Mais carinho e atenção para as gestantes na hora do parto

Wellington Serrano –

Na semana em que a Câmara de Vereadores de Niterói deve votar projeto de lei do Executivo em que pede mais atenção as gestantes, a equipe de A Tribuna foi aos hospitais maternidades para explicar: ao contrário de hospitais públicos, que contam com psicólogos e assistentes sociais, a rede particular não conta com estes profissionais para dar apoio às famílias e funcionários nas maternidades. Não é incomum o bebê nascer com problemas sérios ou até mesmo em óbito, e essas notícias são dadas pelos próprios médicos ou enfermeiros.

Os pais, que não contam com nenhum apoio nestes momentos difíceis, ainda tem que lidar com os profissionais que vivem isso diariamente e de tão acostumados não sentem que a falta de aconselhamento profissional nestes casos, podem acalentá-los em um momento já de muito abalo emocional.

Foi o caso da enfermeira Daiene Rosa, de 30 anos, que sentiu isso na pele. Ela conta que, apesar de estar na Maternidade Leila Diniz na hora de um parto de alto risco a médica foi muito fria ao dar a triste notícia.

“Ela entrou no quarto e perguntou o meu nome e o da bebê, que ia se chamar Alice, e disparou: ‘ela acaba de falecer tá?’. Como pode num hospital que é referência acontecer algo terrível assim? Para a médica a morte da minha filha parece que não foi nada demais. Mas, para mim minha filha estará sempre presente”, lamentou.

Segundo ela, hoje, após ter vivido a pior experiência que alguém pode ter, faz questão de orientar as pessoas para fazerem o possível de investigação antes de engravidar.

“Ninguém merece passar o que passei, principalmente quando um médico diz que aquilo não é nada demais ou coisa da sua cabeça (geralmente é o que eles fazem). É revoltante! Mas, como sempre digo, a nossa dor só dói na gente mesmo, o mundo está cheio de pessoas cruéis, que ficam felizes vendo o sofrimento do outro. Podem acreditar, porque até um ‘bem feito’ eu já ouvi com a perda da minha filha. Desumanidade não está só na negligência médica não. É cruel, mas por incrível que pareça está nas pessoas ao nosso redor. Nada fará Alice voltar mas tudo tem uma lição. Para sempre será o amor de toda a minha vida”, desabafou Daiene.

“Tem momentos que são muito mais duros para aceitar, principalmente se houver a negligência de alguns médicos que parecem não serem humanos. O problema é que a gente fica nas mãos de pessoas que estudaram para te guiar e te deixar segura e infelizmente a realidade é o inverso. Já vi vários casos e fiquei sabendo da infelicidade de várias mães que cairam nas mãos de pessoas incapacitadas e desumanas. Uma pessoa instruída não pode negligenciar numa hora dessas, o que falta nas maioria das maternidades é um bom acompanhamento para que esse desfecho não seja terrível”, contou Burna Maria, de 27 anos.

Segundo Deborah Delage, representante da ONG Parto do Princípio, o que a Daiene passou chama-se: violência obstétrica, apesar de um despacho do Ministério da Saúde essa semana orientar para a abolição do termo “violência obstétrica” no uso de políticas públicas.

“O termo assusta e com razão. Embora nem todas as mulheres estejam familiarizadas com o assunto, muitas já foram vítimas desse tipo de agressão, que pode ser física ou verbal, tanto durante o parto quanto no pré-natal”. Ela disse que xingamentos, recusa de atendimento, realização de intervenções e procedimentos médicos não necessários, como exames de toque a todo instante, grandes episiotomias ou cesáreas desnecessárias acontecem mais do que se imagina. “Isso só para citar alguns dos exemplos dessa enorme lista. Normalmente acontece quando os interesses do profissional de saúde ou da instituição são colocados acima dos direitos da paciente”, explica.

Deborah destacou que deve vir da maternidade a condição de melhorar a qualidade de vida e erradicar todas as formas de violência contra a mulher.

“Há várias situações, como a cesariana sem indicação clínica. Às vezes, acontece uma violência psicológica junto e a equipe ameaça, diz que se a mulher ‘não colaborar’ ela e o filho vão morrer… Há uma linha muito tênue”, concluiu.

Para a psicóloga Fátima Coutinho Ornellas, o parto natural é certamente a melhor escolha tanto para a mãe quanto para o bebê. Ela disse que uma cesariana é um procedimento cirúrgico com todos os seus riscos de infecções , aderências na região abdominal e muitos outros possíveis problemas.

“Na verdade, seria uma solução apenas quando houvesse algum risco para a vida da mãe e/ou do bebê. Ainda assim, algumas gestantes por medo das dores do parto solicitam a cesariana, mas quando orientadas compreendem sem problemas as vantagens do parto natural”, declarou.

