Turismo predatório pode destruir o estado do Rio

Luiz Antonio Mello

Em entrevista a este jornal sábado passado, a prefeita de Saquarema, Manoela Peres (DEM) disse que o seu objetivo é tornar o turismo a principal fonte de receita do município. Para isso, ela pretende construir um mega parque urbano com 400 mil metros quadrados na área onde funcionou uma escola de aviação. Está sinalizando trilhas por áreas de reserva para estimular o ecoturismo, enfim, as intenções da prefeita são sadias e, de fato, podem tornar Saquarema um exemplo.

Consciente, durante a entrevista a prefeita tocou no calcanhar de Aquiles de praticamente todas as cidades turísticas do estado do Rio: o turismo predatório, a principal chaga que conseguiu levar quase a ruína absoluta cidades do porte de Nova Iorque, nos anos 1970. Manoela conta que ônibus super lotados invadiam o município e as pessoas, sem educação, enchiam as praias de lixo, detonavam a vegetação e não deixavam nada na cidade. A prefeita disse que está realizando ações educativas para preservar a cidade.

Infelizmente, prefeita, esses predadores só entendem a linguagem da punição. Ações educativas, está provado, entram por um ouvido e saem pelo outro. No caso de Saquarema a entrada de ônibus de turismo deveria ser limitada e a Guarda Municipal ganhar liberdade para multar e até expulsarou deteros meliantes que causam danos a cidade.

Se um cidadão, seja russo, cubano ou alemão, fizer mal a uma flor no Central Park, uma hora depois estará sentado na frente de um juiz que pode expulsá-lo. Conheço um brasileiro que foi deportado por estar pescando numa cidade americana onde era proibido. Foi da praia direto para o aeroporto. Democracia é defender o bem comum e aqueles carrinhos elétricos azuis com policiais circulando no maior parque da cidade estão ali para vigiar. Quem ousa cometer um mínimo delito, mesmo jogar um papel de bala no chão, vai ter que se entender com a Lei.

Niterói perdeu a Praia de Charitas e a Prainha de Piratininga para o turismo predatório. Nos domingos de sol quente, as duas praias que já foram lindas são tomadas por hordas de incivilizados que fazem o que querem na areia e na calçada. Ligam equipamentos de som em volume máximo, montam churrasqueiras, bebem em excesso causando brigas, jogam lixo para todos os lados. Na Prainha de Piratininga os ônibus lotados despejam gente de todas as regiões do Grande Rio, também dispostas a destruir o que estiver na frente.Uma situação de décadas que só piora porque o poder público não quer resolver. Tem pessoal, viaturas, estrutura para isso, mas algo impede.

O prefeito de Cabo Frio, José Bonifácio (PDT) promete restringir a entrada de ônibus na cidade durante o carnaval. Percebeu o caos que foi o réveillon, quando meio milhão de pessoas se amontoaram em praias que um dia foram paradisíacas como a Praia do Forte. O inchaço de gente no réveillon queimou nacionalmente o filme da Região dos Lagos (hoje vista como roubada turística), alvo preferencial do turismo predatório e se aproveita da malemolência do poder público. Em Búzios não havia espaço para caminhar. Uma cidade que nasceu do sossego permite festanças com artistas populares que reúnem milhares de pessoas em praias que não tem o menor vínculo afetivo com o balneário. Brigas, baderna, carros estacionados em qualquer lugar.

Torço por Saquarema e pela prefeita Manoela, já que a cidade, ao que parece, ainda tem salvação. No entanto, prefeita, aqui se aplica metade da frase atribuída a Che Guevara “há que ser duro, sem perder a ternura jamais”. No caso dos predadores as prefeituras devem ser duras. A ternura vem depois, quando merecida.

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