Mário Sousa: De Araribóia a Cultura é um Direito

Sem negar as ancestralidades, Niterói, simbolicamente, com sua fundação, pelo índio Araribóia, no Morro de São Lourenço, marca um ciclo histórico. No mesmo local, foi encenado o Auto de São Lourenço, de autoria de José de Anchieta, que simboliza, o início do teatro no Brasil.

Já em 30 de abril de 1946, por uma “beatise” da primeira-dama do Brasil, o presidente Eurico Gaspar Dutra decretou o fim das casas de jogos no País. Niterói era um balneário dos ricos que vinham de toda parte do mundo gastar no Cassino Icaraí, que ficava no prédio onde funciona, hoje, a Reitoria da Universidade Federal Fluminense. Que contraste! Ali, se apresentavam companhias francesas e muitos destacados músicos e personalidades do teatro. Passaram por ali, Grande Otelo, Orlando Silva, Carmem Miranda, Silvio Caldas, Josephine Baker e uma das mais importantes diretoras de Balé de Niterói, Juliana Yanakaiewe e também o cantor, compositor e pianista Sérgio Mendes, uma das personalidades musicais nascidas em Niterói com maior destaque no mundo.

Era o retrato da época, no cassino, a primeira-dama do País, Darci Vargas, esposa de Getúlio Vargas e, a primeira-dama do Estado do Rio, Alzira Vargas, promoviam shows beneficentes.

 Momentos de avanços e ebulição da Cultura. Outras vezes, parecia estagnada e até em retrocesso. Ciclos e ciclos. Niterói é uma cidade que tem um celeiro de artistas dos mais variados segmentos.

Para além do histórico linear dos fatos, relembro algumas passagens da cultura em Niterói, há quase meio século, apenas fazendo menções a alguns prefeitos eleitos. Ivan Barros, o prefeito pintor, comemorou os 400 anos da cidade, criando a Comissão do IV Centenário, e trouxe para presidi-la o embaixador Paschoal Carlos Magno, o maior nome da cultura na época. O vice da Comissão foi Ephrem Amora, Diretor do Grupo Fluminense de Comunicação e como Secretária Geral, Hilma Borba.

Nesse período, o Teatro Municipal estava fechado, mas passou por uma rápida reforma para atender à programação do IV Centenário. Pela primeira vez, em sua história, foi apresentado na plateia do Teatro Municipal um espetáculo, com os atores entre os expectadores, chamava-se “Cristo na Poesia”, com o grupo ETC (Expansão Teatro e Cultura), o grupo oficial de teatro do IV Cnetenário. Foi ainda no IV Centenário que veio para Niterói toda a cúpula do Conservatório de Teatro do RJ (atual faculdade Unirio): os professores B.Paiva, diretor da Faculdade; Pernambuco de Oliveira; Orlando Macedo; Glorinha Bentermuller; Nely Lapor e Barbara Heliodora. A nova geração de teatro talvez não saiba da importância desses nomes.

A Comissão do IV Centenário funcionava no INDC, Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural, que apresentou o primeiro Plano Municipal de Cultura do País. E lá se vão quase meio século até chegarmos ao Plano Municipal de Cultura é um Direito!

Na época, foram realizados também O Salão Fluminense de Belas Artes e o Concurso de Piano das Américas, com a presença da pianista Magdalena Tagliaferro e do pianista Guerra Peixe.

Após o IV Centenário, o prefeito Ivan Barros resolveu construir o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno. Da mesma forma como aconteceu com a criação do MAC (Museu de Arte Contemporânea), alguns políticos, jornalistas e intelectuais, foram contra o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno e também contra a homenagem ao embaixador.

O sucessor de Ivan Barros, o engenheiro Ronaldo Fabrício, foi nomeado prefeito pelo governador Faria Lima, sendo o primeiro gestor de Niterói pós-fusão. Fabricio fez uma administração com rigor técnico, na qual criou o Parque da Cidade e a Enitur, órgão de turismo.

Logo após, Moreira Franco foi o primeiro prefeito eleito após o golpe militar de 1964, com grandes avanços na área cultural. O INDC foi extinto e criada a FAC- Fundação Arte e Cultura. Com Moreira, Niterói também foi pioneira na construção de um sambódromo, desmontável, onde atualmente está localizado o Caminho Niemeyer. Neste local, foi realizado o melhor carnaval de todos os tempos. Na época, o escritor Jorge Amado, que esteve em Niterói, declarou que o Carnaval da cidade era o segundo melhor do País.

Moreira colocou em prática vários projetos que se destacaram: o Recontar – reunindo tradicionais e novos escritores no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno; Arraial da Praia Grande, réplica de cidade construída, com festival de quadrilhas; 1º Festival de Ballet, coordenado por Helfany Peçanha; o “Projeto Domingo Boa Praça”, nas praças, favelas e ruas da cidade, semelhante ao atual projeto “Arte nas Ruas”. Este projeto, além de levar arte para as comunidades, debatia com os moradores os problemas locais. Outro projeto pioneiro foi “Sábado é dia de Criar”, nas escolas municipais, abertas aos sábados para apresentações de atividades culturais locais e grupos convidados. Moreira trouxe Albino Pinheiro para implantar na cidade o Projeto “Seis e Meia” e depois surgiu o “Barca das 7”.

