Mário Sousa: Enel, pouco compromisso com a cidade

Com a criação em Campos (1883) de uma pequena usina termoelétrica, o Estado do Rio de Janeiro passou a ter a primeira empresa de eletricidade e a EFE, Empresa Fluminense de Energia, sendo também a primeira da América Latina. Depois, somente em 1963, surge a Celf – Centrais Elétricas Fluminenses; e, com a fusão dos estados do Rio de Janeiro e da Guanabara, é criada Cerj Companhia de Eletricidade do Estado do Rio de Janeiro.

Apesar dos problemas que existiram e continuam existindo na iluminação pública do RJ e de Niterói, houve avanços significativos. Nos governos de Leonel Brizola, o primeiro de 1983/1987 e o segundo de março de 1991 a abril de 1994, a Cerj teve papel importante com a democratização da iluminação pública, que chegou às comunidades mais pobres do Estado, praticamente a custo zero.

O deputado federal José Mauricio Linhares, histórico no PDT, e um dos amigos mais próximos de Brizola, Secretário Estadual de Minas e Energia, incorporou em seu guarda-chuva administrativo, a Cerj, a CEG- Companhia Estadual de Gás e o DRM – Departamento de Recursos Minerais. A CERJ, no período Brizolista, implementou dois programas significativos criados pelo deputado José Maurício: “Uma Luz na Escuridão” e “Cerj Rural”.

O Programa Uma Luz na Escuridão foi uma marca significativa de atuação popular no Governo Brizola, com alcance social bem próximo aos CIEPS, com mais de um milhão de atendimentos em todo o Estado, nas favelas e periferias.

Era um clima de festa a chegada da equipe para inauguração dos projetos de iluminação em cada lugarejo do interior do Estado. Assim como os Cieps, que deram milhares de oportunidades às crianças e jovens, com horário integral, refeição, cultura e esporte, o programa Uma Luz na Escuridão permitiu que centenas e centenas de jovens pudessem estudar com menos esforço visual e tranquilidade durante a noite, melhorando a qualidade de vida e o setor produtivo de milhares de famílias e comunidades.

Nas centenas de inaugurações e viagens pelo interior do Estado do Rio de Janeiro e áreas urbanas, ocorreram muitos fatos curiosos. O mais emblemático foi numa comunidade de Búzios, na residência de um casal acima de 70 anos. Quando o Secretário José Mauricio ligou a chave e acendeu a luz da sala do casebre, os dois caíram de joelhos diante do Secretário e, aos prantos disseram: “Isto é um milagre! É um milagre! O senhor é Deus! Como você conseguiu? O senhor é Deus!

Ali, próximo, a Búzios, o lugarejo mais procurado por turistas do país e do mundo, este casal e a comunidade local nunca tinham visto uma luz elétrica. Coisas da vida e da história!
Além dos projetos técnicos, José Mauricio equipou e dinamizou um dos poucos museus de Eletricidade do país, que ficava na Alameda São Boaventura e também foi criado um espaço de cultura, no centro de Niterói, para exposições, lançamentos, cursos de teatro e de expressão corporal para os funcionários da estatal.

Para melhoria do atendimento, modernização e avanço tecnológico, foi inaugurada uma nova sede da Cerj, que na época, passou a ser o mais moderno prédio comercial da cidade, no bairro São Domingos. Na ocasião, o governador em exercício era Nilo Batista, pois Brizola saiu do governo do Estado para ser candidato a presidente do país. Quem veio para a inauguração do prédio foi a filha de Brizola, Neusa Brizola.

Rompido com Brizola e afastado do PDT, Marcelo Alencar, já no PSDB, foi eleito Governador do Estado (1995/1999). Criminosamente, começou a desconstruir os Cieps e fez leilão da CERJ e da CEG, os dois patrimônios públicos do Estado do Rio de Janeiro.

De lá pra cá, a CERJ teve vários donos e o serviço ficou cada vez pior. Uma das primeiras medidas do grupo empresarial vencedor foi acabar com os programas sociais,” Uma Luz na Escuridão”, “Cerj Rural”, o Museu da Eletricidade, a Sala Cultural e tudo que beneficiasse às comunidades. Até hoje ninguém sabe o que aconteceu com acervo do Museu e a placa de inauguração do prédio novo da Cerj.

A Cerj, depois de privatizada com seus novos donos –Ampla, Enel – só piorou o atendimento. Agora, a Enel resolveu deixar Niterói e levar parte de sua estrutura para a cidade do Rio de Janeiro, reafirmando que esses grupos empresariais não tem nenhum compromisso com a população de Niterói, tendo como objetivo somente o lucro a qualquer custo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.