Música e Cinema para internados no Hospital Estadual João Batista Cáffaro

Música para os ouvidos, cinema para a alma, a arte para o coração e o despertar. Foi acreditando nessa premissa que o médico intensivista Felipe Mafort Rohen, de 38 anos, começou a fazer a diferença no Hospital Estadual João Batista Cáffaro, em Itaboraí, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Coordenador de clínica médica da unidade, ele utiliza a musicoterapia para acordar pacientes da extubação. O médico defende uma prática em que cuidar é mais importante do que curar.

Ao acolher pacientes com a vida abreviada por um mal que permanece por um longo período, a unidade – de retaguarda do Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo – conta com uma equipe multidisciplinar que prioriza a maior qualidade de vida possível para cada paciente – e não o prolongamento dela a qualquer preço.

Felipe explica que é um trabalho feito a partir de múltiplas habilidades que vão além da técnica. “Essa é a maior curva de aprendizagem que tive em toda a minha carreira”. O tratamento – conhecido como cuidados paliativos – oferece música – com trilha sonora individualizada – para aqueles que estão na Unidade de Tratamento Intensivo. Isso proporciona ao paciente, de acordo com o médico, mais esperança e menos sofrimento.

“Dar qualidade de vida ao paciente em estágio terminal estabelece o limite terapêutico e o cuidado paliativo. É uma tomada de decisão a partir de um alinhamento com toda a equipe envolvida”, relata.

Para Felipe, o maior ganho disso tudo é poder lidar com os familiares de cada paciente, explicando de forma mais humana o diagnóstico e como ele deve ser tratado. “Aqui, o diálogo é fundamental até para desconstruir o sentimento de cada um ao saber lidar com a morte que é inexorável”.

O principal objetivo, segundo o médico, é aliviar o sofrimento e também prevenir esse sofrimento ao longo de todo trajeto da doença, desde o diagnóstico até a morte do paciente, inclusive abrangendo o suporte ao luto aos familiares e amigos da pessoa que faleceu. “Comecei a trabalhar como plantonista do Centro de Terapia Intensivo (CTI) do Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), em São Gonçalo, em 2012. Lá, o profissional de saúde precisa ser mais resolutivo; ao contrário desta unidade, onde estou desde 2015. Aqui, meu grande desafio é o paciente não sentir dor”, esclarece.

Felipe acrescenta que a dedicação e amor ao trabalho fazem parte da rotina de toda a equipe da unidade – que inclui os médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, maqueiros e pessoal administrativo. Com relação à música para os pacientes, a equipe entra em contato com a família para saber das preferências e faz a seleção para uma playlist individualizada. “Um trabalho monitorado de acordo com as necessidades, primordialmente, do paciente e do acolhimento à sua família”, explica o médico.

CINE CÁFFARO

Desde o início de outubro deste ano, a unidade ganhou um novo espaço – o Cine Cáfarro. Toda semana é exibida sessão exclusiva aos pacientes das enfermarias com pipoca (de milho e de sagu- para aqueles que podem se engasgar). Ao lado da gerente assistencial da unidade, Renata Kasakewitch, o médico acredita que esse é um trabalho que faz a diferença. Em conjunto, a dupla estabelece estratégias de atuação como, por exemplo, a exibição de filmes nacionais para pacientes internados na enfermaria.

A aposentada Nilza Lopes Alves, de 71 anos, internada após um infarto, acredita que o cinema quebra um pouco a rotina de ficar dias dentro de um hospital. “Há quase 30 anos não ia a uma sessão de cinema”. 

Acompanhada da filha Luana, a aposentada Arilda Monteiro Costa, de 73 anos, também elogiou o projeto. “É muita gentileza do hospital de nos oferecer uma sessão de cinema. Me pegaram na cama, colocaram na cadeira e me trouxeram para um momento de muita diversão e risos. Fiquei muito surpresa quando me chamaram para assistir a um filme”, declarou a paciente que aguarda uma cirurgia cardíaca. 

O Hospital Estadual João Batista Cáffaro faz parte do Complexo de Saúde administrado pelo Instituto Lagos Rio, que inclui ainda o Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo, e as UPAS do Colubandê e Santa Luzia, também na cidade vizinha. A unidade é um hospital de retaguarda e conta com 116 leitos. De acordo com a gerente assistencial Renata Gonçalves, a resposta por parte do pacientes foi tão positiva que a equipe optou por fazer as exibições semanalmente.

“A equipe tira o paciente do leito para um momento de lazer. Ele esquece um pouco do problema de saúde pelo qual está passando — afirmou a gerente, que garantiu que os pacientes vão para a sala de exibição de cadeira de rodas, muletas e até no leito, após a autorização da equipe médica”, completa. 

Para o diretor desse Complexo Hospitalar, João Carlos Arieira, “isso faz parte do nosso processo de atendimento humanizado, que busca contribuir com o tratamento de uma maneira diferente e inovadora”. 

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