Niterói perde para a Covid uma de suas figuras mais carismáticas e populares

Morreu na manhã de quinta-feira (18) o ex-vereador de Niterói, Renatinho, que estava internado por conta de complicações da Covid-19 desde dia 1º de março, no Hospital Icaraí, no Centro. A morte do ex-parlamentar comoveu não só o meio político, mas também toda cidade, principalmente o bairro de Icaraí, onde Renatinho trabalhou por muitos anos como camelô e era figura carismática e muito conhecida. O sepultamento está marcado para essa sexta-feira (19), às 15h30min, no Cemitério Maruí, na Zona Norte, mas devido à pandemia não terá velório e a cerimônia será restrita à família. O prefeito Axel Grael decretou luto oficial de três dias.

Renatinho ficou entubado, inconsciente e respirando com o auxílio de aparelhos por 18 dias. Gezivaldo Renatinho Ribeiro de Freitas, o Renatinho do PSOL como ficou conhecido, exerceu cinco mandatos de vereador e comandou a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Niterói por 10 anos. Recentemente ele deixou o PSOL e foi convidado por Axel Grael para assumir a Subsecretaria Municipal de Direitos Humanos.

Uma história de vida e luta

Renatinho nasceu em 15 de julho de 1952, em Campos. Antes de ingressar na vida política, ele trabalhava como vendedor ambulante vendendo de panos de prato em um local que acabou ficando conhecido como “Esquina do Renatinho”, no encontro das ruas Gavião Peixoto e Pereira da Silva, em Icaraí, Zona Sul de Niterói. Mesmo depois de eleito, Renatinho seguiu trabalhando como ambulante e transformou seu ponto em uma espécie de ‘gabinete popular’.

Seu despertar para vida política se deu quando a Prefeitura resolveu aplicar uma política mais rígida de controle urbano e Renatinho teve sua banca apreendida pelos fiscais. Em protesto, ele se acorrentou à porta de uma loja e disse que não sairia dali até que seus pertences fossem devolvidos.

Assim, à época filiado ao PT, conseguiu se eleger em 2004 para uma vaga na Câmara de Vereadores de Niterói. Após migrar para o PSOL, ele adotou a legenda como sobrenome e ficou até a última legislatura. Em 2016, ele não conseguiu se reeleger. Mas com a eleição da então vereadora Talíria Petrone como deputada federal, em 2018, e a desistência do primeiro suplente, o Pastor Henrique Vieira, em assumir a vaga, Renatinho retornou à Câmara.

Em 2020 Renatinho ficou novamente na segunda suplência do PSOL, tendo uma votação menos expressiva do que nas eleições anteriores. Assim, deixou o PSOL e pretendia se filiar ao PSB, para assumir a Subsecretaria de Direitos Humanos. Mas acabou falecendo antes de poder concretizar a mudança.

Parlamentares lamentam morte do ex-vereador

O PSOL Niterói divulgou uma nota de pesar pela morte do ex-vereador:

“Renatinho foi um trabalhador ambulante com deficiência que surgiu na cena pública de Niterói lutando contra os desmandos à sua categoria. Vendendo paninhos em uma das esquinas de Icaraí, precisou lutar muito para garantir seu direito ao trabalho. Tornou-se vereador por cinco mandatos, sendo o primeiro eleito pelo PSOL Niterói. Nosso camarada também foi ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos, defensor da pessoa com deficiência e das causas populares, dos direitos dos trabalhadores, dos animais e do meio ambiente. Em situação grave, resistiu bravamente por vários dias em UTI. Hoje (ontem), infelizmente, nos deixou. Nossos pêsames e solidariedade a seus familiares, amigos e companheiros. Renatinho foi alguém excepcional e estará para sempre presente em nossas memórias e lutas”.

O vereador Milton Cal(PP), presidente da Câmara de Niterói, destacou a humanidade de Renatinho.

Renatinho do PSOL era um grande amigo, uma pessoa a qual admirava e com quem aprendi muito nestes anos de convivência. Foi o genuíno representante popular e das minorias da cidade. Uma pessoa de humanidade ímpar. Nossa cidade sofre uma grande perda. Como Chefe do Legislativo Municipal, decreto luto de 3 dias e junto aos meus colegas de parlamento, declaro que continuaremos apoiando o Executivo Municipal na luta contra o vírus”, frisou.

O Prefeito de Niterói, Axel Grael, também lamentou a morte do ex-parlamentar.

