Niterói vira Cidade de Lágrimas

O fim de tarde foi repleto de simbologia em Niterói. Todos em silêncio, olhares cheios d’água e um só pedido, que a paz tome conta da cidade e de todo o Estado do Rio. Esta foi a forma encontrada por amigos e familiares do produtor cultural e aluno de doutorado da Universidade Federal Fluminense (UFF) Rafael Lage, morto com um tiro no peito em um bar do Ingá, na Zona Sul da cidade. O ato, promovido pela ONG Viva Rio, ocorreu na praia de Icaraí, em frente a uma árvore que em setembro de 2011 recebeu o nome da juíza Patrícia Acioli, morta em agosto do mesmo ano por policiais que estavam sendo julgados por ela. Os cerca de 200 manifestantes rezavam com velas acesas pela memória de Rafael e, muitos, revoltados, relembraram como o amigo foi morto.

“Meu Deus, meu amigo estava num bar com a namorada, não fez nada para que fosse executado. Essa é a realidade da nossa cidade. Um cidadão do bem, cheio de vida que se foi nas mãos de bandidos. Tinha que ter uma lei que impedisse que filhos morressem antes dos pais”, disse emocionado um amigo que preferiu não se identificar.

“Ele era meu amigo, éramos da mesma Igreja Presbiteriana. Estamos destruídos, impossível acreditar que um rapaz tão jovem e tão bom possa ter sofrido uma violência dessas”, disse o funcionário público Jorge Flores, de 61 anos.

“Foi uma violência banal, gratuita, me destruíram, me jogaram no chão e eu pergunto: porquê? O meu filho era um rapaz totalmente pacífico, amoroso, estudioso e só me trouxe orgulho. Hoje estou aqui para implorar paz e segurança para os nossos filhos”, comentou.

1 - CINTIA VALADARES

Emocionada e revivendo um pesadelo ao ver a dor de mais uma família destruída pela violência, a dona de casa Cíntia Valadares, de 59 anos, passou pelo mesmo problema há cinco anos, quando o seu sobrinho Jorge Carvalho, de 24 anos, foi morto na casa da namorada, no mesmo bairro onde Rafael foi assassinado, no Ingá. De lá para cá, a dona de casa já participou de pelo menos quatro manifestações iguais à de ontem, no mesmo lugar, que para ela se transformou em um local de tristezas e lamentações.

“Eu sinceramente não aguento mais passar por isso, eu não o conhecia, mas o meu sobrinho foi morto da mesma forma, de um jeito covarde enquanto deixava a namorada na porta do prédio e os bandidos chegaram atirando. Eu me compadeço com a tristeza da família e estou aqui para dizer que chega de tanta violência”, comentou emocionada.

Pai de Rafael, o aposentado Ivar da Costa Pereira precisou da ajuda de amigos e familiares para conseguir se manter de pé, diante tanta tristeza com a morte do filho.

Para o fundador da ONG Viva Rio, Antônio Carlos Costa, o motivo principal desta falta de segurança e violência nas cidades do estado é a falta de responsabilidade e credibilidade dos governantes, que em invés de administrar, ficam se defendendo de acusações de corrupção, deixando a população abandonada a própria sorte.

“O que observamos hoje com a morte do Rafael é a certeza de que os nossos políticos estão falhando. Não temos segurança, Niterói não é mais segura. A Cidade Sorriso transformou-se em Cidade das Lágrimas, assim como em todo o estado. Pedimos que essa morte não fique impune, queremos justiça”, disse.

No fim da manifestação que foi totalmente pacífica, os participantes cantaram o hino nacional, seguido de palmas e pedidos de paz.

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