Niterói ocupa a segunda posição no ranking de ônibus incendiados

Augusto Aguiar –

Em janeiro deste ano, a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) e a Confederação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (CNT) divulgaram um triste levantamento realizado ao longo de 30 anos, mostrando que 4.397 ônibus foram incendiados no país. Esses incidentes criminosos resultaram na morte de pelo menos 20 pessoas, desde 1987. No comparativo, esse total de ônibus incendiados era maior do que as frotas de coletivos das capitais Curitiba e Salvador, juntas, por exemplo. Entre os anos de 2004 e 2019, as cidades com o maior número de ocorrências foram São Paulo (441), Rio (336), seguido pelo conjunto de municípios da Região Metropolitana, com 122 coletivos incendiados.

Já estamos no início do segundo semestre e pouca coisa mudou. No estado os números ainda entristecem e a população segue sendo a maior prejudicada por esses atos criminosos. A Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor) havia apurado até o início do mês de agosto que 197 ônibus foram incendiados no Rio desde 2016. No último dia 12, no bairro de São Francisco, Zona Sul de Niterói, um ônibus foi destruído durante ataque de vândalos em protesto pela morte de um adolescente numa operação policial na região, e outros dois coletivos foram incendiados na Rodovia Rio-Santos, em Angra dos Reis, na véspera.

No levantamento desse ano 14 ônibus foram incinerados no estado. Desses, cinco foram em Niterói, que também registrou outros três, em 2016. Em 2017 e 2018, não foram registrados incidentes do tipo. A totalização do estado foi: 2016 (44), 2017 (94), 2018 (14), e 2019 (14), totalizando 197.

“Dos casos, apenas sete veículos foram recuperados e retornaram à operação. Do total, mais de 41% (81) eram climatizados. A capital é a recordista dos casos: são 93 desde 2016, o que representa 47,2% do total. O custo de reposição supera R$ 85 milhões, recursos que poderiam estar sendo investidos na melhoria do transporte público, com a renovação da frota. A população é a maior prejudicada com a redução da oferta de transportes. Um ônibus incendiado deixa de transportar cerca de 70 mil passageiros em seis meses, tempo necessário para a reposição de um veículo no sistema. Se somarmos a frota incendiada desde 2016 (197), potencialmente, deixam de ser transportados mais de 13,7 milhões de passageiros nesses veículos. É importante lembrar que a inexistência de seguro para esse tipo de sinistro e a crise econômica do setor, que tem feito as empresas perderem gradativamente a capacidade de investimento em renovação da frota, tornam inviável a reposição de ônibus incendiados”, relata a Fetranspor.

“É importante entender que todos saem perdendo com uma ação de ônibus incendiado. Os passageiros são os mais prejudicados com estes ataques, já que o tempo médio para reposição de um ônibus é de seis meses. E para o setor, é preciso destacar que as seguradoras não cobrem incêndio. Com isso, o patrimônio das empresas fica desprotegido”, explica Guilherme Wilson, gerente de planejamento e controle da Fetranspor

Niterói dispara com números alarmantes
Depois de dois anos sem registrar incêndio a ônibus, Niterói passou a ocupar a segunda colocação na planilha de ônibus incendiados no estado em 2019. Foram cinco casos no ano, ficando atrás apenas da capital, que registrou seis. A cidade já ultrapassou Duque de Caxias e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, que historicamente figuravam no topo desse preocupante levantamento. As ocorrências foram registradas nos bairros de Charitas e São Francisco, na Zona Sul da cidade.
As estatísticas apontam ainda que em média, um ônibus é incendiado a cada seis dias no estado.

“A Fetranspor ressalta a que o resultado imediato desse tipo de ação é o prejuízo causado a toda população, entre moradores, passageiros e rodoviários. Não bastasse o atentado contra a vida, os ataques comprometem o serviço prestado pelas empresas de transporte, seja pela redução da frota disponível para circulação, pela descontinuidade da operação, ou ainda pela insegurança gerada pelos atos criminosos”, ressaltou a entidade.

No recente e dramático incidente do coletivo sequestrado na Ponte Rio-Niterói, na terça-feira (20) com os passageiros sendo mantidos como reféns e ameaça do sequestrador de inceniar o coletivo da Viação Galo Branco, o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Passageiros de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac) reafirmou o fato de já ter enviado mais de 100 ofícios e denúncias, para autoridades públicas entre 2018 e 2019, sem que nenhuma medida tenha sido tomada para ao menos amenizar a vulnerabilidade do sistema de ônibus no estado diante da violência.

“O caso do coletivo da Viação Galo Branco é um entre centenas dos quais estão expostos diariamente rodoviários e passageiros, que incluem assaltos, agressões, sequestros, incêndios e tiroteios”, diz o sindicato.

Para o presidente do Sintronac, Rubens dos Santos Oliveira eventos como o da Ponte, independente de suas motivações, expõem a fragilidade do sistema de transporte coletivo de passageiros, mas também a da própria Segurança Pública, que se limita a reagir diante dos fatos e não a preveni-los.

“Daí, ainda segundo a análise do sindicato, a facilidade com que marginais ou pessoas desequilibradas emocionalmente têm em atingir rodoviários e usuários dos ônibus. Somente nos primeiros meses do ano, nas cidades de São Gonçalo, Niterói, Itaboraí e Maricá, registraram 812 assaltos (uma média de quatro por dia). Ao longo de 2018, esse total foi de 2.043 (cinco por dia aproximadamente), de acordo com dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). O sindicato recomendou a todos os motoristas de ônibus que não circulem em áreas onde haja qualquer tipo de ameaça promovida por marginais. A entidade repudia atos terroristas, como o registrado quando um coletivo do consórcio Transoceânico, da linha 37 (Badu-Centro), foi incendiado em São Francisco (dia 12), e outros que ficaram reféns, na linha de tiro entre policiais e bandidos, nas comunidades da Grota e do Viradouro, na Zona Sul de Niterói”, enumerou Rubens.

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