Niterói e o rádio: Outras histórias entre a caixinha e a Cidade Sorriso

Há três semanas, em 25 de setembro, comemorou-se o Dia do Rádio no Brasil e A Tribuna fez uma reportagem especial sobre essa caixinha tão mágica e encantadora que traz inúmeras e inesquecíveis memórias. Na ocasião falou-se de parte da história que esse veículo tem com a cidade de Niterói, seja por emissoras que marcaram época ou por personagens que também têm relação com o município. Por isso, se faz necessário prosseguir essa abordagem ouvindo outros nomes que ajudaram a testemunhar a história graças a esse meio de comunicação.

Quando se fala de rádio e Niterói, um nome precisa ser falado de forma quase que obrigatória. Trata-se de Rujany Martins. Com 86 anos de vida, o jornalista completou, na última quinta-feira (14), 66 anos de profissão. Isso porque foi nessa data, no ano 1955, que ele assinou seu primeiro contrato profissional na extinta emissora Continental, canal 9 (atual CNT). Quatro anos depois, foi para a Rádio Tupi, onde integrou o “Escrete do Rádio”, ao lado de Oduvaldo Cozzi, e em companhia de João Saldanha, Jorge Curi, entre outros.

Mas não foi apenas no jornalismo esportivo que Martins marcou época. Ele também entrevistou conhecidos nomes da política nacional, como Leonel Brizola, João Goulart e Carlos Lacerda. Além disso, fez a cobertura para a Rádio Tupi da inauguração de Brasília, em abril de 1960.

RUJANY Martins quase foi preso ao noticiar campanha liderada por Leonel Brizola

Em conversa com o jornal A Tribuna, ele conta que uma das experiências mais marcantes foi quando escapou de ser preso por um coronel do Exército em 1961. Rujany explica que logo após a renúncia de Jânio Quadro, em agosto daquele ano, recebeu a visita do militar que atuava como censor. Após se identificar como tal, o coronel explicou que os jornalistas da Tupi deveriam ler uma mensagem que seria de autoria das Forças Armadas. Trabalhando como secretário da redação na ocasião, o jornalista relembrou que soubera através das rádios gaúchas que Brizola convocara a Cadeia a Legalidade. Foi aí que um embate aconteceu e que o niteroiense quase parou atrás das grades.

“O militar se apresentou como censor e disse que só iria para o ar aquilo que ele aprovasse. Eu disse “tudo bem”, digitava a matéria e mostrava para saber se esse coronel autorizava ou não. Só que teve um companheiro da Tupi me alertou que na sala de escuta tinha uns rádios sintonizados em duas emissoras do Rio Grande do Sul, Guaíba e Gaúcha, e ambas estavam informando sobre a formação da Cadeia da Legalidade pelo Leonel Brizola, que era o governador gaúcho da época. E ele garantia o retorno do Jango ao Brasil, pois estava em uma viagem oficial à China, e também afirmava que iria defender a posse dele como presidente. Só que o coronel falou para eu escrever uma mensagem dizendo que o país estava em absoluta calma e que todos apoiavam a Junta Militar. Eu expliquei que ouvi o Brizola falar nas emissoras gaúchas dizendo que o governo estadual iria autorizar a aterrissagem do Jango em Porto Alegre e que teria o apoio do General Machado Lopes, garantindo a posse do Goulart. Discutimos e disse que ele não podia me obrigar a fazer algo que não era a realidade. Daí esse coronel mandou me prender. Imediatamente comuniquei ao Oduvaldo Cozzi, que era o diretor da Tupi, que eu seria preso. Só que o Cozzi era cunhado de um general, que entrou na confusão e acabou mandando prender esse coronel que queria me mandar para a cadeia. Com isso, outro militar tomou o lugar dele e a notícia foi veiculada de acordo com o que realmente acontecia naquele momento”, relembra.

Mágoa com Doalcey Camargo

Além de Oduvaldo Cozzi, Rujany Martins trabalhou com outros nomes do rádio esportivo na Tupi, como João Saldanha, Jorge Curi e Doalcey Bueno de Camargo. Nascido em Itápolis, no interior de São Paulo, Camargo vinha ganhando espaço entre os principais locutores da emissora à época, mas acabou se envolvendo em uma briga nos bastidores com um dos diretores da emissora. Martins tomou as dores do colega e ficou ao lado de Doalcey naquela rusga. O problema é que a corda estourou justamente para Rujany, que saiu em litígio da Tupi, em 1969. Ele reconhece ter ficado com mágoa de Doalcey Camargo nesse episódio.

