Poucos vão ler, mas preciso escrever sobre Danuza Leão

Luiz Antonio Mello

Danuza Leão não era youtuber, nem podcaster e muito menos blogueira, por isso poucos a conheciam. Logo, pela logica, poucos vão ler esta coluna.

Danuza foi uma corajosa jornalista e escritora que, infelizmente, morreu esta semana aos 88 anos levando consigo mais um pedaço do Rio de Janeiro dos tempos em que era cidade maravilhosa.

Até o final dos anos 1970 o Rio era pura vanguarda, ditava moda, hábitos, costumes. O que Danuza Leão inventava, imediatamente virava Rio. O que o Rio inventava, imediatamente virava Brasil, virava mundo.

Danuza, inquieta, cosmopolita, sempre à frente do tempo, capixaba de nascença, mas carioca na essência, morou algumas vezes na Europa, mas sempre retornava ao Rio que amava.

A amiga Carmem Mayrink Veiga (1929-2017) em seu livro de memórias lembrou que “em Paris, enquanto eu queria jantar no Maxim’s e andar emperiquetada, ela circulava pela Rive Gauche usando jeans, com o cabelo curto avermelhado. Era uma bossa completamente nova. Danuza sempre fez o que quis”.

Em 1960 o Rio deixou de ser a capital do Brasil e foi atirado a vala dos desterrados e degredados. Em 1975, veio o arrastão. Fizeram a fusão da Guanabara com o velho estado do Rio, transformado em xepa nacional, amontoado urbano tosco e deprimente, lixão político e social da pior espécie, dominado pela escória das narco milícias, ao som do sertanejo sem sertão e alguns arrotos ritmados que muitos chamam música.

Anti-músicas que deformam a cabeça de gerações e mais gerações de iletrados que acham que Pão de Açúcar é supermercado e Museu Nacional depósito de mortos.

Um dia desses no ônibus, linha 740 (eu gosto, alguma coisa tem que prestar nisso aqui), vi uma garota olhar um busdoor e perguntar para o amigo, também garoto: “quem é essa tal de general Costa?” Era o anúncio de um show de Gal Costa em Niterói.

Quem conhece o Brasil (tive e tenho esse privilégio) tem que ouvir, engolir, digerir e concordar que o estado do Rio se tornou o pior, mais corrupto, mais violento e mais medíocre da federação. Tanto que quase 10 governadores foram presos por corrupção em 30 anos. O atual era vice porque o titular foi defenestrado, acusado de corrupção. Empresas, instituições, indústrias, fogem aos bandos, como revoadas de gafanhotos, para longe, bem longe.

O estado do Rio inventou a rachadinha, as milícias, os parasitas do Vivendas da Barra, o petróleo é nosso e do PT, as balas perdidas. Aproveitando a porteira arrombada, organizações criminosas passaram a importar soldados de outros estados porque no Rio é mais fácil matar, traficar, corromper, sequestrar.

O Rio de Danuza Leão, de Angra, Búzios, Leme, Pontal, era antenado, bonito, culto e, acima de tudo, leve. Em suas crônicas e livros ela descreveu com prazer a essência bronzeada de uma cidade/estado de bem com a vida, orgulhosa de sua democracia, de suas universidades, do seu Centro histórico, de seu transporte elétrico à francesa (bondes e tróleibus), do samba de morro autêntico, dos embates políticos de alto nível, das passeatas estudantis que o Brasil copiou, assim como plagiou os biquinis e monoquínis das belas, estonteantes mulheres destiladas em prosa e verso pela carioquíssima bossa nova. A politicalha teve a indelicadeza de pegar tudo isso, jogar na privada e dar descarga as gargalhadas.

Forbes resumiu bem. Danuza começou a circular entre celebridades muito cedo. Muito jovem, viu a Bossa Nova nascer dentro do apartamento de seus pais, no Rio de Janeiro, onde nomes como Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra e mesmo Tom Jobim davam canjas em torno da irmã, Nara, que começava cedo na carreira de cantora.

Na mesma época, em uma temporada em Paris, trabalhou com o estilista Jacques Fath, o começo de uma carreira bem-sucedida como modelo, já que ela tinha o porte e a beleza exótica, em alta na época.

Logo em seguida, em 1953, casou-se com o lendário jornalista Samuel Wainer, fundador do jornal Última Hora, que teve entre seus articulistas Nelson Rodrigues e Paulo Francis e fechou as portas em 1971.

Com Wainer, Danuza circulou entre nomes importantes da política e fez questão de aparecer em uma foto ao lado do líder comunista Mao Tsé Tung durante uma visita à China.

Com Samuel teve três filhos: a artista plástica Pinky Wainer, o jornalista Samuel Wainer Filho, morto em 1984, e o produtor Bruno Wainer.

Em 1967, atuou no filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, um dos melhores do cinema nacional de todos os tempos. Danuza foi também uma promoter de sucesso e reuniu famosos nas noites do Rio de Janeiro nas boates Hippopotamus e Regine’s, ícones da onda disco.

Em 2004 publicou “Na Sala Com Danuza 2”. Em 2005 lançou “Quase Tudo”, um livro de memórias que ganhou o Prêmio Jabuti; em 2008, “Danuza Leão Fazendo as Malas”, sobre viagens, também ganhador do Jabuti e, por fim, “É Tudo Tão Simples”, em 2011, em que fala da simplicidade com que tentou viver. Danuza era símbolo do easy chic: não gostava de ostentar marcas e inspirava-se no estilo low profile das parisienses para se vestir.

A jornalista resolveu sair de cena depois que opiniões emitidas em alguns de seus textos em jornais viraram polêmicas. Danuza se declarou contra o movimento MeToo e contra a PEC que garantiu direitos trabalhistas às empregadas domésticas. Com isso, se afastou e viveu os últimos anos discretamente.

Foi quando o mundo se tornou doentiamente obtuso para ela e a estrela optou pelo eclipse.

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