Ornellas condenas que médicos e instituições hospitalares também prefiram optar pela cesariana, para ganhar tempo, já que o trabalho de parto pode durar até 14h, não sendo interessante para o médico e sua equipe permanecer tanto tempo a disposição da parturiente. “A cesariana também é melhor remunerada, fato que a torna mais lucrativa. Embora por lei toda gestante tenha garantido o direito ao parto humanizado, ao total acolhimento e ao respeito a sua individualidade, inclusive tendo direito a um acompanhante de sua livre escolha durante o parto, nem sempre é assim que acontece”, criticou.

A psicóloga lamentou que a gestante pode ter na prática esses direitos negados. “É um momento sublime, uma experiência única na vida da mulher que pode se transformar numa dolorosa angustia e uma frustração inaceitável. Podendo inclusive deixar graves sequelas físicas e psicológicas. Episiotomias desnecessárias e mal executadas sem prévio aviso, cesarianas sem indicação, ausência de anestesia durante o parto e comentários humilhantes e desrespeitosos em relação a gestante são mais comuns do que imaginamos. Enfim, nesse momento tão delicado, o sentimento que surge é a angustia do próprio abandono que vivencia. Ela se sente desvalorizada, agredida e vive uma experiência de total desamparo físico e emocional”, explicou Fátima Ornellas.

Ela ressaltou que toda e qualquer violência obstétrica, seja física ou psicológica poderá prejudicar a produção do leite materno e o próprio ato de amamentar. “A gestante pode apresentar após a experiência traumática depressão, ansiedade e mesmo dificuldade em estabelecer contato e oferecer os primeiros cuidados ao seu bebê. É possível também, que não tenha mais desejo de engravidar novamente. E não para por ai, podemos dizer que a experiência poderá até afetar sua sexualidade e a relação com seu parceiro, dependendo da situação vivenciada e das sequelas físicas e psicológicas deixadas. Muitas mulheres inclusive, precisam de cirurgias reparadoras e acompanhamento psicológico”, afirmou.

Em relação a violência obstétrica ela diz ter visto que recentemente o ministério da saúde a pedido da classe médica elaborou um despacho se posicionando contra a expressão violência obstétrica, afirmando que a palavra violência pressupõe uma intencionalidade em ferir alguém, o que não corresponderia a atuação médica.
“Concluem que o uso do termo seria portanto impróprio e inadequado. Sinceramente, não sei que outra expressão poderiamos usar para falar sobre esse tipo de sofrimento que as mulheres passam. Na verdade na minha opinião, é violência sim o que acontece com essas mulheres. Infelizmente percebemos que nem sempre o parto é humanizado como defende a lei. Com frequência o parto é um ato produzido, com tempo e interesse marcados, realizado num correr desumano de um cronômetro que determina o momento certo que a vida ou a morte deverá chegar. A mulher é a mãe que nascerá junto com o bebê e que nas situações de violência obstétrica acaba perdendo o protagonismo natural para outros interesses. É essencial que se debata o assunto e que todo e qualquer tipo de violência seja denunciada em respeito a essa que é a única capaz de dar a luz a vida humana”, evidenciou.

Nas Câmaras Municipais o assunto é bem tratado. O vereador niteroiense Leandro Portugal (PV) disse que disponibiliza em seu gabinete toda forma de apoio a essas mulheres afetadas e que um projeto de lei para que torne obrigatório a presença de psicólogos e assistentes sociais em todos hospitais não é má ideia para dar suporte ao poder público para atuar em defesa dessas mulheres.

“A partir de um enfoque da psicologia hospitalar, apresentaremos uma proposta para combater alguma deficiência sobre isso, ou quando há alguma intercorrência decorrente dos partos. Pouco também se fala sobre o atendimento depois da morte de um bebê na maternidade, isso é inconcebível”, concluiu o vereador.

A direção da Maternidade Leila Diniz lamentou o ocorrido, e disse que não corresponde à política de humanização aplicada na unidade e preconizada pela Secretaria Municipal de Saúde.

“A paciente Daiene Rosa chegou à unidade em dezembro, após atendimento em maternidade particular, onde já havia sido identificado problema na gestação. Ela foi acolhida na Maternidade Leila Diniz para receber os cuidados indicados e, durante a internação, a equipe médica já havia conversado com a família sobre o prognóstico desfavorável do caso, o que infelizmente se confirmou com o óbito do bebê pouco tempo após o nascimento”, disse a direção da maternidade.

Já a Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura do Rio disse que preza pelo cuidado humanizado em todas as suas unidades de assistência e reafirma seu compromisso pela permanente orientação e capacitação de seus profissionais para o melhor atendimento à população.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 × 3 =