Mortandade de peixes preocupa moradores da Região Oceânica

Há semanas que a Lagoa de Piratninga se encontra com peixes mortos

Um problema de décadas voltou a causar preocupação recentemente nos moradores da Região Oceânica. A grande quantidade de peixes mortos na Lagoa de Piratininga. Isso porque quem reside nas proximidades do local reclamam que a situação se agravou nas últimas semanas, causando um mau odor muito forte. E a mortandade preocupa até quem mora em outros bairros.

Residindo em Camboinhas, Aline Araújo é uma das que se mobilizam em favor de uma solução nos últimos anos. Afirmando que o problema “piorou” desde 2016, que é quando a quantidade de peixes mortes começou a se tornar mais frequente. E para ela, o problema tem motivo: o lançamento de esgoto na lagoa.

“O esgoto que é jogado na lagoa está causando um assoreamento. E a cada dia que passa, o espelho d’água vem diminuindo. Como o Canal de Itaipu está fechado, não há a troca da água. Para piorar, o desabamento do Túnel do Tibau, ocorrido no início do ano, piorou o cenário. É verdade que a prefeitura fez uma obra para desobstruir o que ficou de partes rochosas na lagoa, só que isso não é o suficiente, porque o esgoto continua sendo lançado in natura na área. É um absurdo a poluição que isso tem causado. E nos dias quentes, infelizmente os peixes ‘cozinham'”, desabafa Aline.

Moradores reclamam que problema piorou nas últimas semanas. Foto: Aline Araújo

Moradora da comunidade Bairro Maralegre, em Piratininga, Cláudia Fernandes se assustou com o que viu durante um caminhada, na quinta-feira (16), nas proximidades da lagoa. Ao passar pela área e ver tanto peixe morto, ela admite ter até passado mal com a cena.

“Infelizmente já vi muito peixe morto pela lagoa, mas dessa vez eu me assustei. Sou nascida e criada aqui e nunca vi tanto peixe morto como vi nesse dia. Sem contar no mau cheiro horroroso. Voltei pra casa com dor de cabeça e até um pouco tonta com isso”, conta Cláudia.

Já o pescador e instrutor de stand-up paddle, Paulo Oberlander, fala que é certo que a situação vai ocorrer quando a temperatura aumenta.

“Infelizmente, quando o sol fica mais quente, a gente já sabe que os peixes vão morrer. Desde que as temperaturas aumentaram que voltou a acontecer isso. E ninguém faz nada para resolver esse problema”, desabafa Oberlander.

Reunião com o Inea em fevereiro

Aline explica que um grupo de moradores se reuniu em fevereiro com o presidente do Instituto Estadual do Meio Ambiente (Inea), Felipe Campello, buscando um diálogo com a entidade. Elogiando a postura solícita do atual chefe da instituição, ela explica o que Campello falou na ocasião.

“O Inea nos passou que infelizmente não pode fazer muita coisa pelo fato de a questão envolver um planejamento para saneamento básico da área. E isso o Campello nos explicou que é uma atribuição da prefeitura, não do órgão estadual. E a gente tem cobrando muito uma solução da Prefeitura de Niterói, que já se manifestou afirmando que está elaborando um edital para realizar as obras do Canal de Itaipu, prevista, pelo que nos contaram, para acontecer no ano que vem. Mas a questão é que o esgoto tem que parar de cair na lagoa. E aí a questão passa também pelas Águas de Niterói que precisa agir”, desabafa Aline.

Procurado pela reportagem, o Inea confirmou que uma das hipóteses para a mortandade de peixes “pode ter ocorrido devido à redução do oxigênio dissolvido na água. As altas temperaturas registradas nos últimos dias, associadas à baixa profundidade de algumas regiões do sistema lagunar e a falta de drenagem podem ter favorecido a redução do oxigênio no corpo d’água”.

O órgão também apoia a abertura do Canal de Itaipu como solução para o problema, mas defende um trabalho de pesquisa que mostre possíveis impactos que a obra possa causar.

