Nara Leão foi a essência da fase mais feliz do Brasil

Luiz Antonio Mello

Nara Leão trazia na voz a felicidade do Brasil em seu momento mais mágico. Nara foi muito mais do que a musa da bossa nova. As canções que cantou encantou para o mundo estavam envoltas em alma salobra,
aroma de mar, encharcadas de maresia de Copacabana onde ela, uma garota de 16 anos, a partir de 1957 recebeu os gigantes da bossa no apartamento em que vivia com os pais no edifício Champ-Elysées, em frente ao posto 4 da Avenida Atlântica.

A gente já suspeitava, mas Joaquim Ferreira dos Santos, colega de longa data, cronista que melhor inspira e transpira o
Rio hoje, comprovou que o ano em que o Brasil foi mais feliz foi 1958. Ao longo de leves, despretensiosas, inebriantes 192 páginas, ele mostrou no livro “Feliz 1958 o Ano Que Não Devia Terminar”, de 1998, a importância daquele Brasil, daquela gente do Brasil, daquela malemolência do Brasil, daquela leveza extrema do Brasil.

Eu tinha 3 anos em 1958 quando Nara Leão, com seu jeito quase introvertido, comandava sem saber que estava comandando um movimento que engoliu o país, inundado por uma overdose de felicidade representada pela Bossa nova, sol, céu, sul, ou como escreveu Joaquim “Adalgisa Colombo sagrou-se Miss Brasil revolucionando os concursos de beleza com uma ousadia que antecipava as mulheres dos anos Nas ruas do Rio, além das novidades da indústria automobilística nacional, o charme de uma cidade que vivia os últimos dias de capital federal. Carmen Mayrink
Veiga lembra os jantares à luz de velas no Country Club, os comentários dos colunistas sociais e a geladeira de estolas de vison na Casa Canadá, na Rio Branco..(…).

Querem coisa mais Nara Leão do que o Brasil de 1958, quando ela surfava o auge de seus 16 anos? Querem coisa mais Nara leão do que Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra, João Gilberto, Vinicius de Moraes tocando e cantando bossa nova, bebendo uísque espalhados pelos sofás e pelo chão da sala do apartamento
dela, numa cena completamente verão sem fim? Querem coisa mais Nara Leão do que Joaquim Ferreira dos Santos sorvendo “Nara é que era mulher de verdade” em sua crônica no Globo, segunda-feira?

“O general não sabia com quem estava falando e achou que Nara Leão era mais uma Amélia dessas da música popular, que se calava quando via um macho contrariado. Foi aí que o milico de 1964 ameaçou a cantora de prisão se continuasse com aquela
história de protesto, de carcará e de não mudar de opinião. Nara era a pobre menina rica do musical. Morava de frente para o mar de Copacabana, o que não a impedia de denunciar a miséria do povo e a opressão dos poderosos. (…)

Nara morreu de câncer aos 47 anos, em 1989, e está sentada à mão direita de Leila Diniz e Nise da Silveira, ao lado esquerdo de Zuzu Angel e a escrava Anastácia. Avançou, sem discurso e com muito charme, as lutas da mulher. Enfrentou o general, a gravadora e a caretice de quem lhe parecesse assim. Em 1959, quando o padreco proibiu Norma Bengel, a vedete de voz pequena e coxas monumentais, de cantar num show de bossa nova na PUC, Nara rezou pela primeira vez a oração do “mexeu-com-uma mexeu-com todas” – e em protesto levou o show para a UFRJ (…)”

Danilo Casaletti contou no Estadão que “a letra criada por Ronaldo Bôscoli para O Barquinho fala em uma “calma de verão”. Entretanto, a música nasceu de uma situação de quase pânico – a história já é conhecida entre os amantes da bossa nova.

Menescal, um craque também na pesca submarina, levou a namorada Yara (hoje, sua mulher), Bôscoli e a namorada, a jovem Nara Leão, além dos músicos do Tamba Trio para uma tarde em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Na volta, o motor do barco encrencou. Menescal e o barqueiro tentavam fazê-lo pegar. “Tacataca-taca-tá. Eram tudo o que ouviam do morto à gasolina que insistia em não funcionar. Quando o sol estava se pondo, o
socorro chegou. Uma traineira puxou a embarcação. Aliviados, improvisaram “o barquinho vai, a tardinha cai”.

No dia seguinte, no apartamento de Nara Leão, lembrando do barulho do motor sendo tracionado e daquele único
verso, Bôscoli queria saber de Menescal “o negócio do motor, aquele suingue legal”. “Era o barulho do motor que fazia
o Taca-taca-taca-tá e ia morrendo, caindo. Ele achou que dava uma música. E deu”, conta Menescal.”

Foi na metade dos anos 1980, num almoço no Tarantella, que fica num país vizinho ao Rio chamado Barra da Tijuca que quebrei o gelo e pedi para Menescal contar a história do “Barquinho”. Ele contou.
Meses depois, em Niterói, jantando comigo, meus pais, meu irmão, pedi mais uma vez e ele contou para o meu pai. Como não ser bossanovista? Naquela mesma época no Teatro Adolpho Bloch, da TV Manchete, Menescal me apresentou a Nara Leão que gravou um especial produzido por mim e Zeca Mocarzel e dirigido por Paulo Berrini. Minha alma cantou “sou do Rio de Janeiro” enquanto cumprimentava aquela mulher impressionante, linda, forte, que parecia ter três metros de altura que, com um leve sorriso, disse “muito prazer”. Foram as únicas palavras que ouvi
dela, a vida toda. Em seguida foram para o palco, Menescal ao violão, Nara sentada num banquinho, cenários clean, cinco câmeras posicionadas e a bossa nova inundou a Glória durante uma hora e quarenta minutos. Que jamais esquecerei.

E o barquinho foi.

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