Milícia e tráfico disputam território em bairros de Itaboraí

Augusto Aguiar –

Já foi o tempo que os moradores dos pacatos bairros como Porto das Caixas, Visconde de Itaboraí, Areal e adjacências, em Itaboraí, podiam se orgulhar que a violência passava longe de suas portas. Agora, pior até do que em muitas localidades do Estado, eles denunciam que estão sendo obrigados a conviver com uma violenta disputa entre milicianos e traficantes, que fizeram desses locais seus territórios em disputa. Policiais civis e militares já tomaram conhecimento do pedido de socorro da população, que permanece sofrendo em silêncio. Vale lembrar que em Porto das Caixas está situado um dos principais pontos de visitação religiosa da região, a Igreja Nossa Senhora da Conceição, com o Santuário de Jesus Crucificado, onde certamente muitas orações clamando por paz já foram feitas.

“Há quase uma semana, por volta das 18 horas, houve um intenso tiroteio entre bandidos e naquele momento havia muitas crianças e jovens nas ruas, nas proximidades dos campos do Alzirão e Portuense. Houve muito pânico e gritaria, com gente chorando desesperada. Foram ouvidas muitas rajadas de tiros. Muita gente, que prefere manter o silêncio (temendo possíveis represálias), não sabia nem onde se esconder”, descreveu um morador de Porto das Caixas, acrescentando que nesse dia havia muitos milicianos armados na localidade.

Moradores também denunciaram que milicianos estariam tentando dominar o território do bairro vizinho do Areal, que por sua vez estaria servindo de base para traficantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV). Também há relatos que milicianos estariam adotando a mesma prática combatida no Rio, que é a exploração de comerciantes e moradores.

“Quando divulgam a ação de criminosos em Itaboraí, só se fala nos bairros da Reta. Esqueceram da gente. Eles alertam, por exemplo, que a milícia e o tráfico já tomaram Visconde de Itaboraí, Porto das Caixas, Barreiro e Sem Terra. Eles cobram trinta reais por mês de cada comerciante que trabalha nessas regiões e vinte reais de residências. Eles chamam de ajuda de cesta básica. Isso ocorre todo dia cinco de cada mês. Temos que comprar gás e cigarros só com eles. Quem se revolta contra isso e denuncia corre o risco de ser morto e o corpo nunca mais aparecer”, informou com medo outro morador que prefere o anonimato.

Os mesmos moradores, que esperam pelo “milagre” do retorno da sensação de segurança e tranquilidade na área, também descrevem que muros de residências, de estabelecimentos comerciais, bancas de jornais e até da Igreja de Nossa Senhora da Conceição já serviram de mural para pichações de traficantes e milicianos, que demarcam territórios.

“Traficantes que enfrentam os milicianos já picharam o muro da igreja com ameaças. O muro já foi pintado novamente. A banca de jornal, situada em frente também. Teve a residência de um morador que foi crivada de tiros e ainda picharam o muro. Cartuchos de escopeta e de outras armas já foram encontrados nas ruas. Aí vem a TV e só fala da Reta. Qual o interesse deles em esconder o que está acontecendo por aqui, no nosso bairro?”, indagou o morador.

Outro morador, também com medo de se identificar, observa há anos o que estaria ocorrendo em Porto das Caixas, Areal e Visconde de Itaboraí fez outra revelação.

“Você se lembra da ocorrência que teve quando invadiram o hospital (Municipal Desembargador Leal Junior), no bairro Nancilândia (em 11 de maio desse ano) e teve um tiroteio lá dentro? Então, aqui na região a gente sabe que havia um baleado dessa rixa entre eles, que havia sido socorrido e internado lá. O confronto ocorreu porque os criminosos foram lá, não para resgatar, mas para executar o rival dentro hospital. Os envolvidos eram oriundos dessa disputa que ocorre aqui. Não divulgaram isso em nenhum meio de comunicação, e o que é pior: não prenderam ninguém”, afirmou.

PM confirma o enfrentamento e Polícia Civil adota o sigilo

“Cheguei no Batalhão (35º BPM) há cerca de dois meses e existe na localidade de Visconde de Itaboraí uma ação de milicianos, mas estamos operando na área e também no Areal. Apuramos que em Visconde havia tráfico, mas aí chegou a milícia e os expulsou. Por sua vez, no Areal opera o tráfico. As duas partes estariam preocupadas com invasão de áreas. Estamos batendo nos dois locais. Existe um informe de que esses criminosos seriam oriundos da Zona Oeste do Rio. Também temos registros de que algumas de nossas guarnições enfrentam esses criminosos, sempre com apreensão e prisões efetuadas. Estamos apurando os fatos junto com a 71ª DP (Itaboraí) e certamente tomaremos providências”, afirmou o novo comandante do 35º BPM, tenente-coronel Rogério Jackes.

Através da assessoria de comunicação, a Polícia Civil emitiu na quarta-feira um breve posicionamento por nota, no qual se resume a declarar que “as investigações estão em andamento na 71ª DP (Itaboraí) e seguem em sigilo”. Na última quarta-feira, durante o cumprimento de ordem de operações para reprimir o tráfico e retirada de barricadas na comunidade do Sem Terra, o 35º BPM trocou tiros com três suspeitos na Rua da Jaqueira. Um deles foi baleado e morreu ao dar entrada no Hospital Desembargador Leal Júnior. Foram retiradas barricadas nas ruas Eurico Barbosa, José Martins e Lourival Luquel de Figueiredo, no bairro Areal.

Em dezembro do ano passado, a Polícia Federal deflagou a “Operação Visconde”, com o objetivo de desarticular uma quadrilha que atuava no tráfico de drogas da localidade de Visconde de Itaboraí. Agentes s cumpriram Mandados de Prisão e de Busca e Apreensão, além de Mandados de Condução Coercitiva. Também foram presos acusados de homicídios. Em outubro de 2016 foi a vez da Divisão de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSG), que foi acionada para intervir numa onda de crimes violentos na área, onde os números do Instituto de Segurança Pública (ISP), de março a agosto daquele ano, indicaram alarmantes 48 homicídios dolosos (com intenção de matar) registrados, com reflexos nas DPs de Tanguá (70ª DP), Rio Bonito (119ª DP), Silva Jardim (120ª DP) e Cachoeiras de Macacu (159ª DP). Na ocasião, os agentes já atribuíam a incidência de assassinatos a presença de uma violenta quadrilha de traficantes que havia se fixado na região e passado a tirar o sono dos pacatos moradores.

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