“O Inea é favorável à abertura do Canal de Itaipu, por meio de dragagem e adequação dos molhes, para promover a recuperação do sistema lagunar Itaipu-Piratininga, e mitigar os problemas citados pelos pescadores. No entanto, o órgão ambiental estadual entende que tal obra deve ser precedida por estudos mais aprofundados, que levem em conta potenciais efeitos adversos de processos de erosão costeira e possíveis consequências de elevações no nível médio do mar. O assunto já foi apresentado ao Conselho da Reserva Extrativista Marinha de Itaipu (Resex Itaipu) que avaliou como positiva a intenção do Inea de iniciar os estudos para readequação da obra e da dragagem imediata”, explicou o instituto.

O órgão finaliza dizendo que possui um convênio com a Prefeitura de Niterói e que concedeu para a administração municipal “poderes de atuação para manutenção dos corpos hídricos situados no município”. Além disso, o Inea ressalta que “é necessário licenciamento para estas intervenções, e também que o saneamento básico é atribuição dos municípios”.

Prefeitura e Águas de Niterói também se pronunciam

A Prefeitura de Niterói informou que Técnicos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Sustentabilidade (SMARHS) estiveram no local para analisar a situação da lagoa e que “o monitoramento da água é realizado regularmente”, com a Companhia de Limpeza de Niterói (Clin) fazendo a retirada dos peixes e a limpeza da área.

Ainda na resposta, a administração municipal explicou que “a Secretaria Municipal de Meio Ambiente em parceria com a concessionária Águas de Niterói, intensificou a fiscalização das casas que não estão ligadas à rede de esgotamento sanitário, contribuindo para a diminuição do lançamento de efluentes sem tratamento nas lagoas”, mas ressalta que mais de 1,5 mil imóveis da Região Oceânica já tiveram a ligação na rede de esgoto vistoriada pela prefeitura neste ano.

O Executivo Niteroiense prossegue dizendo que a implantação do Parque Orla de Piratininga “é uma grande contribuição para a recuperação da Lagoa de Piratininga e uma área de mais de 150 mil metros quadrados será reflorestada. O plantio vai recuperar o ecossistema da região. É a principal obra deste tipo no país, inclusive premiada no exterior”. E a prefeitura também afirma que já firmou três contratos com a Universidade Federal Fluminense para a realização de pesquisas voltadas para a recuperação da lagoa.

“A Prefeitura de Niterói firmou três contratos para realização de estudos inéditos para a recuperação ambiental do sistema lagunar da Região Oceânica de Niterói. Os estudos terão participação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e serão realizados, também, por empresas especializadas no setor. O objetivo é a instalação de equipamentos que, seguindo rigorosos procedimentos técnicos inovadores, reduzam a camada de lodo na Lagoa de Piratininga, o que substituirá a dragagem convencional. Entre os procedimentos abordados estão a análise do lodo do fundo da Lagoa de Piratininga, biotecnologia e a aeração  com o uso de microbolhas para a oxigenação do fundo da Lagoa para a melhoria da qualidade da água. A previsão é que os trabalhos em campo sejam iniciados em setembro”, concluiu.

Já a concessionária Água de Niterói admitiu que a falta de saneamento de “alguns moradores” da área contribui para o lançamento de esgoto da região. Mas a empresa afirma que está em contato frequente com o Inea para auxiliar na fiscalização da Lagoa de Piratininga

“Águas de Niterói informa que toda a bacia em torno da Lagoa de Piratininga possui rede coletora de esgoto, mas alguns moradores ainda não se conectaram e lançam seus esgotos nas redes pluviais. A concessionária, em apoio ao Instituto Estadual do Ambiente (INEA), através do Projeto Se Liga, e em apoio à Secretaria de Meio Ambiente, Recursos Hídricos e Sustentabilidade, com o Projeto Ligado na Rede, vem intensificando as fiscalizações constantes na região”, explicou.

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