Niterói e o rádio: a relação de amor intenso entre a ‘caixinha’ e a Cidade Sorriso

“Você ouvinte é a nossa meta. É pensando em você que nós fazemos o melhor!”. Essa é a frase que o locutor esportivo Waldyr Amaral sempre usava nas transmissões esportivas dos anos 70 e 80 pela Rádio Globo, quando dividia as transmissões ao lado do colega Jorge Cury. E passados décadas, o rádio continua sendo um veículo diferenciado e que conquista diferentes gerações ao longo do tempo.

O Brasil destinou o dia 25 de setembro com o Dia do Rádio, que em 2021 cai em um sábado. Além disso, na última terça-feira (21) também foi comemorado o Dia do Radialista. E se há uma cidade onde a “caixinha” tem história é em Niterói. Seja revelando radialistas ou até mesmo em relação a emissoras.

É impossível não citar a extinta Rádio Fluminense 94,9 FM, a Maldita. Conhecida como “rádio de elevador” até 1981, Luiz Antonio Mello resolveu apostar em um projeto que acreditava revolucionar o veículo. E descobriu que ajudou a revolucionar também o próprio rock nacional. Passando por um período experimental no segundo semestre de 81, a emissora foi ao ar de fato exatamente em 1º de março de 1982, às 6h, com Selma Boiron sendo a primeira voz a falar no “microfone maldito”.

Selma conta que quando soube que seria a primeira voz da história da Maldita, não conseguiu dormir a noite com medo de perder a hora. A locutora conta que por muito pouco não conseguiu cumprir com a responsabilidade por causa de um fator inusitado.

Da esquerda para a direita, Selma Boiron, Edna Mayo, Liliane Yusim, Cristina, Selma Vieira, e Monika Venerabile -Foto: Reprodução.

“Mesmo morando em Niterói e num horário de ruas vazias, era um risco abrir a rádio pontualmente às 6h. E era a maior ‘responsa’, eu tinha a chave do estúdio que ficava trancado entre duas da manhã e a minha chegada. Claro que aconteceu de tudo nesse rolê, né? Já esqueci a chave em casa, um dia e não dava tempo de voltar. Com a ajuda do operador da emissora AM (na época, no mesmo corredor), derrubamos a pesada porta do estúdio no ombro! Depois, ouvi muito da chefia e da administração do prédio (risos). Mas, voltando ao dia da estreia, cheguei lá tipo 5:30h e estavam os produtores Sergio Vasconcelos e Amaury Santos – o responsável pelos testes de voz – e o coordenador da rádio, Luiz Antonio Mello. Os três, tal como eu, insones. Botei o discurso de inauguração no ar às 5h59 e, depois, mandei lá as três famosas frases: ‘Bom dia. Seis horas. The Who’. Ali, nascia uma emissora e uma locutora’, relembra.

Mas se muitos diretores atuais considerariam ousada a atitude de Selma em derrubar, literalmente, a porta do estúdio, esse era o tipo de coisa que Mello gostava. E o responsável pela Fluminense FM é categórico em afirmar que falta ousadia para as emissoras de rádio do momento em buscar algo novo.

“Eu acho que a Fluminense FM mostrou que nos meios de comunicação a ousadia é fundamental. Antes de fazer a rádio vimos que havia cerca de 10% de ouvintes jovens ‘flutuantes’, zapeando, sem uma rádio fixa. Nós pusemos esse percentual na alça de mira e, em questão de meses, estávamos com um número bem maior porque nós, brasileiros. gostamos do novo. No final dos anos 1980 a MTV norte americana fez uma pesquisa mundial para saber que país era mais curioso em relação a música. O Brasil ficou em segundo, perdendo só para a Austrália. A Fluminense FM mostrou que o público jovem quer respeito, quer consideração e, quer ‘o novo’. A questão é que a Fluminense FM tinha digitais muito fortes graças a uma equipe extraordinária que não tinha medo de ousar, de inventar. A maioria nunca tinha trabalhado em rádio. A rádio adquiriu uma personalidade única que não dá para copiar” afirmou LAM, como também é conhecido.

Se o papo é rádio, Fluminense FM e Niterói, não se pode deixar de falar em outro nome que até hoje os ouvintes lembram: Monika Venerábile, a Monikinha. Citando o filme de Cacá Diegues, “Aumenta que é Rock’n Roll” (baseado no livro escrito por Mello, “A Onda Maldita”), ela relembra que logo no início do longa é contada a história da demissão dela na emissora, antes do projeto da Maldita. E afirma que a cena está plenamente de acordo com o que ocorreu à época.

“Logo no começo do filme aparece uma cena onde a personagem que me interpreta é demitida. Aí surge um diretor, que estava com o projeto da Maldita debaixo do braço, perguntando ‘Quem é aquela garota revoltada na calçada?’ a um superintendente, que afirma ser o responsável pela demissão dela. E aí o personagem que faz o Samuel Weiner perguntou ‘Por que ela foi demitida?’. Esse mesmo superintendente afirmou que foi por insubordinação, só que ouviu desse diretor: ‘Pois é de gente assim que precisamos para o projeto que vamos montar’. Essa cena descreve com perfeição o que aconteceu na época. Eu tinha 17 anos na ocasião e prontamente me chamaram para um teste de inglês. Como estudei na Cultura Inglesa, passei na hora e só vi o Luiz Antonio com aquele olho arregalado e o Samuel Weiner apaixonado por mim. E assim nasceu a locutora Monikinha”, recorda.

Microfone aberto e reclamação sobre o dono

Uma das situações mais curiosas que Luiz Antonio conta foi quando precisou ir depressa à rádio para resolver um problema na mesa de áudio, que estava vazando o som do microfone no ar, mesmo que as locutoras fizessem o procedimento correto para o áudio não sair. O diretor entrou na sala e falou do problema, Monikinha ficou assustada, pois não imaginava que tudo o que dizia era ouvido pelos ouvintes.

