Moradores da Zona Norte de Niterói sofrem com falta de ônibus

Desde o início da pandemia, moradores da Zona Norte de Niterói passaram a conviver com a precariedade no serviço de transporte público. Usuários de praticamente todas as linhas que atendem a região do Fonseca reclamam que, há mais de um ano, sofrem com a redução da frota, que atualmente conta apenas com dois veículos por linha, nos dias úteis, e um único veículo operando nos finais de semanas e feriados.

A situação pode ser comprovada no Terminal Rodoviário João Goulart, no Centro, onde diariamente enormes filas se formam na plataforma de embarque dos ônibus que atendem a região. Segundo a aposentada Maria das Dores, a situação da linha 26 (Morro do Céu – Centro, via Jerônimo Afonso), que é operada pela empresa Auto Lotação Ingá, está péssima.

“Nós ficamos aqui esperando o ônibus por uma hora, todos os dias”, disse a aposentada, que também relata que a linha só tem ônibus até, no máximo, às 22h.

Já as linhas 28 e 29 (Largo do Cravinho X Centro) apresentam uma situação ainda mais delicada. As linhas, ambas operadas pela Auto Ônibus Brasília, antes independentes, foram fundidas numa única linha. No sentido Centro, o ônibus circula no itinerário da linha 29, enquanto que no sentido Largo do Cravinho, a mesma linha opera no itinerário da linha 28. Um rodoviário, que pediu para não ser identificado, relata que, além da fusão entre as duas linhas, a empresa disponibiliza apenas um único veículo para fazer o trajeto, o que faz com que o intervalo entre uma viagem e outra, chegue aos 50 minutos, mesmo se tratado de um percurso de apenas 6 km. O rodoviário também relata que, diariamente, a linha só opera até às 19h e que nem sempre o ônibus circula aos domingos.

Ainda no Terminal João Goulart, um despachante, que também pediu para não ser identificado, relata as dificuldades vividas no dia a dia da plataforma de embarque das linhas operadas pela Auto Lotação Ingá.

“As pessoas ficam nervosas com a demora dos ônibus e nos pressionam por solução. Tentamos dar um jeito oferecendo outras opções de linhas para os passageiros”, afirmou.

Assim como no caso da Auto Ônibus Brasília, o despachante também revela caso de fusões nas linhas operadas pela empresa.

“As linhas 21 (Fonseca – Centro) e 25 (Riodades – Centro) foram extintas e não existem mais. A linha 23 (Teixeira de Freitas – Centro) incorporou o itinerário das duas linhas. Além disso, o profissional da Auto Viação Ingá confirma que todas as linhas da empresa estão operando com apenas dois veículos e que, por isso, o intervalo entre as viagens chegam atingir 50 min”, afirmou.

Os usuários do sistema rodoviário da Zona Norte da cidade reclamam que a longa demora pela espera de ônibus vem causando diversos transtornos em suas rotinas.

“Você não pode marcar consulta. Qualquer coisa que você precise marcar horário, acaba perdendo porque não tem horário certo de ônibus. Isso quando os ônibus não deixam de funcionar por causa de tiroteios e confrontos nas comunidades. Eles [os ônibus] não entram e o morador que fique a pé”, desabafa a desempregada Marta Gomes.

De acordo com dados do Sindicato dos Trabalhadores Rodoviários de Passageiros de Niterói a Arraial do Cabo (Sintronac), em 2020, a Auto Lotação Ingá demitiu 370 rodoviários, enquanto a Auto Ônibus Brasília dispensou 73 empregados.

“O momento é crítico, as demissões são inevitáveis, mas estamos garantindo todas as indenizações devidas e há o compromisso de recontratação assim que o mercado se reaqueça”, afirma Rubens Oliveira, presidente do Sintronac.

Atualmente, o quadro de funcionários da Auto Lotação Ingá conta com 413 funcionários, incluindo o pessoal administrativo, enquanto na Auto Ônibus Brasília, esse número é de181 trabalhadores. Um estudo divulgado recentemente pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) revela o agravamento da situação de crise enfrentada pelos sistemas de transporte público por ônibus no Brasil. Nos últimos 14 meses, essa crise resultou num prejuízo de R$ 14,24 bilhões ao setor até o momento, sem que tenha sido adotada qualquer ajuda emergencial federal para o conjunto das empresas.

A Subsecretaria Municipal de Transporte de Niterói informou que foi realizada fiscalização quanto à retirada de ônibus e incorporação de linha após denúncias recebidas sobre este tipo de problema. De acordo com a Subsecretaria, as empresas foram notificadas para o retorno dos ônibus e multadas. A Subsecretaria afirmou ainda que será realizada uma nova fiscalização. Paralelamente a esta ação está sendo feito um estudo pela Secretaria Municipal de Urbanismo sobre a operação do transporte público no período de pandemia.

Marcelo Feitosa
Fotos: Marcelo Feitosa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

20 + 8 =