Negro e pardo continuam sendo alvo do desemprego, afirma pesquisa

Geovanne Mendes –

Precisou da divulgação, na última sexta-feira (17), da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) para alertar a um detalhe que todos os brasileiros já estão cansados de saber. A população descendente da raça negra, que carrega na cor da pele o DNA de um país, foi oficialmente quantificada em números, quando o assunto é desemprego. De a cordo com a pesquisa PNAD Contínua entre os 13 milhões de desocupados no país no terceiro trimestre, 63,7% eram pretos ou pardos. Para ser mais exata a pesquisa informou que esse quantitativo equivale a 8,3 milhões de pretos ou pardos sem ocupação. A taxa de desempregados dessa parcela da população chegou a 14,6%, já os trabalhadores brancos desempregados somam 9,9%.

O entregador Paulo Roberto da Silva Santos, de 56 anos, sabe bem o quanto a cor da pele pode significar na hora de conseguir um emprego ou até mesmo crescer dentro da empresa. Trabalhando há cerca de 20 anos na mesma função, ele disse que já viu outros colegas brancos terem diversas oportunidades de crescimento. Além disso, o desemprego, segundo ele, é uma espécie de doença que atinge em cheio quem nasceu com traços afros. A cor da pele e suas tonalidades continuam até hoje dificultando o ingresso ao mercado de trabalho.

“Isso sempre existiu, nós negros, pardos, mulatos, não importa, todos sofrem com o desemprego e a falta de oportunidades de crescimento. Meus sobrinhos estão lá em casa, desempregados, estudam e não conseguem uma oportunidade e agora a desculpa é a crise financeira”, comenta o entregador.

Orgulhosa das origens, a professora de inglês Carolina de Almeida Farias, de 33 anos, é um bom exemplo a seguir. Segundo ela, que também faz faculdade de letras, a educação serviu de blindagem para qualquer tipo de preconceito racial e também abriu portas à marretadas, graças a sua qualidade profissional.

“Fácil nunca é, na verdade precisamos provar a nossa competencia 24 horas por dia. Eu tive a sorte de conseguir na minha cidade uma bolsa de inglês quando era mais nova e não parei de me qualificar e assim galgo uma história de sucesso. Porém basta olhar para os lados e ver irmãos, primos e amigos da raça negra desempregados. Sim, a cor da pele é parte do currículo para muita gente”, comenta a professora.
Reconhecimento da própria história. Esse é o conselho dado pelo ativista da causa negra Jorge Zulu, de 62 anos. Segundo ele, que faz parte do Movimento Negro Unificado (MNU), o negro precisa se enxergar, se conhecer, para só assim conseguir enfrentar os desafios do futuro.
“Os nossos criadores das leis, eleitos para cuidar do país, não se preocupam com a maior parte da população brasileira, formada por descendentes de escravos. Então temos os brancos no poder, criando leis, temos em todo o país veículos de comunicação de propriedade de famílias brancas, ricas, que criam um padrão em cima do que elas vêem como bonito, como padrão. O negro precisa buscar a educação e se blindar, mas também precisa bater de frente e gritar, quando necessário, que existe e que a sua cor e o seu passado precisam ser respeitados. O Dia da Consciência Negra é comemorado em 20 de novembro em todo o país. A data homenageia o Zumbi, um escravo que foi líder do Quilombo dos Palmares. Zumbi morreu em 20 de novembro de 1695.O objetivo do Dia da Consciência Negra é fazer justamente essa reflexão sobre a importância do povo e da cultura africana, assim como o impacto que tiveram no desenvolvimento da identidade da cultura brasileira.”, concluiu Zulu.
Comportamento semelhante foi registrado na taxa de subutilização, indicador que agrega a taxa de desocupação, de subocupação por insuficiência de horas (menos de 40 horas semanais) e a força de trabalho potencial.
Para o total de trabalhadores brasileiros, o índice fechou o terceiro trimestre em 23,9%. Entre a população de pretos ou pardos, a taxa saltou para 28,3%, enquanto que entre os brancos ela ficou em 18,5%. Do total de 26,8 milhões de subutilizados, 65,8%, eram pessoas pretas ou pardas.

Trabalhadores ocupados e carteira assinada
No terceiro trimestre de 2017, as pessoas pretas ou pardas representavam 54,9% do total da população brasileira de 14 anos ou mais e eram 53% dos trabalhadores ocupados. No recorte racial, 52,3% dos pretos ou pardos estavam ocupados, enquanto 56,5% dos brancos se encontravam na mesma situação. O rendimento dos trabalhadores brancos foi de R$2.757 no período e o de trabalhadores pretos e pardos, de R$1.531.
Em relação ao percentual de empregados do setor privado com carteira assinada, no fechamento do terceiro trimestre do ano o dado de pretos ou pardos chegava a 71,3%, mais baixo do que o observado para o total do setor (75,3%). Dos 23,2 milhões de empregados pretos ou pardos do setor privado, somente 16,6 milhões tinham carteira de trabalho assinada.

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