A locutora diz que “há controversias” sobre isso, mas admite que “pode ter sido” ela por causa do seu “jeitinho de ser”. Já Luiz Antonio dá risadas e reconhece que era “neuroticamente exigente”, dando razão, de maneira indireta, às queixas que ouviu.

LACOMBE, Amaury Santos e Luiz Antonio Mello

“Confesso que cheguei a ser neuroticamente exigente e uma vez o saudoso amigo Alex Mariano Franco, que nunca tinha trabalhado em rádio e foi convidado por mim para ser produtor, me xingou de Bokassa, uma referência a Jean Bédel Bokassa, ditador e genocida africano. Ouvi alguém falar em Luiz Antonio “Mula”, por causa dos coices (risos)”, relembra Mello, que ressalta também ter encontrado “a maior camaradagem” na Fluminense FM.

De Chacrinha aos dias atuais

Considerado um dos maiores comunicadores do Brasil, seja em rádio ou televisão, Abelardo Barbosa foi batizado de Chacrinha justamente por causa de Niterói. Ao fazer o seu programa de rádio em uma casa de Icaraí, inventava convidados da alta sociedade niteroiense dos anos 50 e dizia que todos compareciam ao Cassino Icarahy, próximo de onde ele fazia a atração.

O problema é que os ouvintes pensavam que tudo o que Abelardo dizia ao vivo era real e certa vez um casal entrou no estúdio para conhecer o tal cassino e encontrou o locutor de cuecas, no meio do programa.

Foi nesse contexto que o apresentador foi batizado de Chacrinha. Por causa do programa, apresentado pela Rádio Clube de Niterói, muitos começavam a falar sobre o cassino que existia em uma pequena chácara, ou “chacrinha”. Daí, graças à fama conquistada, não só o comunicador conquistou um novo nome como até o fim da vida tornou-se o apresentador do Cassino do Chacrinha.

E se na época de Abelardo o próprio foi considerado uma revolução no rádio niteroiense, hoje a internet permite que não só moradores de Niterói como de São Gonçalo decidam fazer algo diferente. E é nesse contexto que há a web rádio Esporte Metropolitano, criada em 2015 por Eduardo Silva.

Morador de São Gonçalo, ele explica que resolver criar a emissora quando surgiu o anúncio de que o município teria um estádio com capacidade para mais de 60 mil pessoas, o Catarinão, também chamado de “Cata-Vento” pelo formato pensado inicialmente. O projeto era do time do Gonçalense.

“Quando eu vi sobre a ideia do que seria o ‘Catarinão’, comentei com meu irmão e entramos em um clube de WhatsApp de torcedor. Daí sugeri, inicialmente, fazer uma torcida organizada. Mas ao descobrir que já existia uma, comecei a acompanhar os jogos de dentro desse grupo até descobrir que não tinha uma equipe que transmitia os jogos. E ao ver o que a assessoria de imprensa do clube fazia no Facebook uma espécie de tempo real, comecei a ir nos estádios e fazer crônicas na internet. Daí surgiu a rádio, que, de princípio, era Rádio CTG, de ‘Crônicas de um Torcedor Gonçalense’. Só que o projeto deu tão certo que mudei para o nome atual, Esporte Metropolitano, no fim de 2015”, explica Eduardo.

Atualmente, o site da emissora na web já conta com mais de 5 milhões de acessos ao todo. E outra iniciativa foi feita no início deste ano pelo próprio Luiz Antonio Mello, a Rádio LAM. Afirmando ser uma rádio autoral por fazer tudo sozinho, “inclusive 24 horas de locução”, a emissora conta com mais de 300 programações e uma programação musical com mais de 1.500. E essa é a grande aposta dele para conquistar uma audiência mais diferenciada.

“Não adianta fazer playlists porque elas já existem as toneladas nos spotify e deezers da vida. O ouvinte quer informação, de preferência de bastidores, meio exclusivas. O radiojornalismo continua muito forte porque a fala, a voz, o chamado ‘rádio companheiro’ sempre irá imperar. Eu mesmo quando ouço FM é só Bandnews, notícias, comentários, colunas. E sei que não estou sozinho. Se alguém quer fazer radio na web dê prioridade à informação”, explica.

Monikinha e Selma vão na mesma direção apontada por Mello. Monikinha é direta ao falar que falta Niterói ter uma emissora que seja a cara da cidade. Ela também lamenta a quantidade de niteroienses que estão fora do dial no momento.

“Niterói tem Lia Easter, Selma Boiron, Luiz Antonio Mello e outros grandes radialistas aqui. Aliás, nossa cidade tem muita gente também da música. Nas minhas andanças pelo Brasil vi o quanto faz uma falta de uma emissora ter um conteúdo cada vez mais local. O rádio precisa falar com a sua gente. Niterói deveria ter uma com um jornalismo dinâmico, feito pelo nosso povo e para o morador niteroiense”, enfatiza.

Selma também fala que a ousadia deve ser um caminho, com pluralidade e, principalmente, sem se preocupar em querer chamar a atenção. Mas que faça a diferença pela espontaneidade.

“O que se pode reproduzir daquela experiência da Maldita, acho, é ter a opção pelo não hegemônico, é ser plural, é ter ousadia, ser diferente por princípio. E, sem entrar nessa de querer fazer história. Isso acontece quando não se planeja, só se entende depois, quando se olha no retrovisor da vida. Fazer rádio por paixão, mas com investimento e atitude pra arriscar. Acho que seria um bom começo”, opina Selma Boiron.

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