Mário Sousa – Mataram os Cieps, um crime contra a Educação

Eleito em 1982, para governar o Estado do Rio de Janeiro, Leonel Brizola buscava uma alternativa para mudar o atraso da Educação estadual. Com este objetivo, convidou o seu vice, o antropólogo Darcy Ribeiro, para pensar um caminho de transformação da realidade existente. Foi assim que surgiram os Cieps, que logo se tornaram referência em todo o Estado e no País.

A proposta, pioneira no Brasil, oferecia uma escola de qualidade em período integral, com segurança, atendimento médico e odontológico, atividades esportivas e culturais, contexto no qual foram contratados os animadores culturais. Parecia um sonho que se tornava realidade, graças ao espírito empreendedor, social e educacional de Darcy Ribeiro.

Os Cieps causaram um impacto nas comunidades, ao oferecer melhores oportunidades educacionais às crianças e jovens, numa tentativa de diminuir a desigualdade social e de frear a cooptação de jovens pelo tráfico de drogas.

Brizola entendia que a Educação era o principal caminho para mudanças radicais e no desenvolvimento no país. E, para somar nesta parceria, convidou Oscar Niemeyer para criar a concepção arquitetônica dos Cieps, que os idealizou a partir da utilização de peças pré-moldadas de concreto. Nos prédios, haviam salas de aulas, centro médico, cozinha, refeitório, área de recreação, ginásio para atividades esportivas e culturais, biblioteca, dormitório, e, posteriormente, em algumas unidades, foram construídas piscinas.

Brizola e Darcy Ribeiro, mesmo contra as vozes do atraso, construíram mais de 500 Cieps no Estado do Rio de Janeiro, tornando-os referência da educação nacional, com repercussões internacionais. Parecia que um novo despertar pedagógico estava sendo alicerçado com os Cieps, rumo à educação pública de qualidade.

Não foi bem assim que aconteceu. A mesquinharia política e o interesse de grupos econômicos ligados ao poder do Estado falaram mais alto. “Para que servem os Cieps?”. “Para que criar oportunidades aos jovens da periferia, oferecendo escola pública de qualidade?”.
Os novos governadores, Moreira Franco, e depois Marcelo Alencar, deram ênfase ao privado e não ao público. Além de não darem continuidade à obra educacional de Darcy Ribeiro e Brizola, destruindo completamente a concepção dos Cieps e tornando-os escolas comuns, posteriormente, privatizaram companhias estaduais, dentre elas, a CERJ (Companhia Estadual de Eletricidade do Estado do Rio de Janeiro).

Na época, numa entrevista, Darcy Ribeiro profetizou: “O fim dos Cieps levará milhares de jovens à porta do crime”. Nas décadas seguintes, esta profecia tornou-se refrão no discurso de diversos políticos: “Se houvesse a continuidade dos Cieps, não teríamos perdido milhares de jovens cooptados pelo tráfico”.

Apesar disto, após 40 anos da morte dos Cieps, pouco ou nada foi feito para a revitalização deste projeto educacional.


Mário Sousa é Jornalista e escritor

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