Luiz Antonio Mello: Um ‘Onassis’ na Baía de Guanabara

Antes da ponte, as antigas barcas Rio-Niterói chegaram a transportar quase 100 mil pessoas por dia, num ir e vir incessante, 24 horas sem parar. Em torno das barcas nasceram figuras folclóricas, alguma ficção, muita história.

Entre os muitos boatos, lendas e histórias reais que habitam a memóriadas barcas, está a que contarei depois dessa breve e necessaária introdução.

De acordo com a Wikipedia a Companhia de Navegação de Niterói foi criada em 14 de outubro de 1835.  A primeira embarcação a fazer a travessia foi o vapor inglês “Especuladora”, que, juntamente com as barcas “Nictheroyense” e “Praiagrandense”, formavam a totalidade da frota.

Cada vapor tinha capacidade para 250 passageiros, que atravessavam a Baía entre o Cais Pharoux (atual Praça XV de Novembro) e a Praça Martim Afonso (atual Praça Arariboia) em 30 minutos de viagem.

Ao longo do tempo, a má qualidade do serviço acabou provocando a Revolta das Barcas, um levante popular ocorrido em 22 de Maio de 1959 contra o serviço hidroviário na cidade.

Além de seis mortos e 118 feridos, resultou na depredação e incêndio tanto do patrimônio das barcas quanto da residência da família de empresários que administravam o serviço e terminou com intervenção federal e estatização das barcas.”

Nascia do fogo o Serviço de Transportes da Baía de Guanabara (STBG), do Governo Federal, considerado algumas vezes como o mais pontual do mundo por publicações.

Mas veio a fusão, em 1975, e Niterói perdeu a condição de capital do Estado. A fusão foi um desastre para ambos os lados. Por sugestão do amigo Renato Beranger li “A Revolta das Barcas”, livro de Edson Nunes, que dá uma aula sobre a rebelião.

No lugar do STBG criaram a tal da Conerj. As barcas deixavam de ser controladas pelo Governo Federal e passavam ao controle do estadual. Foi quando a coisa começou a desandar de novo até os dias de hoje, quando o serviço está em mãos de uma empresa privada. Ponto.

As barcas não são mais as mesmas, nem o Rio, nem Niterói, nem nós, mas o fim da barca da madrugada deve estar deixando muita gente com saudade. Gente que estudava ou trabalhava no Rio a noite e usava a barca “do sereno”, um celeiro de casos. Muitos casos que renderam crônicas, artigos, contos, livros, casamentos.

Guardo uma história daquele tempo, a de um amigo que era quase hippie, gente boa pra caramba e que naquele final dos anos 70 vivia uma grande paixão. Um dia teve uma idéia.

 Afoito, corajoso, tocou a ideia em frente e, as 23 horas e 45 minutos de um sábado de meia lua, estavam ele, a paixão (que já alcançara a condição de namorada), duas garrafas de vinho branco, um edredon, travesseiros, taças de cristal e velas.

Ele conhecia um marinheiro, daqueles que acordavam os passageiros batendo com um jornal no encosto dos bancos de madeira quando a barca chegava.

Meu amigo pagou a passagem, fez um sinal para o marinheiro amigo, entrou na barca, subiu e foi lá para a popa. Assim que a barca saiu, ele fez pepé para a namorada e em seguida subiu no teto da embarcação.

Esticaram o edredon, abriram o vinho, acenderam as velas, deitaram e passaram a noite ali, no teto da barca, sob o manto da meia lua, céu banhado de estrelas, brisa do mar, enfim, parecia o bilionário grego Onassis com Jaqueline num mega-iate. Rio, Niterói, Rio, Niterói, incontáveis vezes. Claro, fizeram amor, deram gargalhadas, sem que os passageiros suspeitassem o que estava acontecendo lá em cima.

Quando o sol ameaçou nascer em Niterói, o casal desceu. O marinheiro amigo já não estava mais – certamente seu horário havia acabado. Deixaram a embarcação e o amigo tirou uma única foto da proa de seu provisório ninho de amor. Foto que não mostra para ninguém.

Em Niterói, foram a padaria “Pão Quente”, tomaram café num copo só, juras de amor trocadas entre pequenos goles e fatias de queijo e presunto. Terminava assim mais uma viagem da “barca do sereno”. Uma de muitas, muitíssimas, cujo segredo o mar, mesmo poluído, consegue guardar até hoje.

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