 Na área de Teatro, Moreira Franco convidou a teatróloga Maria Jacintha, que criou o teatro Estável de Niterói . Na época, numa conversa com Maria Jacintha eu perguntei:

– “Por que não criar uma escola de teatro na cidade? O que você tem para nos ensinar é maior que o Teatro Estável, a exemplo do que você construiu no Teatro Duse com Paschoal Carlos Magno”, disse a ela.

Maria Jacintha respondeu: “O Teatro Estável já tem a proposta de ser uma escola”.

A genialidade da mestre Jacintha estava sempre à frente do seu tempo. Seu sonho e a semente que deixou até hoje são uma esperança : uma escola de teatro na cidade.

Na gestão do prefeito eleito Waldenir de Bragança, foram criadas as primeiras Secretarias de Cultura e de Turismo da cidade e transformada a FAC – Fundação de Arte de Niterói em Funiarte. O que talvez simbolize a maior ação do prefeito na área cultural, foi a reconstrução da Praça da República, com as peças que foram abandonadas num terreno do setor de Limpeza Urbana na Ponta D`Areia.

Waldenir de Bragança inaugurou também a Casa de Cultura Norival de Freitas; criou a Cidade da Criança e o Parque Olímpico, onde foi construído o Caminho Niemeyer; criou a Banda Municipal Santa Cecília, tendo no comando o maestro Bernardo, falecido recentemente; criou o Espaço José Cândido de Carvalho; realizou o I Seminário de Cultura; valorizou e investiu no Arraial da Praia Grande, no Teatro Estável e no Balé da Cidade.

Vale destacar que Waldenir criou a Companhia de Balé de Niterói. Porém, nas gestões seguintes, cada prefeito, foi o caso de Moreira Franco, refazia a Companhia com novo escopo. O prefeito seguinte, Jorge Roberto Silveira, consolidou a Companhia de Balé de Niterói, abrindo, inclusive, um concurso público, o que deu estabilidade aos diversos profissionais que atuaram na Companhia. No entanto, o principal foco que era levar espetáculos e cursos para as comunidades foi se perdendo. No último governo de Jorge Roberto, a Companhia quase foi extinta, retomada, posteriormente, pelo prefeito Rodrigo Neves, que ampliou o espaço da Companhia em caráter nacional.

O Jorge Roberto Silveira, e seu principal aliado João Sampaio, ficaram no poder quase 20 anos. Todo este período é marcado pela expansão da cultura num patamar internacional , em vários eixos: a recuperação dos patrimônios históricos, como foi o caso do Teatro Municipal, da Igreja de São Lourenço dos Índios, do Museu Popular Janete Costa e o Solar do Jambeiro; a criação de novos equipamentos como o Caminho Niemeyer, tendo como destaques o MAC, o Reserva Cultural, Museu Popular Janete Costa. Niterói virou capital internacional da Cultura nos encontros com Cuba, Portugal, Espanha, dentre outros países. Foram criados também a Niterói Disco, a Niterói Livros e o exitoso Projeto Aprendiz.

O MAC, independente de seu acervo e das exposições que abriga, virou uma referência internacional. Atualmente, é o atrativo cultural e turístico mais visitado da cidade.

Após a renúncia de Jorge Roberto ao cargo de prefeito, assume o vice, Godofredo Pinto, que depois se elege prefeito. Ele dá continuidade aos projetos de Jorge Roberto: promoveu novos encontros internacionais; apoiou projetos já existentes tais como: Arte nas ruas e o Aprendiz e, no Caminho Niemeyer, inaugurou o Teatro Popular.

Rodrigo Neves, pós Jorge, assume o governo com a cultura ganhando destaque, nacional e internacional, conquistando, praticamente, todos os melhores ranking administrativos.

Rodrigo Nevesa cria um diálogo maior com os artistas e produtores da cidade; promoveu Niterói ações culturais que se tornaram referências em políticas públicas, eventos internacionais e a transformação de Niterói na cidade do Audiovisual.

 Rodrigo teve a grandeza de dar continuidade ao término do Caminho Niemeyer. Reabriu, com toda logística, o Museu Popular Janete Costa; reabriu o MAC com uma cirúrgica reforma, organizando no local grandes eventos; recuperou e dinamizou o Teatro Popular; inaugurou o melhor espaço multiuso de espetáculos, a sala Nelson Pereira dos Santos; colocou Niterói no Sistema Nacional de Cultura; democratizou os espaços culturais com a implantação de editais e revitalizou o Projeto Aprendiz.

O prefeito Axel Grael está no mesmo ritmo de fomentar a cultura no município e, na pandemia criou mecanismos, através de editais, para ajudar a rede produtiva de artes na cidade e já lançou uma série de outros editais que contempla grupos, companhias e artistas. Até outubro de 2021, cerca de R$ 34 milhões foram investidos no setor cultural de Niterói, em diversas ações da Prefeitura de Niterói. Além das chamadas públicas, o Programa de Auxílio a Microempreendedores Individuais concedeu benefício emergencial de R$ 500 por mês a MEIs – mais de 3.900 dos beneficiados pela ação da Prefeitura integram o setor cultural da cidade.

Mais recentemente, foi realizado o Encontro “Cultura é um Direito” com plano de ações, novos editais e o apoio a Conferência Municipal de Cultura, que produziu o Plano Municipal de Cultura, que deverá ser encaminhado à Câmara de Vereadores de Niterói.

A cidade avança, redefinindo ações, precisando quebrar amarrar e chegar lá na ponta, na periferia, nos guetos e nos movimentos sociais.

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