Morador de São Gonçalo diz que ficou preso nove dias por engano

Augusto Aguiar –

Entre os dias 4 e 13 desse mês, o auxiliar de manutenção e motorista de aplicativo de passageiros Marlos Renan Soares de Souza, de 28 anos, morador do bairro Galo Branco, em São Gonçalo, pode ter passado pelo pior pesadelo de sua vida por conta de um grave engano que teria sido cometido pela Polícia Civil. Ele foi preso acusado de homicídio e uma tentativa de homicídio, fato que teria ocorrido na comunidade do Feijão, no bairro Paraíso, também em São Gonçalo, local onde Marlos afirma que nunca esteve.

Sem antecedentes criminais, Marlos explicou que na manhã do dia 4, quando seguia para o trabalho numa agência de turismo em Ipanema, na Zona Sul do Rio, parou numa lanchonete para tomar café. Nesse momento foi abordado por agentes do Programa Ipanema Presente, revistado e, ao apresentar os documentos, foi conduzido para a 14ª DP (Leblon). Na distrital, após mais uma vez se identificar, sem saber o que estava acontecendo, foi imobilizado, algemado e colocado numa cela.

“Eu não sabia o que estava acontecendo e não me explicaram nada. Me jogaram contra a parede, me algemaram, tiraram fotos e depois me transferiram para a Delegacia de Copacabana (12ª DP). De lá, ainda sem qualquer explicação, fui levado para o Presídio de Benfica, onde fui colocado junto com outros detentos e permaneci por seis dias”, relatou Marlos.

Após esse período, foi novamente transferido, dessa vez para o Presídio Evaristo de Moraes Filho (antigo Galpão da Quinta da Boa Vista), no bairro de São Cristóvão, onde permaneceu até a última quarta-feira. Ele afirmou que não chegou a ser molestado por nenhum detento e alguns até perceberam que algo de errado teria ocorrido, afirmando que ele iria deixar a prisão por estar ocorrendo algum engano.

“Você vai sair, disseram alguns deles”, afirmou Marlos.

Antes da última transferência, seu advogado, Luiz Gregório, procurou Marlos e explicou que ele havia sido vítima de um grave erro, que teria sido cometido pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG), que o confundiu com um suspeito de crime de homicídio e uma tentativa de homicídio, conhecido como MR (cuja identificação seria Marlos Renan de Oliveira).

“A Polícia Civil cometeu um dano irreparável para qualquer cidadão de bem. Juntou a foto e o RG de Marlos com o nome de outra pessoa que estava sendo procurada e pediu a Justiça que expedisse mandado de prisão preventiva em desfavor do rapaz, que é cidadão de bem, não tem antecedentes, nem envolvimento com o crime”, explicou o representante legal de Marlos, acrescentando:

“Vamos ingressar com um processo contra o Estado por danos morais e lucro cessante, pois Marlos deixou de trabalhar nesse período e receber seus vencimentos, com possibilidade de perder seu emprego. O rapaz trabalha, tem emprego e residência fixa, e ainda desempenha a função de motorista de aplicativo para complementar a renda. É uma pessoa de bem. A DH não teve zelo, pois foi de lá que nasceu o grave erro. Não houve o chamado contraditório, Marlos não foi intimado sequer para comparecer na DP, já que tem endereço fixo”.

Na quarta-feira, a Justiça acatou pedido da defesa e Marlos teve a prisão revogada.

“Não foi resolvido, pois ele ainda responde em liberdade. Primeiro procuramos garantir a liberdade e agora vamos buscar absolvição, pois ele ainda responde ao processo. Quero ressaltar que, após ingressar com pedido, a Justiça logo se manifestou favoravelmente (4ª Vara Criminal de São Gonçalo).

Ao comentar o pesadelo que passou, Marlos Renan Soares afirmou que só vira casos semelhantes ao seu pelos jornais.

“A gente pensa que isso nunca vai acontecer com a gente. Quando fiquei preso, outros casos parecidos com o meu não saíam da minha cabeça. Foram momentos muito difíceis pelos quais passei”.

O crime

No início do mês de setembro do ano passado, três pessoas que estavam num veículo na comunidade do Feijão, no bairro Paraíso, foram atacadas a tiros. Na ocasião, uma das vítimas, identificada como Anthoni Fagner Lopes, morreu e outra pessoa que escapou foi levada para prestar depoimento na sede da especializada. Nesse depoimento, o nome “Marlos” foi denunciado como autor, o que teria desencadeado um pedido de prisão preventiva contra Marlos Renan Soares de Souza, que no inquérito seria conhecido como MR, por crime de homicídio e de tentativa de homicídio, solicitação expedida num primeiro momento pela justiça. Tanto o auxiliar de manutenção e motorista quanto seu advogado, e ainda o proprietário de um bar no bairro Galo Branco revelaram que no dia da ocorrência Marlos estava reunido com amigos no bar tomando cerveja por quase todo o dia. Esse encontro de Marlos com amigos foi registrado por fotos postadas nas redes sociais.

A Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG) informou que irá buscar as razões da soltura e requerer acesso aos autos do processo, que já está na justiça.

Pelo menos três casos de engano já foram cometidos esse ano no Estado. No último dia 4, o estudante de Odontologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) David Nóbio da Silva obteve alta médica. Ele foi baleado e estava sob custódia desde o dia 26 de janeiro no Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), no Colubandê. Ele e Ramon de Souza Gregório (também baleado e internado no mesmo hospital) haviam sido acusados pela PM de atacarem uma guarnição a tiros durante uma incursão na comunidade do Brejal, no bairro Jardim Bom Retiro. Os dois ficaram sob custódia e internados, enquanto a família procurava os meios legais para provar a inocência das vítimas. No dia 5 a Justiça revogou a prisão preventiva dos rapazes. A decisão foi do juiz Rafael Resende das Chagas, da 3ª Vara Criminal, em São Gonçalo, com base em pedido da defesa e do Ministério Público do Rio (MPRJ). Na mesma sentença, o magistrado ordenou o prosseguimento das investigações.

No dia 22 de janeiro, a Justiça também ordenou a libertação de Leonardo Almeida dos Santos, preso e apontado como um dos suspeitos de envolvimento na morte por latrocínio (roubo seguido de morte) de Matheus Lessa, em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio. A libertação ocorreu após ato de protesto de familiares. Imagens de câmeras de segurança foram obtidas pelos parentes e oferecidas como material para provar a inocência de Leonardo. O delegado Evaristo Pontes, da Delegacia de Homicídios da Capital (DH-Capital), voltou atrás ao apontar Leonardo como o autor e foi pessoalmente no Tribunal de Justiça (TJRJ) pedir a sua soltura.

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