Ministério Público investiga ligação de presidente da Alerj com agiota

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) investiga a relação entre um agiota do município de Paracambi, na Baixada Fluminense, e o deputado estadual André Ceciliano (PT), reeleito presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) este mês. A investigação foi iniciada no ano passado e, recentemente, deslocada de competência no Judiciário.

Inicialmente investigado como uma suspeita de “rachadinha” no gabinete de Ceciliano, a investigação aponta para o empresário da construção civil Carlos Alberto Dolavale, de 63 anos, que esteve lotado no gabinete do petista, assim como quatro pessoas com quem ele tem parentesco. A proximidade da família com o político já tem quase 20 anos, desde quando ele foi prefeito de Paracambi.

Em 2018, Dolavale e a ex-mulher, Elisângela Barbiere, foram citados no relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) por movimentações atípicas de funcionários da Alerj. Os funcionários lotados no gabinete de Ceciliano somam o maior montante identificado pelo órgão: mais de R$ 49 milhões movimentados entre 2011 e 2017, sendo R$ 45 milhões apenas pela família de Dolavale. O documento foi a base da Operação Furna da Onça, que prendeu sete deputados estaduais do Rio e revelou transações financeiras suspeitas de assessores do então deputado estadual Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente Jair Bolsonaro e hoje senador.

O MP-RJ passou então a buscar indícios de desvios dos salários pagos pela Alerj à família. O dinheiro movimentado por Dolavale, Elisângela e o pai dela, o aposentado Benjamin Barbiere, foi o estopim. A promotoria descartou o crime de “rachadinha”, com a quebra de sigilo bancário e fiscal de Ceciliano, e passou a considerar que a remuneração pudesse ter sido utilizada pelo parlamentar na quitação de uma suposta dívida contraída com Dolavale. Ceciliano nega que o débito tenha existido.

Ao depor em outra investigação em 2012, Dolavale disse à Polícia Federal (PF) que o presidente da Alerj devia R$ 170 mil por compras feitas na loja de material de construção que administrava à época, em Paracambi. O petista foi prefeito do município entre 2001 e 2008. Após a informação ter sido divulgada, o empresário voltou atrás em juízo, e disse que a dívida seria de um vereador da cidade que teria utilizado o nome de Ceciliano como garantia.

De posse dessas informações afirmações, o Ministério Público solicitou autorização judicial para realizar novas diligências. O Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) modificou a competência do caso e o enviou à primeira instância em Paracambi, onde há uma vara única de Justiça. Como Ceciliano, como deputado estadual, tem foro privilegiado e o direito de ter processos julgados em segunda instância, a mudança sinaliza uma alteração no foco da investigação.

Agora, Carlos Alberto Dolavale passa a ser o principal alvo da investigação por conta das discrepâncias entre os valores movimentados e as rendas dele e dos familiares. De acordo com registros policiais obtidos pelo MP-RJ, o empresário atuaria como agiota: as autoridades receberam relatos de pessoas que teriam sido ameaçadas por não conseguirem quitar suas dívidas com o empresário.

André Ceciliano afirmou confiar na Justiça e estar “certo de que não cometeu qualquer irregularidade”. Em nota, o presidente da Alerj declarou que não se encaixa nos critérios que o Ministério Público estipulou para as investigações das “rachadinhas” e que não teria existido “ilicitude ou irregularidade” nas nomeações de Dolavale e de membros da família. Ceciliano justificou a origem de sua ligação com o empresário porque os Dolavale “são pessoas conhecidas em Paracambi”, onde foi prefeito por dois mandatos, e completou afirmando que Carlos Alberto “é um empresário conhecido na região e já foi diretor do maior hospital da cidade”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezesseis − onze =