Moradora do Caramujo passa em curso de mestrado em Portugal

Após receber o resultado de sua candidatura no mestrado em Bioquímica Clínica na Universidade de Aveiro, em Portugal, a moradora do Caramujo, Isabella Rocha, quer compartilhar com o mundo está vitória e pede apoio através de uma vaquinha online para garantir essa conquista para uma vaga no mestrado internacional. Ela obteve a 5ª colocação no ranking geral do curso, que apresentava 17 vagas para alunos portugueses e de outros países. Nessa entrevista ela conta como cada vitória foi inserida em sua história e revela os verdadeiros desafios vencidos numa comunidade violenta.

Moradora do Caramujo, na Zona Norte de Niterói, comunidade onde há guerra do tráfico de drogas em Niterói, ela sempre estudou em escolas públicas e, quando terminou o ensino médio, trabalhava como balconista. É filha de uma empregada doméstica e de um pedreiro desempregado. Em 2012, fez um curso pré-vestibular comunitário e conseguiu uma das cinco vagas destinadas a alunos de escolas públicas para o curso de Biologia da UFRJ, no segundo semestre de 2013.

Ela relatou que fez as contas e já conseguiu 60% do valor necessário para ir para Portugal. O preço do mestrado, 5.500 euros (R$ 25 mil), continua sendo um grande desafio. Lembrando que ela tenta chegar a esse valor por meio de uma vaquinha realizada na internet (http://vaka.me/582666), venda de doces pelo Moléculas Doces e empadas, rifas, contribuições de concertos e eventos em Portugal e até mesmo em suas contas bancárias em Portugal e no Brasil. “Falta um mês e alguns dias para eu embarcar e finalmente cursar o meu mestrado. Quando volto lá atrás fico pensando como foi árduo chegar nesta porcentagem”, declarou.

A estudante disse que já tem a passagem comprada para o dia 13 de setembro. “O visto já está pago e agora só aguardo recebê-lo. Faz 30 dias e nada desse visto ser liberado, mas Deus proverá. Independente se vou conseguir ou não os 100%, a repercussão da minha história foi muito positiva, principalmente a quem já não acreditava em seu próprio potencial. Foram tantas motivações e até mesmo pessoas contando suas histórias. Isso me fez perceber que essa campanha foi super necessária, até mesmo para eu entender que pequenas ações geram enormes consequências e neste caso foi de imensa positividade. Obrigada a todos por ter me feito chegar até aqui. Foram noites mal dormidas, viradas, estresse, ansiedade com muita hiperventilação, muitos choros e cansaço. Temos uma rifa em andamento e algumas lutas pela frente. Um mês e alguns dias que pode acontecer muita coisa”, disse Isabella.

No meio de tudo isso ela recorda um passado de muita insegurança após passar para UFRJ. “Eu chegava sempre por volta da meia-noite em casa ou até mais tarde. Porém, nem sempre tinha sorte de chegar em casa sem ser assaltada. Só na minha rua, pouco antes de chegar em casa, em 2016 eu havia sido assaltada duas vezes. Em 2017, outras duas vezes, mas não levaram a minha bolsa, por um motivo que acredito que tenha sido Deus. Todos esses assaltos foram à noite. Como tenho muita sorte com isso, também já fui assaltada várias vezes no ônibus 760D a caminho de Niterói quando passava pela Avenida Brasil, era um caos”, relembrou.

Segundo Isabella, escolher estudar em uma comunidade é muito difícil. “Você sai de casa sem saber se vai voltar viva ou até mesmo com as suas coisas no qual você luta muito para ter e desaparecer em segundos. Fora os traumas. Ainda volto à noite da UFRJ enquanto termino uns experimentos no laboratório e não tenho a ousadia de descer no meu ponto sem um dos meus pais estarem presente. É desafiador viver assim. Ainda mais por saber que o índice de criminalidade, furtos etc. diminuiu em Niterói, mas não vejo esse reflexo próximo ao bairro”, lamentou a estudante.

Segundo Isabella, o importante é seguir em frente. “Atualmente atingi, somando todos os tipos de contribuições ou ajuda, 60% do objetivo, ou seja, estou mais perto do que imaginava, mas ainda faltam 40%. Mas eu tenho fé que vou chegar lá. A passagem já foi comprada para setembro, então acredito que até lá eu consiga atingir o mais próximo ou até o objetivo final”, concluiu.

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