Nem D. Pedro II conseguiu acabar com as inundações em Petrópolis

As consequências das chuvas de verão em Petrópolis – parece que todo mundo sabe – não são culpa da natureza. São muitas décadas de ocupação irregular de matas e morros, além de rios assoreados, tomados de lixo e sob o manto do criminoso populismo eleitoreiro. Um mau exemplo que foi seguido por Teresópolis e Nova Friburgo, em pior escala. Basta ir ao Google e digitar ocupação irregular das serras fluminenses. As imagens são chocantes.

As temperaturas amenas transformaram as três cidades fluminenses em polos turísticos e poderiam ter crescido de maneira sensata, sustentável, responsável, mas a ganância optou pelo inchaço urbano. Petrópolis, Teresópolis e Friburgo cresceram de qualquer maneira e o que a natureza faz é levar a conta todo os anos.

As três cidades foram protagonistas de um dos momentos mais tristes da história do Brasil. Em 11 de janeiro de 2011 houve a maior tragédia climática de todos os tempos quando por causa das chuvas torrenciais de verão morreram quase mil pessoas Região Serrana, número que pode ter sido muito maior. Os dados oficiais das prefeituras: Teresópolis, 382 mortos; Nova Friburgo, 428; Petrópolis, 72 corpos. Também houve 22 mortes em Sumidouro, seis em São José do Vale do Rio Preto e um em Bom Jardim.

Será que os governos aprenderam a lição? Ou já esqueceram?

Apesar de ter notado que algo de errado havia com as inundações em Petrópolis, nem o imperador Pedro II teve forças, ou competência, para resolver o problema. Para fugir do calor, ele chegava a passar cinco meses por ano na serra e anotou em seu diário de viagem, em 5 de janeiro de 1862:

“Ontem de noite houve grande enchente. Subiu três palmos acima da parte da Rua do Imperador do lado da Renânia; acordou o Câmara (sic), e um homem caiu no canal, devendo a vida a saber nadar e aos socorros que lhe prestaram. Conversei hoje com o engenheiro do distrito; pouco se fez do ano passado para cá. Os estragos que fez a enchente levaram dois meses a reparar, segundo me disse o engenheiro. (…)

Será que as autoridades ouviram o imperador? Ignoraram? Enrolaram? Ou já naquele tempo havia quem vendesse ou trocasse títulos de terra e deram um jeito de sabotar o imperador negociando abismos?

Intelectual ligado a ciência, Pedro II trocava cartas com Louis Pasteur, Graham Bell e Alexandre Herculano. Ele próprio introduziu no Brasil a meteorologia e o primeiro sistema de monitoramento de chuvas e registrava em seu diário temperaturas e precipitações, utilizando tecnologia que buscava no exterior com cientistas.

Mais: ele já defendia o reflorestamento como medida preventiva em sua intensa troca de ideias com representantes das ciências. O diário de viagem do imperador está disponível na internet. Basta acessar o site do Museu Imperial ou clicar neste link https://bit.ly/36II0kM .

Monarquia, república, democracia, ditaduras nada conseguiu vencer a ganância e o populismo político que transformaram rios, morros, baías em deformações urbanas, sejam de mansões, sejam de barracos. Dados do censo de 2010 mostram que, em Petrópolis, desde o ano 2000 houve um crescimento de quase 3.000% na população de favelas*. De agosto a outubro deste ano haverá um novo censo e, espera-se, teremos informações atualizadas.

Ainda de acordo com o IBGE, também em 2010 – em Teresópolis existem 23 localidades classificadas como “aglomerados subnormais”, onde cerca de 41.809 pessoas residem, o que representa a taxa de 25,6% do total da população, tornando o segundo município fluminense mais favelizado*, sendo superado apenas por Angra dos Reis (35,5%).

A grande pergunta é: ainda há solução?

*O jornalista André Fernandes escreveu no site da Agência de Notícias das Favelas, : https://www.anf.org.br/favelas-ou-comunidades/

(…) Tenho observado há muito tempo que a elite e a grande mídia tentam chamar as favelas de comunidades e isso me traz uma grande indignação, pois do meu ponto de vista, isso nada mais é que uma tentativa de descaracterizar a favela e amenizar a situação de pobreza extrema que vive nossa cidade.

Lembro sempre, para os que estão chamando as favelas de comunidades, que os condomínios de luxo, que essas pessoas que estão tentando descaracterizar essa nomenclatura moram, são comunidades. Sim! Os condomínios de luxo ou prédios na Barra, Leblon e Ipanema, constituem comunidades, porém não são favelas. Favela é favela e comunidade é comunidade! Favela é favela e caso aconteça de um dia deixar de ser favela, como querem alguns, não será porque os governantes são bonzinhos, mas porque houve muita cobrança por parte de vários líderes, que deram suas vidas para que hoje elas tivessem as melhorias que estão recebendo. (…)

Contato desta coluna: luizantoniomello@protonmail.com

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