Niterói perde seus campos de futebol

Wellington Serrano –

Palco da primeira partida oficial de futebol no Estado do Rio de Janeiro, Niterói não seguiu o exemplo do feito em 1901 por Oscar Cox — filho de um dos fundadores do clube Rio Cricket, que além de organizar o jogo histórico, ocorrido há 113 anos na cidade entre o time do clube e o Paissandu, com a partida terminada empatada por 1 a 1, até hoje mantém o campo onde aconteceu a partida.

Celeiro de jogadores de futebol, com nomes impossíveis de esquecer como Zizinho, campeões mundiais e revelações do futebol nacional, os niteroienses agora assistem ao fim de seus campos esportivos com a verticalização da cidade. O Complexo Esportivo Caio Martins, em Icaraí, apesar de ter a concessão cedida ao Botafogo e válida até o ano de 2027, o clube acertou com o governo do estado do Rio de Janeiro a devolução do espaço em troca do Estádio Mané Garrincha, onde treina parte das categorias de base. A Prefeitura de Niterói tenta municipalização do local.
Niterói que já foi bicampeão estadual, antes mesmo da fusão, em 1975, segue com sua glória invertida ao perder seus campos de futebol. O Campo do Vianense, foi ocupado por quatro blocos de edifícios; o do Ypiranga virou uma subestação de energia; o do Marítimo se transformou no extinto bingo Charitas, o do Diário Oficial passou a ser sede do 12º Batalhão da PM e os prometidos estádios populares do Barreto e do Fonseca se transformaram numa Central de Abastecimento e num conjunto habitacional.

O Fluminense AC, no Centro, dividiu o seu campo entre uma área de estacionamento e outra de futebol soçaite. O campo do Niteroiense tornou-se área onde se situa o moderno edifício Tower 2000.

“Quem jogou, jogou. Quem não jogou, não joga mais”, essa é a declaração de um morador de São Domingos, na Zona Sul de Niterói, Fernando Monteiro, sobre o campo supostamente usado pela Liga Niteroiense de Desportos, que fica na Rua Coronel Tamarindo, ao lado do Forte do Gragoatá, que, cercado de tapumes e sem jogadores, dá lugar a máquinas escavadeiras e operários, que trabalham na retirada do gramado para construir ali um conjunto de salas comerciais. As gramas foram para o campo do Cruzeiro, no bairro Badu.

Segundo os moradores e comerciantes, a venda teria acontecido através de um acordo entre a Liga Niteroiense e a Planurbs S/A, que revendeu o terreno com mais de 500 mil m² à beira-mar para uma empresa estrangeira, que já teria alugado futuras salas comerciais para empresas de computadores como a Dell.

O espaço, um dos poucos de lazer no bairro, chegou a ser do Canto do Rio ao utilizar o campo da entidade, tanto para treinos das equipes quanto para jogos oficiais das categorias de base do clube entre elas o sub-7, sub-9, sub-11, sub-13, sub-15 e sub-17. O campo, que fica numa área nobre ao lado da praia e do Forte do Gragoatá, havia passado por uma total reforma no gramado, na iluminação e nos alambrados.

O morador Ronaldo Dornelas lamenta que lá se foi o último espaço à beira-mar do bairro que servia à população. O novo empreendimento não teria levado em conta a necessidade de uns via litorânea e da conclusão de da Via 100, criada com o objetivo de desafogar o trânsito do Gragoatá e do Centro.

“As empreiteiras espertas estão sempre de olhos nos melhores espaços. Essa empresa já havia construído aqui o Condomínio Gragoatá Bay Residencial e mudou a cara do local, em terreno onde existe um campo implantado pelo grupo de Regatas Gragoatá. Agora vem com essa para acabar de vez com a nossa tranquilidade”, lamentou. Os únicos campos oficiais existentes são o do quartel do Centro de Formação de Oficiais, o do Rio Cricket; e o mais importante, o do Cruzeiro, em Pendotiba. Com menor dimensão existem outros como em Jurujuba (Flamenguinho) e o do interior do 12º BPM. De resto, só campos de “pelada” ou de futebol soçaite, alguns até com grama sintética, além dos campinhos da Concha Acústica e o do “campus” da UFF.

A construtora Planurbs faz nenhum comentário sobre a ocupação e a Prefeitura também não fornece nenhuma informação.

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