Marco Antônio Cabral: ‘meu pai é o único preso e 250 condenados pela Lava Jato estão livres. Isso não é justo’

Por LUIZ ANTONIO MELLO, MARCELO MACEDO SOARES E VÍTOR D’AVILA

Marco Antônio Cabral foi um dos deputados federais mais votados em 2014. No entanto, em 2018, não conseguiu a reeleição. Orgulhoso em dizer que é filho do ex-governador Sérgio Cabral, que continua preso, Marco Antônio tenta, em 2022, retomar sua carreira na política. Em entrevista ao jornal A TRIBUNA, o político fez uma análise do cenário político deste ano.

Em relação ao fracasso na sua tentativa de reeleição de 2018, ele atribui à ânsia por renovação por parte do eleitorado. Contudo, ele admite que a prisão de seu pai, em 2016, também foi crucial. Naquela campanha, ele recorda que chegou a ser recebido com hostilidade por parte da população, diferente da boa receptividade que afirma estar tendo atualmente.

“2014 foi um ano em que a população ainda votava no político que tinha alguma entrega. Eu representava o governo que também conseguiu fazer o sucessor. Ao longo desses quatro anos ocorreram alguns fatores que fizeram a população querer a renovação, não à toa o Witzel se elegeu. Foi a maior renovação da história da Câmara Federal. Comigo ainda houve um fator agravante, que foi a prisão do meu pai no final de 2016”, afirmou.

Ainda falando sobre a eleição de 2014, naquela campanha Sérgio Cabral apostou todas as fichas na eleição de seu então vice, Luiz Fernando Pezão. Quase oito anos depois, Marco Antônio afirma que foi uma escolha equivocada. O ex-deputado subiu o tom contra o Pezão, a quem chamou de gestor inábil por não ter considerado os problemas orçamentários que viriam e descartar realizar a concessão da Cedae.

“Foi um equívoco a escolha do Pezão. Ele é uma boa pessoa, mas como gestor se mostrou muito inábil. Já era esperada uma queda de arrecadação. O Sérgio Ruy Barbosa (ex-secretário de Fazenda) falou ao Pezão que iria acontecer um cenário caótico. O governador não fez absolutamente nada. Foi falado várias vezes da concessão da Cedae que, na época, daria cerca de R$ 10 bilhões a mais do que deu agora. Ele simplesmente ignorou”, continuou.

Lava Jato, Eduardo Paes e Lula

Embora admita que seu pai cometeu erros que o levaram a prisão, Marco Antônio afirma que considera injusto que Sérgio Cabral continue encarcerado até hoje. O ex-deputado frisa que o pai é o único alvo da Operação Lava Jato a continuar na cadeia, mesmo tendo colaborado com as investigações. Marco Antônio deposita em três habeas corpus, que ainda serão julgados, a esperança em ver o pai solto novamente.

“Após a prisão, foi construída uma narrativa falsa de que meu pai quebrou o estado. Meu pai deixou o governo em abril de 2014 com dinheiro em caixa, com o pagamento de fornecedores em ordem. Tanto que passaram mais de dois anos e os problemas só foram ocorrer em meados de 2016. Houve erros que ele e muitas pessoas cometeram. Ele foi um dos poucos que teve a hombridade de reconhecer esses erros e pedir desculpas à população”, destacou.

Quando Sérgio Cabral era governador do Rio de Janeiro, a relação próxima que mantinha com o então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e com o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes (PSD), fez com que eles fossem apelidados de “santa trindade” da política. No entanto, Marco Antônio afirma que o cenário se modificou após a prisão de seu pai.

“Com o Lula nunca mais falei. O último contato que tive com ele foi em janeiro de 2016, quando ele estava na casa de um amigo no Rio. Tenho um enorme carinho por ele. Em relação ao Eduardo, eu não falava com ele havia bastante tempo. O reencontrei na Sapucaí, falamos rapidamente, mas não tenho mais nenhuma relação política com ele. Perdeu-se o contato, depois o Eduardo teve problemas, o Lula foi preso, então nunca mais estivemos juntos”, contou.

Além disso, o ex-deputado afirmou que, mesmo com os problemas que o pai possui com a Justiça, não pretende desgrudar sua imagem do ex-governador Sérgio Cabral.

“Não pretendo por motivos simples: Primeiro que sou parecido demais com ele, as pessoas reconhecem logo. Segundo que nunca me afastei do meu pai. Quando a gente está numa situação confortável, todo mundo quer estar perto. Quando acontece o que aconteceu, muitas pessoas fingem que não te conhecem, que nunca tiveram intimidade. Eu como filho jamais poderia ter uma postura diferente”, completou.