“Saí da Tupi em 1969 muito desiludido com o rádio. Eu tive uma decepção muito grande após uma forte bate-boca com a direção geral da emissora ao defender o Doalcey Bueno de Camargo. Eu era parceiro dele, que era o chefe de esportes da época. Só que aprontaram uma para ele e eu entrei e comprei essa briga. Isso causou uma incompatibilidade enorme entre mim e a direção. Só que a situação acabou sendo resolvida entre eles, mas não para mim. Daí fiquei magoado e quis sair”, explica.

Depois da saída da Tupi, ele trabalhou para o governo estadual, que tinha como capital Niterói pelo fato de a cidade do Rio ser a capital do então estado da Guanabara. Em meados dos anos 70 ele voltou ao rádio para trabalhar na Federal AM, que era localizada no município niteroiense. Mas em 1977 a emissora se mudou para o Rio e ele preferiu trabalhar em veículos de mídia impressa de Niterói, saindo do rádio em definitivo desde então.

Atualmente, Rujany mora em uma casa localizada na Região Oceânica.

Mãe e filha trabalhando juntas

Outro nome que não se pode deixar de fora é o da radialista Vani Soares Combothanassis, apresentadora do programa “Vani Fala Geral”. O programa fez história na Fluminense AM por mesclar música, informação e entrevista. A atração também era um espaço aberto para artistas iniciantes, grupos musicais, bandas e cantores. Isso sem contar na oportunidade que a comunicadora dava aos moradores mais pobres para fazer as reclamações pela falta de atenção do poder público com os mais carentes.

E a filha da radialista, Cláudia, aprendeu a não só amar a caixinha como também trabalhou nesse veículo. O início foi gravando vinhetas para a Fluminense FM, a Maldita. Depois, trabalhou com a própria mãe. Ela recorda as lembranças mais marcantes da carreira.

“Sou de uma família de comunicação, rádio, jornal e TV, orgulhosa compartilhava a mesa com Rogério Coelho Neto meu padrinho, Victor Combothanassis meu pai, Ziraldo, João Ubaldo Ribeiro, Múcio Bezerra, Mário Dias e Mário Souza pratas da casa em se falar de Niterói, entre outros geniais. Trabalhar com Vani, minha mãe, no seu ‘Vani Fala Geral’ mudou minha forma de ver a vida”, recorda Cláudia, acrescentando que a mãe fazia questão de fazer o programa ao vivo por ter “horror de gravá-lo”

FILHA de Vani Soares, Cláudia Combothanassis trabalhou com a mãe no rádio

Davi Antunes, que também trabalhou com Vani, afirma que o sucesso do programa se deu pelo fato da comunicadora ser “incansável, disciplinada com os compromissos e horários” por todas as rádios por onde passou. Além da Fluminense, Vani também teve passagens pela Bandeirantes AM e Carioca AM.

“Graças a essa persistência e a esse trabalho árduo que ela ganhou credibilidade. Porque todos os anos os ouvintes aguardavam o programa entrar no ar pontualmente às 17 horas com a elegância, a inteligência e o carinho que a Vani tinha com o ouvinte. Sem dúvida era uma das radialistas de maior audiência do estado do Rio de Janeiro por ser um programa que abrangia política, cultura e tinha um pouco de tudo. A abrangência era muito grande, pois abordava capital, Baixada e interior”, explica Antunes.

Tendo iniciado a carreira em Niterói, ao levar o programa ao ar pela primeira vez em 1971, Vani faleceu em 2004 após sofrer um acidente doméstico.

Outros nomes que entraram para a história

Naturalmente que esses são alguns dos incontáveis nomes que têm uma forte ligação tanto com o rádio quanto com Niterói. É impossível não citar ouros que fizeram história, como Ephrem Amora, Paulo Freitas, Mário Dias, Mylena Ciribelli, Coelho Lima, André Freitas, Guilherme de Souza, Serginho Espírito Santo (Serginho Total), entre outros. Além disso, alguns nomes que se encontram no ar atualmente são crias da ‘Cidade Sorriso’, como Bianca Santos e Bruno Cantarelli. E que, muito em breve, ilustrarão outras reportagens de A TRIBUNA sobre a relação entre Niterói e o Rádio.

Infelizmente a reportagem não conseguiu citar todos os niteroienses que contribuíram de alguma forma com o veículo. Mas uma coisa é certa. Os nascidos em Niterói que atuaram na caixinha, com certeza fizeram isso com amor, fazendo do microfone um sacerdócio. Afinal, como foi dito na primeira reportagem, Waldyr Amaral dizia que o ouvinte é a meta do radialista. Então certamente esses niteroienses fizeram o melhor não apenas para quem é apaixonado pelo veículo, mas principalmente para o próprio rádio.

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