Movimento dos Barcos

Quando já é noite e vou para a rua desoprimir paro a bicicleta na avenida Litorânea, que liga o Gragoatá a Boa Viagem. Gosto de observar os navios cargueiros entrando e saindo da Baía de Guanabara; parecem espectros, fantasmas ocos à deriva da vida comum.

Os cargueiros são escuros, pouquíssima iluminação, luz verde a bombordo (esquerda) e vermelha a boreste (direita), talvez uma branca fraca na proa e outra na popa. Só. Não domino o assunto. Vi no Ecosia, o google ecológico, os posicionamentos de boreste e bombordo.

Meu pai foi oficial de Marinha e por isso vivi toda a infância em Angra dos Reis (ele serviu no Colégio Naval) onde o meu contato com o mar e com os barcos era cotidiano. Minha casa ficava a menos de 30 metros da beira do mar de onde víamos barcos, lanchas, veleiros e navios ao longe, andando de um lado para o outro, praticamente na sala de visitas. Observar os movimentos dos barcos era, finalmente, algo que conseguia me relaxar.

O que mais ouvi de pessoas viviam no e do mar foram frases como “perdeu a paciência, o barco e a vida”, ou “mar não tem cabelo”. O mar me ensinou a respeitá-lo. Aliás, a temê-lo. Tenho medo do mar com muita honra.

Benedito, um quase irmão mais velho que tivemos, tinha o que se chama de inteligência rara. Uma vez na praia do Bonfim, íamos ele, meu irmão Fernando Cesar (que devia ter uns 4 anos) e eu por uma trilha para avistar um tiê-sangue e chamaram o Benedito para acudir uma senhora que passava mal. Falta de ar.

Alguém da família deu um papel para ele ler, “o médico disse que ela tem isso aqui”, no que Benedito respondeu “não sei ler nem escrever, mas bota ela virada pro mar”. Ele dizia “respire, senhora, olha pros barcos balançando e espire”.

Parece que a mulher melhorou, não lembro. Há tempos perguntei a meu irmão e ele sequer se lembra do episódio, mas aquela ideia de olhar o movimento dos barcos para relaxar me acompanhou e me acompanha por essa vida.

Um lugar que gosto de ir é o quiosque Cheiro de Mar que fica no alto da Boa Viagem. Vou lá há muitos anos, somente a noite por causa da vista e de uma certa trégua, cínica, que o calor dá. Afinal, vivemos num lugar que possui apenas duas estações: quente e insuportavelmente quente.

De lá dá para ver a entrada da Baia de Guanabara por onde os cargueiros desfilam. Eles vem, passam em frente ao Pão de Açúcar e quando se aproximam da linha da Escola Naval são ceifados da paisagem por um estrupício que a UFF construiu. Prédio de um campus que parece caixa d’água do Leste Europeu no tempo da guerra fria.

Os navios contam histórias abstratas, subjetivas. Aquele lugar onde deixaram a UFF construir o gigantesco estrupício não existia. Nos anos 1970 alguém teve a ideia (governo do estado, antes da fusão) de fazer um “puxadinho” de Niterói e começaram a aterrar a Baía de Guanabara, construindo uma espécie de varandão. Dezenas de caminhões rodavam (e destruíam) a cidade 24 horas por dia aterrando, aterrando, aterrando e deu no que deu.

Não terminaram a obra (nunca entendi aquilo) que deu lugar a um lugar muito esquisito como notam os frequentadores do Terminal, do Teatro Popular. Enfim, o aterro liga o nada ao lugar nenhum e foi nele que fizeram a avenida Litorânea e a UFF construiu o Campus do Gragoatá.

Se não parar de chover vou pegar a bicicleta e dar uma ida até a Litorânea. Sim, gosto de pedalar na chuva. Estou precisando me aconselhar com os cargueiros cuja sabedoria permite que naveguem no escuro, breu total, cruzando o Atlântico, Pacífico, Índico, sete são os mares que eles conhecem e temem. Ficar parado ali, quieto, ouvindo o rugido longínquo do Rio, bebendo água mineral sem gás, nos faz convidar Fernando Pessoa:

Olhando o mar, sonho sem ter de quê/Nada no mar, salvo o ser mar, se vê/Mas de se nada ver quanto a alma sonha!/ De que me servem a verdade e a fé?/

Aquelas aparições não falam, mas parecem ouvir. Elas ou quem elas representam. Esse é o grande e delicioso mistério do movimento dos barcos.

Contato: luizantoniomello@protonmail.com

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