Marighella, o filme

Por Luiz Antonio Mello

Quem for ao cinema esperando um filme panfletário,  escandaloso, politiqueiro, tratando o protagonista como herói vai se decepcionar. “Marighella”, filme de Wagner Moura, é um relato reto, direto, objetivo, 100% fiel ao livro “Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo”, do premiado jornalista carioca Mário Magalhães.

Ao longo de quase 800 páginas ele conta em detalhes a vida do escritor, professor, ex-deputado federal e guerrilheiro comunista marxista-leninista baiano Carlos Marighella, executado com dezenas tiros por policiais do DOPS, Departamento de Ordem Política e Social, no bando traseiro de um Fusca depois de cair numa emboscada na Alameda Casa Branca em São Paulo. Foi na noite de 4 de novembro de 1969. Tinha 57 anos.

“Marighella” é um filme de ação, recheado de cenas de tiroteios extremamente bem feitas. Aborda basicamente os capítulos finais da vida do guerrilheiro (1969) que à frente da Ação Libertadora Nacional acreditava que poderia derrubar a ditadura militar à bala. “Discursos não levam a nada. Tem que ser olho por olho, dente por dente”, costumava dizer.

Perguntado sobre o tom de pele do ator Seu Jorge ser mais escuro que o de Marighella, o diretor, também baiano Wagner Moura, disse que “para mim, Brown, Jorge e Marighella são três homens pretos. Eu acho que acertei quando emprestei Marighella e acertei ao inverter o embranquecimento.”

O elenco brilha no filme, com destaque para Seu Jorge e Bruno Gagliasso, que vive o polícial Lúcio que na vida real se chamou Sergio Paranhos Fleury cuja biografia foi marcada pela crueldade. Também atuam Adriana Esteves, Herson Capri, Bela Camero, Humberto Carrão e Luiz Carlos Vasconcelos, entre outros.

“Não tenho tempo para sentir medo”, Marighella disse numa conversa. Perguntaram se achava possível derrubar a ditadura que contava com milhares de militares, tanques, aviões. Ele respondia que “vou contar com o apoio do povo, como aconteceu em Cuba e no Vietnã”.

Um equívoco fatal. Para começar a imprensa estava em parte censurada, em parte conivente com a ditadura e a propaganda do governo tratava Marighella como sanguinário, fascínora, terrorista. E a maioria absoluta da população só tinha acesso a propaganda oficial. Além disso, tradicionalmente, a população brasileira repudia os radicais.

Um exemplo bem nítido foi Janio Quadros que, anos mais tarde, confessou que renunciara em 25 de agosto de 1961, apenas sete meses depois de tomar posse, achando que o povo faria uma revolução que o reconduziria a presidência como ditador. O povo o ignorou.

Seu Jorge vive o personagem com perfeição. Os livros descrevem Carlos Marighella como um homem ponderado,  equilibrado, maduro e foi essa imagem que Seu Jorge conseguiu passar para a tela.

O filme mostra a dizimação gradual da ALN. Um por um os guerrilheiros vão sendo mortos, o que, por sinal, aconteceu com todos os grupos que optaram pela luta armada no Brasil. Se tivesse tido tempo, certamente Marighella teria feito uma reavaliação (como fizeram outras lideranças que sobreviveram) e, quem sabe, concordado que o melhor e mais saudável caminho para se chegar ao poder são as vias democráticas.

O final do filme é dramático e segue fiel ao livro de Mário Magalhães. Na biografia (o filme substituiu os nomes reais), em uma emboscada preparada a partir das informações obtidas por meio da tortura dos religiosos, o policial Sergio Paranhos Fleury obrigou os frades a confirmar o encontro com Marighella. O encontro foi marcado na Alameda Casa Branca, uma rua próxima à Avenida Paulista, em São Paulo.

Ao chegar na Alameda, às 20h, Marighella dirigiu-se ao Fusca e sentou no banco de trás. Mesmo percebendo a emboscada, ele não reagiu e foi fuzilado. Estava desarmado e portava  cápsulas de cianeto de potássio para tomar caso sobrevivesse e fosse preso. Fleury, então, mandou um policial “plantar” uma arma junto ao corpo.

Vale a pena assistir.

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