou a ter uma vida parecida com a vivida nos tempos do Império, pois, as famílias que tinham seus chefes nomeados para cargos importantes na administração estadual nomeavam também seus filhos nas melhores posições do Governo.


Como havia pouco tempo do fim da Monarquia, essas famílias ainda mantinham aquela vontade de ser nobre através desses cargos adquiridos e, desta forma, algumas criavam seus filhos como se fossem verdadeiros príncipes. Conclusão, ainda hoje existem pela cidade alguns idosos bem grisalhos que acreditam que “em algum dia foram príncipes ou princesas”.

Nunca foram, mas a empáfia sempre foi mantida. Nesse tempo do Interventor na capital fluminense a vida dourada de seus privilegiados correligionários passava por funções de um Tabelião de Cartório e de altos cargos do Tribunal de Contas, etc, etc. Os filhos já aos 18 anos eram transformados em Fiscais de Rendas e os de curso superior eram guindados como Juiz, Promotor, Procurador ou Advogado do Banco do Brasil. A maioria teve no período da Interventoria e depois que Amaral chegou ao governo pelo voto popular, 1950/1954, a condição de que também tinha o privilégio de promover nomeações no âmbito federal, vez que, seu sogro, Getúlio Vargas, estava do outro da Baía, lhe atendendo a qualquer momento.


Em decorrência disso, Amaral tinha as condições reais de proteger todos os seus correligionários por todo o Estado e, assim, sempre o fez. Mas, a tragédia de 24 de agosto de 1954 muda tudo. Vargas suicida e Amaral ficou órfão? Não, mostrou aos fluminenses e brasileiros o seu verdadeiro talento político. É sabido que Amaral não ficou por aqui apenas protegendo seus correligionários, construiu inúmeras escolas, promoveu grande desenvolvimento industrial, abriu estradas aumentando a comunicação entre os municípios.

O Estado passou a ter as suas próprias empresas de eletricidade e de apoio a construção civil. Teve papel importante na criação da CSN – Cia Siderúrgica Nacional. Niterói foi transformada com a ampliação da Avenida que hoje leva o seu nome. Fez o que foi possível no seu tempo. Vida que segue, em 1955, Juscelino ganha o pleito presidencial e já no início de 1956 convoca Amaral Peixoto para ser o Embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Começa aí, exatamente, o tempo das traições.


Ausente do País, cumprindo uma missão oficial como Embaixador, mas, sempre atento e em contato com sua base política, em 1958, Amaral resolve concorrer ao Senado e, desta forma, percebeu o tamanho da traição que lhe impuseram. Dois de seus antigos aliados que chegam ao poder maior do Estado, por seu intermédio, como governador e vice, resolveram concorrer como seu adversário e de seu candidato ao governo Getúlio Moura. Amaral e Getúlio foram derrotados, sem piedade. Juscelino traz de volta Amaral para assumir o Ministério da Viação, em 1959, o comandante volta a articular a candidatura ao Senado para o próximo pleito de 1962. Antes, porém, de começar a campanha, Amaral sofre umoutro revés de outro aliado antigo que antecipou e, mudando de partido, registra a candidatura ao Senado. Amaral recua e volta a ser candidato a deputado federal. Só voltou a ser candidato a Senador em 1970, quando foi o mais votado dos concorrentes.


Nos anos de 1970, o senador Amaral Peixoto testa seu eleitorado e em 1974 elege seu desconhecido genro, Moreira Franco, um piauiense morador do Rio como o deputado federal mais votado do Estado. Em 1976, Moreira torna-se Prefeito de Niterói e em 1986 Governador do Estado. Logo depois, 1989, o eterno comandante veio a falecer deixando um legado político que, entre tantas celeumas e virtudes está a de que foi traído, mas jamais traiu companheiros de jornada política. Foi traído, mas não traiu jamais. Após essa fase a história recente já é conhecida de todos.


O que a maioria não sabe é que Amaral Peixoto nasceu no Rio de Janeiro, mas o Google registra que foi em Niteroi, em 1905. Passou por todos os cargos importantes da administração pública, foi deputado, senador, interventor , governador, ministro de Estado, Ministro do Tribunal de Contas da União e Embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Foi tudo. Tinha formação militar e também era engenheiro.

Seus amigos mais próximos viam no Comandante a figura de um homem simples, muito simples, de fino trato, de grande lealdade com seus companheiros e que jamais decepcionou aqueles com quem conviveu por décadas e mais décadas. Sua marca está registrada em todas as avenidas por todos os municípios fluminenses.

O PREÇO DA HONESTIDADE É A ETERNA TRANQUILIDADE DA CONSCIÊNCIA

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