Mentes caóticas futebol clube

Por Luiz Antonio Mello

Nossos predadores existenciais vivem nas savanas do inconsciente e mantém no topo da cadeia alimentar uma iguaria chamada a ansiedade antecipatória, figurinha fácil no corredor da morte das penitenciárias onde a pena de morte é formal. No Brasil pena de morte é informal. Há muitos relatos de condenados que ficaram ensandecidamente ansiosos para chegar o dia da execução, quando a ansiedade, parece, cessa.

Dormir mal, comer mal, falar mal, cansaço instalado no cotidiano; ansiedade antecipatória é capaz de levar a milhares de abismos por minuto, numa tortura inominável que devora dias e noites, semanas, meses, anos, décadas.

Certa vez, lá na casa do cacete das transversais do tempo, fui me meter a fazer meditação transcendental na torpe tentativa de tentar reduzir a voracidade e velocidade dos pensamentos caóticos.

Baixei numa espécie de consultório em Copacabana, num prédio que se chama Edifício das Boutiques, na Santa Clara. Apesar do tsunami de mulheres lindas na fila do elevador, minha cabeça parecia uma Kombi lotada de hortifrutigranjeiros capotando e pegando fogo na avenida Brasil. Não deu nem para apreciar a bundolaria feminina.

O cara começou a sessão de meditação querendo que eu ficasse de pernas cruzadas, similar a posição de lótus, mas eu nunca consegui e não consigo até hoje. Acabei deitando de barriga para cima.

O fedor dos incensos acesos dava vontade de golfar e a musiquinha de relaxamento que é composta e executadas por computadores davam vontade de golfar. Lembro de ter pensando “o que estou fazendo nesse muquifo?”

Com aquela voz mansa e picaretosa o terapeuta ele fez uma contagem, disse um monte de coisas e na minha cabeça surgiam piranhas (peixes) devorando a minha mão num caixa eletrônico de banco, incêndio no meu próprio corpo, afogamentos, enforcamento numa floresta devastada, em suma, a tal meditação conseguiu reunir o pior do pior e eu disse “para, meu chapa! Não aguento mais! Quanto é?, vou embora”. E fui.

No corredor do elevador fumei dois cigarros acendendo um no outro (na época eu fumava e todo mundo podia fumar em qualquer lugar, até dentro de aviões e berçários porque éramos ainda mais incivilizados ainda), andando de um lado para o outro como limpador de para brisas aflito até golfar na lixeira e, meio trôpego, deixar o edifício das Boutiques rumo ao trabalho.

Eu tinha uma Brasília, carro de sucesso que a Volkswagen fabricou de 1974 até 1982 e a bordo, em alto volume, enchi a cara de Led Zeppelin como se fosse fogo paulista auditivo e a erupção de pensamentos hediondos deu uma serenada.

Dias depois encontrei um saudoso amigo, médico psiquiatra, numa fila de orelhão (telefones públicos que existiam até os anos 2000 quando começaram a ser extintos e hoje viraram raridades) e falei que estava completamente descacetado “a ponto de recorrer a meditação transcendental.” “Pior opção”, ele disse, “porque quando estamos sob violento estresse – que é o seu caso -a meditação piora tudo. Joga gasolina em lareira. Não adianta tentar conter pensamentos através de mudanças de pensamentos porque a cabeça não desfoca de jeito nenhum.”  Nas minhas metáforas surgiu um afogado achando que iria sobreviver trocando de sunga.

Perguntei o que poderia resolver e ele, muito objetivo aconselhou “tomar ansiolítico e fazer psicanálise”. “Mas eu parei”, disse, “pois então retome já”, ele disse, “mas faça em grupo para ver que todo mundo sofre disso”, encerrou, antes me passando uma receita do hoje vintage Lexotan.

Foi quando ingressei na psicanálise e em várias outras terapias ortodoxas e heterodoxas (florais, unha de corvo ao suco, e até uma série de estapeamento aos berros em almofadas) que uso até hoje para conter a mente caótica. Não dá para conter 100%, mas adquiri know how para negociar com ela.

Há uns cinco ou 30 anos atrás (não lembro) eu estava nadando a noite nas águas mornas e sensuais de uma paradisíaca praia de Angra dos Reis quando o motor da mente caótica girou e comecei a pensar na música do filme “Tubarão” (“tan tan tan tan”), convencido que ia ser devorado por um ali mesmo. Apesar de pensar “não existe tubarão, não existe tubarão, não existe tubarão” desesperado nadei até a praia e, quando cheguei, me joguei na areia. Acho que até suei no mar.

Um amigo que estava distante disse, “caramba, você nada rápido pra cacete”, comentou, “até parecia eu, ano passado, quando mergulhei a noite, fui até lá no fundo e lembrei daquela música do filme Tubarão, entrei em desespero e quase andei sobre a água. Nunca mais pisei na água a noite”.

“Pois é”, respondi.

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