Movimentos feministas e LGBTQIA+ apoiam vereadora em ato na Câmara de Niterói

Movimentos sociais feministas e LGBTQIA+ se uniram na quinta-feira (8), em frente à Câmara de Vereadores, no Centro de Niterói, em um ato de solidariedade aos ataques homofóbicos sofridos pela vereadora Veronica Lima por parte do colega parlamentar Paulo Eduardo Gomes. O ato aconteceu nas escadarias da Casa um dia depois da discussão na qual o vereador do Psol agrediu verbalmente a integrante do PT.

Cerca de 80 pessoas estiveram reunidas na porta da Câmara para apoiar Veronica, que estava presente e reforçar a luta contra o preconceito. A parlamentar explicou como aconteceu a confusão. Ela afirmou que durante a reunião dos vereadores no Colégio de Líderes, Paulo Eduardo, segundo Verônica, queria que o colegiado discutisse um projeto de lei voltado para quem tem autismo de autoria dele. A questão, de acordo com a vereadora, é que ela também propôs uma iniciativa semelhante e que, na fala da petista, estava há mais tempo para ser discutida. Mas o vereador psolista estaria querendo passar à frente dela no debate sobre o tema. A partir disso, a discussão começou.

“Estávamos discutindo um projeto de lei da minha autoria que está tramitando há três anos nesta casa e é voltado para pessoas que têm o espectro autista. Ele (Paulo Eduardo) estava com meu PL há dois anos e meio, sendo que ele tinha parecer favorável das comissões de Constituição e Justiça e da Defesa de Pessoa com Deficiência. Só que ele estava com uma proposta igual à minha e queria votar o dele primeiro. Eu disse: ‘não’. Daí ele começou a ficar transtornado. Eu pedi calma, mas ele continuou gritando. Falei para ele falar baixo quatro vezes. Na quinta, falei no mesmo tom. Daí, ele levantou da cadeira, veio em minha direção e gritou: ‘Você quer ser homem? Então eu vou te tratar como homem’”, afirmou Verônica.

A vereadora ainda acrescentou que o vereador “projetou o corpo” em direção à ela. Na sequência, segundo a petista, Paulo Eduardo foi contido pelo vereador Milton Cal, presidente da Casa. Mesmo assim, segundo Verônica, ele continuou com as agressões verbais e gesticulava com o dedo em riste.

Walkiria lamenta que agressão tenha partido de “um amigo e aliado”

A vereadora Walkiria Niterói (PC do B) participou do ato e declarou que é doloroso alguém ter esse tipo de atitude, principalmente de quem é considerado um aliado político e ideológico.

“Dói muito mais quando esses ataques vêm de um amigo, de um aliado. Me dói estar aqui falando de um vereador que já esteve ao meu lado em muitas batalhas, que já me prestou favores pessoais, que já me socorreu. Mas essa atitude não pode passar. Histórico de luta e de esquerda não é desculpa para ser lesbofóbico, violento e misógeno. Estamos lutando pela desconstrução, fomos formados por uma sociedade que é preconceituosa, mas quem bate no peito pr dizer que defende direitos humanos, tem mais responsabilidade com essas pessoas. O dia de hoje me entristece muito porque mulheres que foram eleitas democraticamente, para ocupar um espaço de representação, estão aqui dentro sendo silenciadas e violentadas. Isso não é exaltação, nem nervosismo. Isso é violência e deve ser apurado como tal”, desabafou Walkiria.

Binho Guimarães, Walkyria Nichteroy, Jhonatan Anjos, Verîonica Lima, Renato Cariello e Benny Briolly

Benny Briolly prometeu providências junto ao PSOL

A vereadora Benny Briolly, que já sofreu ataques transfóbicos do vereador Douglas Gomes, também esteve no ato apoiando a colega parlamentar. Durante a falta, a integrante do PSOL afirmou que vai tomar providência junto à legenda, citando, inclusive, o diretório nacional do partido.

“Venho aqui Verônica, em nome das mulheres do PSOL, dizer que nós repudiamos a atitude do vereador Paulo Eduardo Gomes, assim como repudiamos qualquer forma de violência ainda mais com uma mulher negra, lésbica, combativa nas lutas da cidade. Eu estou tão revoltada que nem tenho muito o que falar. Estamos juntas para enfrentar isso. Nós parlamentares mulheres do PSOL estamos encaminhando no diretório do PSOL municipal, estadual e nacional providências efetivas e necessárias para que as medidas sejam cumpridas e as vereadoras dessa casa não sejam mais vítimas de lesbofobia. Me perdoe, em nome do PSOL”, disse a vereadora Benny Briolly muito emocionada.

Outros vereadores que participaram do ato foram Binho Guimarães, Jhonatan Anjos e Renato Cariello, todos do PDT. Nenhum deles fez uso da fala durante o ato.

Veronica Lima registrou uma ocorrência na 76ª DP, no Centro, na última quarta-feira (7) contra o vereador Paulo Eduardo Gomes, depois que, segundo a vereadora petista, Gomes a “constrangeu” ao afirmar que “se ela quisesse ser homem”, então ele a trataria como tal. Ela fez um longo desabafo no Instagram e também alegou que “o desrespeito direcionado a mim pelo parlamentar não começou agora e está se intensificando cada vez mais”.

Em nota o vereador Paulo Eduardo Gomes reconheceu o erro e disse que vai refletir junto com o partido sobre o fato. “Reconheci que não poderia ter agido desta forma com uma vereadora mulher. Pedi desculpas na hora e em plenário. Entretanto, apesar de elevar o tom, jamais fiz menção de agredir a vereadora fisicamente — sequer consideraria essa hipótese. Este relato não corresponde à verdade. Em meio a uma acirrada discussão sobre projetos de lei, acabei perdendo a razão. Há mais de 40 anos me dedico à defesa dos direitos humanos e ao combate a todas as opressões. Peço novamente desculpas sinceras à Vereadora por ter perdido a cabeça e me exaltado de forma totalmente descabida. Vou me reunir com a Direção do Psol Niterói e meu partido irá me ajudar a refletir coletivamente sobre este fato e sobre a melhor forma de avançar nesta necessária autocrítica. Quem conhece minha luta e minha trajetória, sabe que entendo que o machismo é inadmissível e deve ser combatido cotidianamente. Entendo que os homens precisam ser antimachistas e me comprometo coletivamente a não cometer mais este tipo de erro.”

Esta não é a primeira vez que ambos discutem de forma áspera. Em sessão realizada no início de junho, quando a Câmara debatia a proposta urbanística para requalificação urbana dos imóveis no Centro de Niterói, ambos tinham opiniões divergentes e discutiram durante a plenária. Verônica chegou a dizer “que estava de saco cheio de ser humilhada por Gomes”.

Gabriel Gontijo e Camilla Galeano

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