“Recebo com muita tristeza a notícia do falecimento do ex-vereador e nosso subsecretário de Direitos Humanos, Renatinho, que lutava contra a Covid-19. Toda minha solidariedade à família neste difícil momento. Mais uma triste perda a nos reafirmar a necessidade de priorizar a prevenção e enfrentamento à pandemia”, escreveu.

O ex-prefeito Rodrigo Neves afirmou que conheceu o Renatinho há 25 anos, e lembra da sua alegria quando assumiu pela 1º vez o mandato de vereador de Niterói. “Simpatia, simplicidade e idealismo. Uma perda para as causas dos direitos humanos e dos animais. Condolências à sua família e todos amigos”, afirmou.

O colega de partido, o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL), também mostrou tristeza ao falar da morte de Renatinho.

“Hoje perdemos um grande amigo. Renatinho, primeiro vereador do PSOL em Niterói, não resistiu às complicações da Covid e nos deixou nesta madrugada. Sempre alegre, brincalhão e um guerreiro que lutou pelos direitos dos mais pobres. Foi um grande companheiro de luta, em defesa dos Direitos Humanos, dos animais, das pessoas com deficiência, por acessibilidade, em defesa da democracia e sempre atuou incansavelmente para melhorar Niterói. A tristeza é enorme. Todo meu carinho e solidariedade à família neste momento tão doloroso. Vá em paz, meu amigo”.

A também deputada federal Talíria Petrone (PSOL) contou que recebeu a notícia “com enorme tristeza. Mais uma vítima da Covid-19. Toda nossa solidariedade à família e amigos! Renatinho era trabalhador ambulante e, enquanto vereador, presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Niterói, além de ser um incansável lutador pelos direitos do povo, dos animais e do meio ambiente. Renatinho vai deixar boas memórias da sua postura aguerrida, presente em todas as lutas da cidade. Vida longa à memória do nosso companheiro. Renatinho, presente!”, frisou.

Vereador pelo PSOL em São Gonçalo, o professor Josemar Carvalho, lembrou que Renatinho foi um “lutador social” e que aprendeu muito quando trabalhou em seu gabinete, o qual chamou de “gabinete-escola”, por contar com vários jovens que hoje são importantes quadros do PSOL na região.

“Sempre nas lutas em defesa dos trabalhadores, das causas populares, das pessoas com deficiência e dos direitos humanos, Renatinho foi o primeiro vereador eleito pelo PSOL em Niterói e um dos primeiros vereadores a optar pelo PSOL antes mesmo da legalização do partido. A sua partida entristece toda uma militância que apostou no PSOL como uma importante ferramenta de transformação da sociedade. Sua luta e história seguirão presentes conosco! Minha solidariedade aos familiares”, afirmou.

Tarcísio Motta, vereador pelo Rio de Janeiro e duas vezes candidato ao Governo do Estado pelo PSOL, disse que perdeu um querido companheiro de luta.

“Um amigo de fibra, lutou com todas as suas forças contra a Covid. Temos muito orgulho de termos caminhado juntos todos esses anos para tornar o Rio de Janeiro um estado melhor e com menos injustiças para a sua população. Seguiremos na sua luta”, postou Motta.

A vereadora Veronica Lima (PT) disse que recebeu com muito pesar a notícia do falecimento do ex-vereador.

“Reafirmo, enquanto parlamentar, o meu compromisso de alertar a população a respeito do grave momento da pandemia que vivemos. Esse é o maior colapso hospitalar e sanitário na história do Brasil, segundo a Fiocruz. Se puderem, fiquem em casa. Se cuidem e usem máscara”, colocou.

ÚLTIMA PUBLICAÇÃO

A última publicação do Renatinho nas redes sociais foi no dia 2 de janeiro, quando frisou a gravidade da doença.

“O ano de 2020 foi um ano muito duro para toda a humanidade. No Brasil, o negacionismo da Covid tornou nossa realidade ainda mais cruel. Já são quase 200.000 mortos confirmados, número que poderia ser muito menor se houvesse responsabilidade do governo na condução de políticas públicas em relação à pandemia. Na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, batalhamos arduamente para proteger nossa população, além de servir como ferramenta para as lutas dos movimentos sociais, com destaque às pessoas com deficiência, movimento por moradia, mulheres, pessoas em situação de rua, movimento sindical, pescadores artesanais, movimento negro, LGBTs e saúde mental. O ano novo traz o significado da esperança, mas também de mudança e renovação. A esperança passiva certamente não trará as mudanças necessárias para um novo começo, por isso precisamos de ação e luta para alcançarmos a tão desejada renovação para esse ano que começa agora”.

Raquel Morais e Marcelo Almeida

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