Memórias do Brasil feliz e do Rio que era mais do que maravilhoso

Ler um bom livro nesses tempos complicados faz bem a saúde. O colega Joaquim Ferreira dos Santos abre o nosso apetite ao prazer com suas obras. Por exemplo, “Feliz 1958 — o ano que não devia terminar”, lançado há tempos, nos apresenta o Brasil em sua fase mais feliz.

Em entrevista a Ricardo Westin do site Senado Notícias, Joaquim explicou que 1958 “foi o ano em que tudo deu certo. O Brasil ganhou a Copa do Mundo pela primeira vez.

João Gilberto lançou Chega de Saudade, o disco fundador da bossa nova. A revista Manchete apresentou fotos belas da colunata do Palácio da Alvorada pronta, mostrando que Brasília, em construção, se tornaria mesmo realidade, e não mais uma lenda brasileira que não se confirmaria. A arquitetura de Niemeyer causava espanto internacional.

Em 1958, o Brasil assistia a Rio Zona Norte, o primeiro filme de Nelson Pereira dos Santos, que inaugurou o Cinema Novo. O Brasil se industrializava.”

Na avaliação do jornalista, essa sequência de “conquistas” em 1958 fez nascer um orgulho brasileiro que não existia antes.

— Até então, não havia nada que tornasse o Brasil celebridade internacional. Ali, o Brasil passou a ser reconhecido não pela miséria e pelo subdesenvolvimento, mas pelo talento do futebol, pela sofisticação da música, pela beleza da arquitetura. Nós nos tornamos internacionais pela primeira vez.

O colega Joaquim Ferreira dos Santos se superou ao escrever as mais de 671 páginas de “Enquanto Houve Champanhe Há Esperança – uma biografia de Zózimo Barroso do Amaral”.

Lançado há dois anos, estou relendo absolutamente extasiado com o monumental trabalho do Joaquim e equipe que, mergulhando na vida atonal, incerta, surpreendente do Zózimo acaba registrando o exato instante que o Rio deixou de ser cidade maravilhosa para ser transformado no do purgatório do caos. A leitura do livro mostra porque o Rio foi maravilhoso, generoso, gente boa, elegante, bem humorado, e não esse incurável abscesso urbano, social e político que aí está.

A partir da infância de Zózimo no Jardim Botânico, o livro mostra a vida desse carioca radical, apaixonado, muitas vezes destemperado, defendendo a cidade. Nascido em berço nobre, o angustiado, elegante, caótico e imprevisível Zózimo tornou-se uma marca internacional quando começou a assinar sua coluna no Jornal do Brasil, em 1969. O livro acompanha o rali existencial do jornalista, tragado pelo álcool e por quatro maços de cigarro por dia, e que pagou muito caro por isso.

Lembro bem, foi em 1977 mais ou menos. Eu havia passado uns dias em Brasília e lá fui levado a uma boate chamada Adrenalina pelo grande amigo Márcio Paulo. Ficava na Asa Norte, e lá dentro (ambiente todo vermelho) fui apresentado a Ramones, Clash e outras bandas dessa saudosa linhagem. Márcio tinha um belo Puma branco e quando saímos de lá, madrugada alta, meus ouvidos apitavam graças ao volume (e qualidade) do som. Duas semanas depois a polícia fechou o bar.

Cheguei ao Rio e fui direto do Galeão para a redação do Departamento de Jornalismo da Rádio Jornal do Brasil, que ficava naquele belo “navio” ancorado na avenida Brasil 500 (hoje é a sede do Into) onde trabalhava desde 1974 e permaneci até 1981. Saudade do cacete daquele navio que abrigava amigos, colegas e monstros sagrados como Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Ana Maria Machado (minha chefe), Elio Gaspari, Marcos Sá Correia e, lógico, Zózimo Barroso do Amaral entre muitos outros.

O Jornalismo da Rádio ficava no lendário sexto andar, próximo a sala do Zózimo e numa tarde eu estava no banheiro de mármore (repito, como era belo aquele prédio) fazendo xixi e o Zózimo entrou para fazer o mesmo em outro mictório. Perguntou “alguma nota?”, eu falei sobre o fechamento do Adrenalina e ele perguntou por que. “Pela ignorância a polícia deve achar que Adrenalina é uma droga, como cocaína, heroína”. No dia seguinte, destaque em sua coluna. “A polícia de Brasília fechou o bar de rock Adrenalina. Acha que é nome de droga”. Deu a maior confusão.

“Enquanto Houver Champanhe Há Esperança” é um livro mais do que fundamental para quem ama um Rio que realmente existiu (“é sol, é sal, é sul” não foi uma miragem), a vida ultra interessante de um de protagonistas, Zózimo, a imprensa daqueles tempos (só no Rio havia 20 jornais diários) e a história do colunismo social.

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