Segurança pública

Além do campo político, Marco Antônio falou sobre outros temas, como a segurança pública no Rio de Janeiro. Ele demonstrou preocupação com o avanço de grupos milicianos em áreas como a capital e Itaboraí, na Região Metropolitana. Além disso, ele discorreu sobre a cooperação desse tipo de atividade criminosa com o tráfico de drogas, o que tem gerado o fenômeno da narcomilícia.

“O governo Cabral foi o que mais combateu a milícia, prendendo inclusive políticos que tinham o apoiado na eleição. Muitos outros chefes de milícia foram presos também. O próprio Marcelo Freixo pegou carona, com a CPI, mas quem trabalha é o governo. A milícia é um fenômeno que hoje se mistura ao tráfico. O tráfico quer fazer a mesma coisa da milícia, cobrar do morador, obrigar a fazer o ‘gatonet’. O tráfico e a milícia hoje dominam a Região Metropolitana do Rio”, pontuou.

O ex-deputado também elogiou o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), que tem sido alvo de críticas nos últimos anos. Marco Antônio disse que o projeto foi abandonado a partir de 2014, pela gestão do ex-governador Pezão, e apontou como falha a implantação em comunidades gigantes, quando, em sua concepção, o ideal seria colocar as unidades em áreas menores.

“A única política pública que estava começando a desconstruir isso, ou no mínimo combater isso, foram as UPPs. Infelizmente essa política pública foi abandonada. A dois passos da UPP há uma banca de drogas. Houve erros no projeto, mas estava dando certo. Acho que a questão social é importante, agora uma coisa não tem a ver com a outra. Pode ter 200 projetos sociais na Maré, que não vai acabar com o domínio do narcotráfico”, analisou.

Leste Fluminense e Região dos Lagos

No que diz respeito a projetos para as cidades do Leste Fluminense e Região dos Lagos, Marco Antônio defendeu que os deputados federais do Rio de Janeiro atuem na obtenção de emendas às prefeituras. Além disso, ele fez um balanço sobre medidas importantes para a economia fluminense, como o leilão das concessões da Cedae.

“É uma região fundamental para o estado, emprega milhares de pessoas. Niterói por várias vezes foi a melhor em qualidade de vida do estado. Maricá é um polo fortíssimo. Nós como parlamentares, precisamos auxiliar essas prefeituras na captação de recursos em Brasília, destinar emendas a esses municípios. Se cada deputado tiver preocupação em mandar emendas a seus municípios seria muito importante”, disse.

Cedae – “A concessão da Cedae foi um passo muito importante que o Estado deu recentemente e que a gente tem que cobrar a execução do serviço. Em parte de São Gonçalo, Itaboraí e Tanguá ainda persiste o problema da falta d’água. O asfaltamento de vias avançou muito nos últimos anos e acho que o parlamentar tem que estar atuando em todos os municípios do estado”, prosseguiu.

Amadurecimento

Por fim, Marco Antônio Cabral afirmou ter amadurecido nesses últimos anos em que esteve distante de funções públicas e revelou que, mesmo após a prisão de seu pai, sua família continuou unida.

“Amadureci muito nesse período, fizemos um trabalho muito bacana na Secretaria de Estado de Esportes, apresentei 46 projetos de leis, como o do gás. Não me arrependo de nada. Nossa família se manteve unida. Tenho muita fé que em breve ele estará em casa, que é o direito dele. Meu pai é um ser humano muito resiliente. Não sei como ele resistiu até hoje, mental e fisicamente falando”, finalizou.

Indústria naval

Marco Antônio falou também sobre a questão da indústria naval. Ele diz que o Estado do Rio, como maior produtor de petróleo do Brasil, deveria receber um retorno maior da União.

“Vi o renascimento da indústria naval entre os anos de 2006 e 2014, não só em Niterói, mas também em São Gonçalo. Após a crise do petróleo, a indústria entrou em colapso e milhares de empregos se perderam. Nosso papel como parlamentar federal em Brasília é lutar para que a indústria Naval volte a ser umpolo de geração de emprego e renda. A Petrobras arrecada muito neste estado e devolve muito pouco. Os estaleiros devem voltar a funcionar, as embarcações devem voltar a ser feitas no Brasil, no Estado do Rio, que produz 85% do petróleo do Brasil. Arrecadamos (Estado do Rio) R$ 250 bilhões para a União e só recebemos cerca de R$ 60 milhões por ano. O Estado dá muito mais para a União do que ela nos devolve”, afirmou.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.