Comandantes das forças armadas deixam o governo Bolsonaro

O Ministério da Defesa anunciou na terça-feira (30) a troca dos três comandantes das Forças Armadas no país: o general Edson Pujol, do Exército; o almirante de esquadra Ilques Barbosa Junior, da Marinha; e o tenente-brigadeiro do ar Antonio Carlos Moretti Bermudez, da Aeronáutica. Os três receberam a notícia do afastamento durante reunião com o novo ministro Braga Netto. As alterações foram vistas com muita apreensão pela oposição que chegou a falar em possível golpe militar devido as interferências do governo nos quartéis.

No fim da noite, em vez de pacificar o clima de tensão, Braga Neto jogou ainda mais lenha na fogueira ao afirmar que o período da ditadura militar (1964-1985) serviu para “pacificar o país” e que os governos militares quando tomaram o poder foram responsáveis para “reorganizar o Brasil e garantir as liberdades democráticas que hoje desfrutamos”. A afirmação foi feita em alusão ao aniversário de 57 anos do golpe de 1964, que é comemorado anualmente pelo presidente Bolsonaro.

A troca dos comandantes ocorreu um dia após Bolsonaro promover seis mudanças no seu ministério, entre elas, a saída do general Fernando Azevedo e Silva do ministério da Defesa. Insatisfeitos com a mudança no comando, os três comandantes das Forças Armadas combinaram deixar os seus cargos, mas Bolsonaro se adiantou e determinou a demissão dos três para que sua imagem não saísse prejudicada devido ao abandono dos chefes militares. Porém a estratégia não funcionou, pois, apesar de oficialmente os três terem sido demitidos, ficou notório que eles entregariam os cargos em solidariedade a Azevedo e Silva.

Politicamente, a demissão de Azevedo e Silva e a mudança nas Formas Armadas foi interpretada pelos militares como uma tentativa de se obter um maior alinhamento dos quartéis com o governo. O que levou a oposição em a temer uma possibilidade de um novo golpe militar. Contudo, o vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB), afirmou que não há a possibilidade de haver uma “ruptura institucional” sejam quem for os novos comandantes.

A possibilidade das mudanças terem sido feitas com objetivos políticos fez com que diversos parlamentares se mostrassem preocupados. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou que o Senado vai avaliar um pedido do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) que solicita que o novo ministro, Walter Braga Netto, compareça à Casa para prestar esclarecimentos.

Repercussão

A possibilidade de interferência ou uso político das Forças Armadas fez que com que muitos se mostrassem preocupados com os próximos passos do governo. A mudança abrupta nas três forças de uma vez foi algo inédito no país. A possibilidade dessas alterações terem sido feitas com objetivos de interferência política de Bolsonaro para alinhar os quartéis com o seu governo foi o principal alvo de críticas.

O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso afirmou que espera que as Forças Armadas se mantenham fiéis à Constituição.

“Não bastasse a pandemia e o difícil momento econômico, há inquietação entre chefes militares. Espero que as Forças Armadas se mantenham fiéis à Constituição. Mandamento que vale para todos os cidadãos. Mais ainda para os que temos a ver com a política. Equilíbrio e lei; ordem e progresso”, afirmou.

Ciro Gomes (PDT), ex-governador do Ceará e ex-ministro, disse que a troca dos três chefas das Forças Armadas é algo grave.

“O limite de transgressão do respeito à constituição, ao profissionalismo das forças armadas, foi ultrapassado quando ele (Bolsonaro), sem nenhuma cortesia, sem respeito, humilhando, demitiu sem conversar com ninguém o ministro da Defesa por razões mesquinhas”, disse.

O deputado federal Rodrigo Maia (DEM), ex-presidente da Câmara dos Deputados, comparou Bolsonaro aos seus desafetos políticos da Venezuela tão combatidos pelo presidente.

“Bolsonaro está cada vez mais parecido com Chávez e Maduro. Logo mais começam a expropriar. E muita gente, na elite principalmente, acha que é uma opção contra o PT. É muito mais do que isso. Um autoritário sempre será autoritário”, colocou.

Marcelo Freixo (PSOL-RJ), salientou que as Forças Armadas são instituições de Estado e que não pertencem a governos.

“A demissão de comandantes que defendem os limites constitucionais do papel das Forças Armadas é preocupante. Nós da oposição no Congresso seguiremos firmes na defesa da Democracia”, declarou.

O deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) foi na mesma linha do uso particular das Forças Armadas. “A insistência de Bolsonaro em usar as Forças Armadas como se fossem suas, e não do Brasil, fez com que os comandantes das três Forças Armadas entregassem, juntos, os cargos. Contra a gravíssima tentativa do presidente, eles reafirmaram, acertadamente, o compromisso com a democracia”, declarou.

Proposta polêmica – Em meio acusações de intervenção nas Forças Armadas, o governo Bolsonaro ganhou ajuda de seus aliados no Congresso Nacional no intuito de ganhar mais poderes sobre o país a partir de um projeto que poderia para dar ao presidente a possibilidade de utilizar o instituto da Mobilização Nacional. Previsto na Constituição, trata-se de um mecanismo de gestão de crise para tempos de guerra. A causa do seu uso neste momento seria a situação do enfrentamento da crise sanitária. Contudo, o projeto não foi à frente e foi classificada como tentativa como “golpe” por alguns parlamentares.

A proposta foi feita pelo deputado Vitor Hugo (PSL-GO), afirmando que o presidente Jair Bolsonaro deveria ter o poder de acionar uma “mobilização nacional”. Na prática, se aprovada, Bolsonaro poderia intervir nos fatores de produção públicos e privados; requisitar a ocupação de bens e serviços; e até convocar civis e militares para ações do governo.

Marcelo Almeida e Augusto Aguiar

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