Na falta de agentes de trânsito, voluntários auxiliam motoristas

Camilla Galeano

O motorista que precisa passar pela RJ-104, na altura do bairro Coelho, todos os dias, já sabe que o trânsito não é nada fácil. Há nove anos, um morador se juntou com os amigos na Rua Tiago Cardoso para encontrar uma solução e amenizar a confusão no trânsito local. Uma passagem usada por quem quer cruzar a pista até o bairro Jardim Alcântara é controlada pelos Voluntários do Asfalto, que organizam o trânsito em mão e contramão onde só há espaço para um veículo, embaixo de um viaduto e ao lado de um valão.

“Sentimos a necessidade de fazer isso porque é um escape para quem fica preso nesse trânsito do Alcântara. O espaço era fechado e quando a Prefeitura abriu ficou tudo abandonado. Muita gente não gostava de passar por aqui porque o lugar é escuro à noite. Então nós organizamos todo o trânsito e ficamos aqui tomando conta”, contou Rafael, de 22 anos, um dos organizadores do sistema.

Ele também explicou como funciona o esquema de trabalho. Não há salário fixo, mas tudo é organizado em escala e o dinheiro recebido é dividido entre eles.

“Aqui a gente trabalha de domingo a domingo. Cada um tem o seu dia. A gente não cobra nada de ninguém para fazer isso. Surgiu essa oportunidade de ajudar a população e como estamos desempregados, resolvemos tentar. O que acontece é que, como organizamos os carros desafogando o trânsito, algumas pessoas passam por aqui e dão um trocado pra gente. Mas ninguém é obrigado a pagar, eles fazem mais para nos ajudar mesmo. Com esse dinheiro a gente tira um pouco pra dividir entre a gente e o resto usamos para manter o local. A gente asfalta, pinta, capina”, disse.


De acordo com Rafael, eles nunca sofreram nenhum tipo de retaliação. Pelo contrário, até mesmo a Prefeitura de São Gonçalo colabora com o serviço.

“Às vezes a Prefeitura aparece aqui, ajuda a gente, dá um cimento para mantermos o local em bom estado para os carros e motos passarem”, contou.

Motoristas que estão acostumados a passar pelo local reconhecem que o trabalho dos meninos é essencial para manter a ordem no trecho.

“Quem vem da RJ-104 ou da rua de baixo, não consegue enxergar do outro lado. Às vezes a gente dá de cara com um carro no meio do caminho, um dos dois tem que dar ré porque não tem como passar. Eles ai fazem esse trabalho pela gente. Organizam quem vai e quem espera. Isso adianta muito a gente”, conta o padeiro Pedro Júlio de Alvarenga, de 59 anos, que passa quase todos os dias pelo local.

Todo tipo de ajuda é bem vinda. Juarez Antonio Figueiredo, proprietário de uma oficina mecânica próximo do local onde os meninos ficam, colabora com lanche e material de trabalho pra eles.

“Estão fazendo um trabalho honesto. Tem que aprender desde cedo a trabalhar duro. Sempre falo para eles. Eles ficam ai no sol, na chuva. Estão sempre se revezando para ajudar pessoas que eles nem conhecem. Não é obrigação deles fazer isso aqui. Mas é um trabalho honesto. Por isso ajudo no que eu puder. De manhã e a tarde a gente compra lanche aqui na loja, sempre compro a mais para eles”, conta.

Mesmo não recebendo um salário fixo, os meninos se viram como podem e sonham com um futuro melhor.

“Aqui a gente não ganha nem um salário pra dividir entre a gente, quem dirá um salário cada um. Mas o pouquinho que recebemos a gente junta, né? Uma hora dá pra fazer alguma coisa. Meu sonho mesmo? Eu queria trabalhar em uma empresa importante, sabe? Quero fazer faculdade de administração. Acho que vou conseguir”, contou Guilherme dos Anjos, de 23 anos.

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